O Espaço do Brincar em tempos de isolamento social

Colégio Santa Amália

21 de julho de 2020 | 11h00

“Temos de cuidar para, na medida do possível, não atrapalhar nem deformar a criança, valorizando o seu brincar, a sua alegria, o seu sim à vida, defendendo sua capacidade e seu modo próprio de entender o mundo”, Maria Amélia P Pereira.

 

A origem etimológica da palavra brincar, vem do latim e tem como radical a palavra “brinco”, que significa vínculo. Portanto, podemos entender o brincar como um acontecimento que permeia a construção das relações humanas, uma ação que traz em si a força e a possibilidade de entrarmos em contato com nosso universo interior e exterior. Fundamental para o processo de construção das relações individuais e coletivas, ao brincar vamos “colecionando” marcas significativas na nossa história de vida. Lembrar-se das experiências vividas relacionadas ao brincar é um exercício interessante que pode desencadear uma boa conversa ou momentos de reflexão e autoconhecimento.

Segundo Lydia Hortélio, “A substância do brincar é a alegria. A natureza é seu território primordial.”, certamente a ação de brincar está relacionada a um espaço, e que bom seria se esse espaço fosse a natureza, porém sabemos que nos dias atuais seja inviável para algumas famílias. Podemos então, pensar nesse espaço como um ambiente que dá condições para que as vivências aconteçam, promovendo uma relação harmônica entre quem brinca e a estrutura do lugar onde o brincar acontece. O importante é que o direito de ser quem você é nesse espaço e nessa relação seja preservado.

Quando dizem que “Brincar é coisa séria” certamente partem do conhecimento de que brincando damos ao nosso Ser a possibilidade de expressar nossa curiosidade e criatividade, partindo para ações que envolvam a exploração, a investigação, a indagação e o enfrentamento de desafios. Se desejarmos que o ser humano tenha um processo de desenvolvimento saudável devemos oferecer meios para que a livre expressão aconteça, proporcionando uma variedade de vivências em torno do brincar, que farão parte de um processo de aprendizagens significativas envolvendo várias linguagens de conhecimento.

Por esse motivo, precisamos garantir o direito às crianças (e adultos) de vivenciarem brincadeiras, em que a alegria, a soltura e a afetividade, possam estar presentes. Brincadeiras que resgatem a Cultura da Infância e experiências que integrem as nossas artes, abrangendo canções, danças, histórias, culinárias, como forma de valorização aos conhecimentos construídos ao longo da nossa história. Ao brincar, interagir, movimentar-se de forma espontânea conhecemos, descobrimos e ressignificamos novos sentimentos, valores, ideias, costumes e papéis sociais.

Mas, onde brincar? Do que brincar? Como brincar? Como permitir o exercício do brincar espontaneamente em tempos de isolamento?

Adultos, jovens e crianças estão vivendo momentos de ansiedade, incertezas, acúmulo de tarefas que geram estresse e consequentemente interferem nas relações de convívio. Sabemos que cabe a nós (adultos), a desafiante tarefa de garantirmos os pilares da saúde e do desenvolvimento adequado de nós mesmos e das pessoas do nosso convívio, procurando preservar o bem estar físico, mental e emocional. Especialistas de diversas áreas indicam o brincar ou momentos de lazer, como atividade favorável para prevenir o estresse tóxico, que é elevado e diário.

Para efetivar a ideia de incluir o brincar em um momento como o que estamos vivendo, precisamos em primeiro lugar resgatar em nós mesmos a importância que damos a esse tema. Ao avaliarmos e sentirmos verdadeiramente, que ele é significativo em nossa vida, partimos para o segundo movimento que é: dar a ele seu espaço físico e temporal, organizando a rotina diária e colocando o brincar entre as inúmeras tarefas do nosso dia a dia. Feito isso, é hora de buscar em nossas memórias da infância as brincadeiras que são possíveis de realizar, sozinho ou acompanhado, em pequenos ou grandes espaços, enfim o importante é resgatar essas lembranças e colocar em ação.

Não precisa ser nada elaborado, é na simplicidade que podemos ter grandes riquezas, uma brincadeira de “faz de conta”, uma dança, uma parlenda, um acampamento na sala, uma brincadeira de mímica ou pular corda, o mais importante nessa hora é a entrega, o envolvimento, é estar por inteiro no brincar. Vale a pena tentar… vale a pena parar e se divertir .. vale a pena compartilhar com alguém as brincadeiras de outrora, o “simples” fato de parar para lembrar, já é por si só prazeroso e preenche o nosso ser com lembranças, que alimenta a nossa essência e nos fortalece diante do hoje.

Se a memória falhar, se quiserem reavivar as lembranças, ou quiserem ler mais sobre o brincar existem muitas fontes de pesquisa que podem colaborar, eis algumas, “Território do Brincar”, “Lunetas”, “Aliança pela Infância”, “Casa Redonda – Centro de Estudos”.

 

Maria Cristina Silva

Professora do Colégio Santa Amália

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: