Desafios para a educação de surdos

Colégio Santa Amália

17 de abril de 2019 | 11h10

 

A Língua Brasileira de Sinais (Libras) enfrenta desafios educacionais e sociais de aceitação devido a todo contexto histórico para seu reconhecimento, o que, como conseqüência, gera grande repercussão do assunto nos dias atuais.

Considerando as dificuldades da comunidade surda, precisamos compreender a história e desmistificar informações para garantir uma sociedade mais inclusiva.

Ao longo de antigos períodos históricos, os surdos foram considerados “imbecis” e, por isso, não podiam ser educados. Essa situação só mudou no século XVI, quando educadores descobriram que existiam procedimentos pedagógicos para a inclusão desse grupo na sociedade.

Durante muito tempo, os pedagogos que se dedicavam à educação de surdos mantinham em segredo suas descobertas, o que trouxe reflexos para a educação dessa população até os dias de hoje.

Segundo Lacerda (1998), três grandes abordagens educacionais tiveram influência na educação dos surdos: a primeira, o oralismo, ensinava os surdos por meio da língua escrita (leitura-escrita), para que eles pudessem desenvolver outras habilidades, como a leitura labial e a articulação das palavras. Neste mesmo período, Charles M. De L’Epée desenvolveu o método educacional gestualista, descoberto pela observação de grupos de surdos que desenvolviam comunicação por meio do campo viso-gestual e de um novo sistema denominado “sinais metódicos”.

A segunda abordagem é chamada de comunicação total. Nela os surdos podiam usar sinais, leituras orofaciais, amplificação e alfabeto digital, sendo assim, o oralismo não era mais o objetivo da comunicação, e se tornou um dos meios de ensinar surdos. Contudo, a comunicação total mostrou-se ineficaz, já que havia ainda mais dificuldade em se expressar. Foi então que surgiu o último método, o bilinguismo.

Essa última abordagem educacional passa a reconhecer a língua de sinais como língua e não mais como linguagem, trazendo um reconhecimento social para comunidade surda. Dessa forma,a língua de sinais seria sua língua materna, aquela com que o indivíduo se identifica culturalmente e aprende primeiro, como ocorre coma língua majoritária dos ouvintesno Brasil: a Língua Portuguesa.

Atualmente no Brasil, o ensino de Língua de Sinais Brasileira é um direito garantido pelo decreto 5626, de 22 de dezembro de 2005. Dessa forma, a disciplina de LIBRAS é necessária para a formação docente em Pedagogia e em cursos de licenciatura de todas as áreas do conhecimento.

Diante da nossa realidade de escola inclusiva, há algumas questões a respeito da LIBRAS que os educadores precisam entender para receber alunos surdos, ensiná-los também a língua de sinais, para que então desenvolvam a língua portuguesa na sua forma escrita.

Para iniciar o conhecimento a respeito da língua, é necessário saberque a língua de sinais não é universal, isto é, apesar de algumas pessoas acreditarem que todos os surdos se comunicam através da mesma língua, isso não é verdade! Como as línguas orais, cada país possui a sua, como, por exemplo, a língua americana de sinais, a língua francesa de sinais e a língua japonesa de sinais. Além disso, há também as diferenças regionais, pois, quando em diferentes regiões do mesmo país, usa-se variados sinais para mesma palavra.

Segundo Gesser (2009), outra informação que nem todos sabem, e é fundamental para entender a LIBRAS como uma língua, é que ela possui gramática.Stokoe (1960) apontou três parâmetros em níveis fonológicos e morfológicos que constituem os sinais: configuração de mão, ponto de articulação ou locação e movimento. Alguns anos depois, Battison (1974) eKlima&Bellugi (1979) incluíram um quarto parâmetro: a orientação da palma da mão. Como nas línguas orais, a gramática de língua de sinais tem itens lexicais e flexão verbal, além de elementos gramaticais que não são manuais, como as expressões faciais, que compõe a estrutura da língua na marcação de formas sintáticas.

Uma fala comum pelas pessoas que não conhecem a LIBRAS e que propaga o preconceito com a comunidade surda é a afirmação de a língua de sinais é mímica. Diferente do que muitos pensam, o sinal representa um símbolo convencionado, sem detalhamento e grande dedicação de tempo para realizá-lo, o contrário do que ocorre coma mímica. Seguindo este raciocínio, destacamos que a língua de sinais não é exclusivamente icônica, apesar de ter uma grande quantidade de sinais, comobeber, avião e casa, que evidenciam tal iconicidade.  Além disso, podemos expressar conceitos abstratos que não seriam possíveis se fosse usada apenas a mímica.

Entender as questões pontuadas acima auxilia para que não haja propagação de preconceitos, e nos ajuda a pensar sobre a importância do aprendizado das duas línguas: as línguas – de sinais e portuguesa – não competem entre si ou se ameaçam, pois possuem a mesma importância.

A língua de sinais é de extrema relevância para a garantia dos direitos da criança surda. Como acontece com os ouvintes, ela possibilita um contato natural entre os indivíduos, de maneira que, desde bebês, os surdos sejam capazes de interagir com aqueles que o rodeiam. Da mesma forma, o ensino da língua portuguesa garante a inclusão legítima desse grupo na nossa sociedade, fazendo com que todos tenham os mesmos direitos, como acesso à informação, conhecimento e cultura.

 

Elizabethe Yuri Xavier

Colégio Santa Amália – Unidade Saúde