A HISTÓRIA DE ANA LUÍSA – SETEMBRO AMARELO

Colégio Santa Amália

14 de outubro de 2020 | 08h12

De todos os instintos que pudemos desenvolver em toda nossa evolução como seres vivos, o instinto de sobrevivência é um dos mais aguçados. Ele vive em nós hoje tão forte quanto vivia no íntimo mundo dos cromossomos dos nossos ancestrais que surgiram nos mares primitivos.

 

Porém, com o desenvolvimento do raciocínio humano e da construção da nossa sociedade como entendemos hoje, com todas as demandas que acreditamos serem necessárias de suprir naquilo que chamamos de “viver”, a espécie humana vem colecionando uma série de deficiências emocionais e comportamentais. Nos tornamos ansiosos, vaidosamente competitivos, deprimidos e tristes, presos em crenças e filosofias e, por incrível que pareça, conseguimos fazer com que todas essas emoções e comportamentos burlassem, de uma certa forma, esse instinto mais primitivo que é o da manutenção da própria sobrevivência. Então, a partir disso, em algum momento da nossa evolução, criamos o suicídio.

 

A palavra suicídio foi criada em 1737 por Desfontaines e significa “ação de matar a si mesmo”, como uma forma de encontrar refúgio na morte, diante de uma situação de forte emoção, profunda tristeza, sensação de que a vida não tem sentido ou que os problemas não têm solução, e que a morte será o fim de todo o sofrimento. Por muitas vezes, as pessoas que chegam a cometer o suicídio passam longos anos de sofrimento e, muitas vezes, optam por tirar a própria vida porque não encontram recursos internos que possam recorrer para tentar reverter a situação daquilo que estão sentindo, mesmo com muitos outros recursos disponíveis “do lado de fora”, como terapias e tratamentos. É quando chegam ao extremo do sofrimento humano e não enxergam solução alguma para sanar a dor daquilo que estão sentindo.

 

Desde 2014, em setembro, se fala sobre prevenção ao suicídio. É o “Setembro Amarelo”. Nesse setembro de 2020, tive o privilégio de conversar com uma amiga de longa data sobre o suicídio da sua única filha, aos 23 anos de idade. São daquelas conversas que conversamos mais com o coração e com a emoção. Que falam fundo na alma e nos fazem pensar tantas coisas.

 

Ana Luísa tinha 23 anos quando desistiu de viver. Após sofrer um abuso sexual aos 10 anos, carregou consigo a dor e o medo de não conseguir falar, pois o seu agressor havia ameaçado matar seus pais caso ela contasse alguma coisa. Essa experiência a fez mergulhar em uma profunda depressão que não foi percebida pelos pais e que ela carregou sozinha por anos. Durante a adolescência, a mãe relata que só percebeu duas mudanças no comportamento da filha: a opção por só usar preto e a descoloração completa dos cabelos, que eram castanhos escuros. Mas, como Ana Luísa tinha optado por entrar no ramo da moda, a mãe achou que essa mudança tinha algo a ver com a opção profissional escolhida pela filha. Apenas aos 23 anos, seis meses antes de cometer o ato do suicídio, permitiu à terapeuta que a acompanhava que contasse aos pais o que tinha ocorrido. Esse trauma deixou feridas muito profundas que ela tentou, mas não conseguiu lidar. A partir desse momento, quando ficaram sabendo do que realmente havia se passado com a filha, os pais de Ana Luísa tentaram todos os tipos disponíveis de tratamento e cuidados para trazer de volta a ela o brilho da vida.

 

Ana teve todo o acompanhamento e o amor dos pais. Teve apoio e recursos. Mas não conseguiu. Deixou uma lacuna imensa no coração de todos que a amavam, mas tudo o que aconteceu serviu de alicerce para que sua mãe pudesse criar uma rede de diálogo e apoio que chega hoje a muitas pessoas, muitas dessas que tiveram em suas vidas experiências tão amargas e doloridas como ela, que perderam filhos, esposas, maridos, irmãos, que simplesmente decidiram que não queriam mais viver. E é nessa rede de apoio que a própria mãe de Ana Luísa se ampara para continuar vivendo. Compartilhando sua experiência para que outras mães possam entender sinais, que possam ouvir mais, incentivando para que compartilhem momentos com seus amores e seus amigos, afinal, todos sofremos e passamos por momentos difíceis e é na disponibilidade de ouvir com paciência, no abraço que acolhe e na mão que oferecemos que poderemos oferecer o apoio para que, juntos, tenhamos forças para enfrentar as nossas dificuldades, para sanar nossas angústias e acreditar que viver é, sim, maravilhoso e que amanhã é um novo dia e poderemos começar de novo e de novo. Em tantas nuances que esse tipo de assunto pode ter, precisamos sempre saber que não existem parâmetros, critérios, julgamentos ou opiniões que consigam nos fazer compreender mais ou melhor toda essa problemática. Esse tipo de questão é daqueles em que os únicos critérios disponíveis para termos como base de compreensão são o amor e a compaixão. E muita disposição em conversar sobre tudo isso e saber como podemos nos apoiar mais e melhor nessas imensas bolhas de realidades que criamos.

 

É indiscutível que vivemos em uma sociedade que exige muito de nós. Que gera alguma crueldade no seu modo de julgar, na forma como acreditamos e praticamos nossas crenças, na maneira como nos colocamos e como exigimos que os outros se coloquem diante de nós. Acabamos cultivando muito desequilíbrio nas nossas funções como humanos e tudo isso tem gerado a construção de uma coletividade um pouco confusa diante de tudo que criou, mergulhada em um materialismo vazio e em conceitos que, muitas vezes, levam ao sofrimento. As ações e princípios que muitos de nós praticamos como coletividade podem tirar o sentido de viver de muita gente e é nisso que precisamos focar, quais são as mudanças que precisamos fazer no coletivo para que o sentido da vida seja valorizado, a vida de todos os seres que habitam esse planeta.

 

Como deixou claro a mãe de Ana Luísa, há que nos fazermos ouvintes, precisamos estar presentes na vida daqueles que amamos. E é esse o convite que este texto pretende fazer a todos que chegaram até aqui… Vamos abrir nosso coração para estarmos íntegros na vida de todos aqueles que amamos. Ao menor sinal de que algo não está bem, oferecer ajuda ou pedir ajuda, se for necessário.

 

O suicídio, para aqueles que ficam, é como se fosse uma história sem final e, para os que se vão, é uma solução sem garantias, afinal, o que sabemos de verdade sobre os mistérios da vida e da morte? Por isso, mesmo sendo um tabu, mesmo não havendo conclusão racional alguma que possa nos oferecer qualquer resposta, é um assunto que deve ser cada vez mais e mais discutido para que as pessoas possam sentir amparo antes de qualquer decisão que não possa ser revertida.

 

Então, só por tudo isso que pudemos aprender com aquele diálogo no começo de setembro, a vida de Ana Luísa e de muitos outros jovens que se foram por meio do suicídio devem ser honradas, pois, mesmo na passagem, estão deixando ensinamentos preciosos para todos nós.

 

E, por isso, nós te agradecemos, Ana Luísa.

 

Muito obrigada.

 

 

Silvia Rinaldi

Colégio Santa Amália (Unidade Saúde)

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