Educação Inclusiva: Teoria e Prática
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Educação Inclusiva: Teoria e Prática

Colégio Salesiano

20 Abril 2018 | 15h58

Por Valter Pereira*

O capítulo III, Seção I, artigo 206 da Constituição Federal de 1988 diz: “O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I – Igualdade de condições para acesso e permanência na escola.” Já a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) 4.024/61, em seu Artigo 88, traz o seguinte texto: “A educação de excepcionais deve, no que for possível, enquadrar-se no sistema geral de educação a fim de integrá-los na comunidade.” Não há, portanto, uma coerência nas leis brasileiras em relação a como deverá ser o processo de inclusão de alunos com déficit de aprendizagem no sistema educacional. A partir daí já podemos ter uma ideia das deficiências do ensino brasileiro no que se refere ao tema inclusão.

Atualmente, temos no Brasil um sistema educacional com um modelo estritamente seletivo, em que a educação se dá de maneira hierárquica, sistemática e progressiva, onde os alunos passam por um processo de “evolução” de estágios, sendo aferidos por meio de avaliações sistemáticas e contínuas. Nesse método de avaliação padronizada, há uma aferição universal sobre o que o aluno aprendeu ou não ao longo de um determinado período. Não se leva em consideração as especificidades individuais, suas habilidades, facilidades ou dificuldades. Se o sistema de avaliação de aprendizagem já é perverso com alunos ditos “normais”, imagina para alunos com algum tipo de restrição. Embora funcionalmente diferentes, os alunos com alguma deficiência de aprendizagem e/ou habilidades diferenciadas deveriam ser vistos como essencialmente iguais. O ser humano é dotado de individualidades e sua constituição social não se dá de maneira automática e sim com interações sociais dentro do ambiente de convívio. O atual sistema educacional carrega a ideia de “sujeito coletivo”, partindo do pressuposto que todos os alunos possuem a mesma história e perseguem objetivos comuns. As individualidades são colocadas em segundo plano.

 

As demandas na educação de hoje eram inexistentes há três ou quatro décadas. Não que dificuldades de aprendizagem não existissem, mas não havia estudos que propusessem intervenções inclusivas. É muito comum nos depararmos com afirmações que relatam broncas e até mesmo agressões de professores contra alunos que não conseguiam acompanhar o ritmo das outras crianças.

Nas últimas décadas, ampliou-se a discussão sobre os conceitos de liberdade e igualdade presentes em diversas Constituições pelo mundo. O ponto central da discussão é como tornar essa igualdade de direito em igualdade de fato no meio escolar. Como promover a inclusão dos alunos promovendo sua autonomia? Ampliaram-se também os debates sobre práticas inclusivas que promovam o desenvolvimento autônomo do aluno.

Toda a transformação das práticas educativas, tornando-as mais inclusivas, só se dará a partir de um amplo processo de mudança. Como diz a pesquisadora Isabel Sanches: “A mudança geradora de uma educação inclusiva é um dos grandes desafios da educação de hoje porque imputa à escola a responsabilidade de deixar de excluir para incluir e de educar a diversidade dos seus públicos, numa perspectiva de sucesso de todos e de cada um, independente de sua cor, raça, cultura, religião, deficiência mental, psicológica ou física”. Mais do que esperar que a mudança ocorra por parte do estabelecimento escolar, caberá ao professor repensar suas práticas. É preciso estudar e se especializar para conhecer as especificidades de cada deficiência e poder trabalhar de forma eficiente, de maneira a produzir formas inclusivas efetivas e não meras avaliações que medem apenas a capacidade de memorização e reprodução de cada um.

* Valter Pereira leciona há quinze anos na rede particular de ensino da cidade de São Paulo. Professor de História e Sociologia especializou-se em Bens Culturais pela Fundação Getúlio Vargas. É professor de História no 9ª ano e Ensino Médio no Colégio Salesiano Santa Teresinha e no Liceu Coração de Jesus. Atualmente vem aprofundando estudos em metodologias ativas de ensino-aprendizagem e metodologias de ensino baseada em análise e resolução de problemas.

Mais conteúdo sobre:

educaçãoEducação Inclusiva