Alfabetizar para participar!
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Alfabetizar para participar!

Colégio Salesiano

08 de setembro de 2020 | 16h16

Por Fábio Aurélio de Moraes*

Hoje, dia 08 de setembro, comemoramos o dia da Alfabetização. E o que significa alfabetização, em sua mais clara e humanizante missão?

O cérebro é capaz de reconhecer códigos e dar sentido a eles em um tempo e espaço. Segundo Ana Maria de Oliveira, do Centro de Estudos em Educação, Tecnologias e Saúde, do Instituto Politécnico de Viseu Portugal, “são vários os estudos que tentam demonstrar o quão complexo é o estudo da fala, sugerindo que nós usamos uma variedade de sentidos para a percepção da fala; sugerindo que o cérebro ‘trata’ a fala como algo que ouvimos, vemos e, inclusive, sentimos.” Mas alfabetizar significa apenas identificar esses códigos?

Observando a nova BNCC para o ensino fundamental, identificamos que “o processo de alfabetização deve ser o foco da ação pedagógica. Afinal, aprender a ler e escrever oferece aos estudantes algo novo e surpreendente: amplia suas possibilidades de construir conhecimentos nos diferentes componentes, por sua inserção na cultura letrada, e de participar com maior autonomia e protagonismo na vida social.”

Sendo assim, percebemos que a alfabetização é quase um rito de passagem, uma inserção em uma esfera linguística e comunicativa, uma forma de identificar intencionalidades, formas, pessoas e situações, e não apenas identificar letras.

Paulo Freire já dizia em A Importância do Ato de Ler (1988): “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”. E, ainda, em um texto publicado em 1970, nos Estados Unidos, ele anuncia: “O analfabetismo não é nem uma ‘chaga’, nem uma erva daninha a ser ‘erradicada’, nem tão pouco uma enfermidade’, mas uma das expressões concretas de uma situação social injusta”.

Segundo Cleomar Azevedo, “O processo de alfabetização, que mesmo com as mudanças ocorridas no sistema de ensino, ainda mantém um alto índice de alunos que não aprendem a ler e escrever, continua a ser uma preocupação para o sistema escolar. Mais crucial torna-se o problema, pois, diante da nova legislação, um contingente de alunos chega à quarta série do ensino fundamental sem, pelo menos, ter iniciado um processo de compreensão da linguagem escrita”.

Habermas, filósofo da linguagem e da política, da escola de Frankfurt, por sua vez, define a linguagem como um passaporte para as discussões em sociedade. “A Teoria da Ação Comunicativa procura um conceito comunicativo de razão e um novo entendimento da sociedade, ou seja, sociedade na qual os indivíduos participam ativamente das decisões individuais e coletivas conscientemente, ensejando-lhes a responsabilidade por suas decisões.” Ou seja, a linguagem é uma ferramenta de emancipação, participação nas decisões da coletividade.

Segundo Minayo, professora adjunta da Escola Nacional de Saúde Pública –  Fiocruz, “Habermas coloca como fundamento da comunicação as relações sociais historicamente dinâmicas, antagônicas e contraditórias entre classes, grupos e culturas, nas quais a linguagem possibilita, mas também dificulta a comunicação. E é com essa mesma infinita versatilidade que a comunicação permeia todas as relações estabelecidas durante o encontro dos seres humanos”.

Como aponta o Parecer CNE/CEB nº 11/201029, “os conteúdos dos diversos componentes curriculares, ao descortinarem às crianças o conhecimento do mundo por meio de novos olhares, oferecem-lhes oportunidades de exercitar a leitura e a escrita de um modo mais significativo”.

Segundo a empresa de Elsevier Brasil, o dia da alfabetização “foi criado pela ONU e pela Unesco, com o objetivo de ressaltar a importância da alfabetização para o desenvolvimento social e econômico mundial. A alfabetização é um direito humano fundamentado pela Declaração de Direitos Humanos (DUDH). Não alfabetizar é dificultar o acesso à saúde, à informação, ao mercado de trabalho e às condições mais dignas de vida”.

Destarte, alfabetizar vai além da apropriação da ortografia do português do Brasil escrito, de como se dá o processo de construção de um conjunto de conhecimentos sobre o funcionamento fonológico da língua pelo estudante, como especifica a BCNN para o ensino fundamental II.

Portanto, sem o devido olhar de emancipação linguística e neurodesenvolvimento, de acessibilidade a discussões coletivas, de políticas públicas para a formação integral da pessoa, a alfabetização será apenas uma habilidade para reconhecer códigos, desconectada de seu papel social.

 

*Fábio Aurélio de Moraes é coordenador do Ensino Fundamental II e Médio do Liceu Coração de Jesus. Filósofo, Pedagogo, especialista em Gestão Educacional e Neurociência aplicada à Educação e mestrando em Saúde da Comunicação Humana.

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