Setembro Amarelo: educador alerta sobre ataques virtuais e comentários negativos nas redes sociais

Setembro Amarelo: educador alerta sobre ataques virtuais e comentários negativos nas redes sociais

É cada vez mais urgente falar sobre comportamentos agressivos na internet e seus efeitos colaterais na sociedade.

Colégio Rio Branco

21 de setembro de 2021 | 10h29


Durante todo o período que envolve o Setembro Amarelo, assim como em todos os meses do ano, é importante estar atento aos sinais, sentimentos e motivações que possam levar uma pessoa a cogitar ou chegar ao extremo de tirar a própria vida.

A prevenção é fundamental, garantindo ajuda e atenção adequada. De acordo com o Centro de Valorização da Vida (CVV), a primeira medida preventiva é a educação. É preciso perder o medo de falar sobre o assunto. O caminho é quebrar tabus e compartilhar informações. Esclarecer, conscientizar, estimular o diálogo e abrir espaço para ações que contribuam para tirar o assunto da invisibilidade.

O suicídio é uma das principais causas de morte de pessoas entre 15 e 29 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, os números aumentaram nos últimos anos e alguns fatores relacionados ao uso da internet também têm despertado a atenção de especialistas de diversas áreas para algo que vem se tornando recorrente na sociedade e especialmente no universo jovem: os ataques virtuais.

O comportamento hater, a cultura do “cancelamento”, a intolerância ao diferente ou contraditório, a exposição de fotos, o incentivo a jogos e desafios perigosos, a propagação de fake news e discursos de ódio, se embrenham em uma perigosa teia, que além de configurarem crimes cibernéticos, em muitos casos, também resultam no cyberbulliyng – definição para o bullying praticado no ambiente virtual por meio de aplicativos de mensagens, plataformas de jogos e mídiais sociais, com o objetivo de assustar, expor, ofender, isolar, envergonhar e até chantagear vítimas.

Crianças e adolescentes, por dominarem o uso dessas ferramentas e transitarem facilmente por elas, podem se tornar ainda mais vulneráveis. Tão devastador quanto o bullying convencional, esse tipo de experiência pode levar a quadros de baixa autoestima, ansiedade, medo, depressão, embotamento afetivo, timidez excessiva, fobias sociais e diversos transtornos psicológicos, físicos e até morais e materiais, já que algo compartilhado na internet pode alcançar milhares de pessoas do mesmo meio social e desconhecidas.


Para falar um pouco mais sobre o tema, o pedagogo e professor de Tecnologia e Letramento Digital do Colégio Rio Branco Jorge Farias responde algumas perguntas e  atenta sobre a importância de observar o comportamento de crianças e jovens, além de manter uma postura educativa em relação ao uso da internet, com filhos, familiares e alunos.

Como orientar e ajudar as crianças e adolescentes a não se abaterem emocionalmente com comentários negativos, nem cair facilmente em provocações, pegadinhas ou desafios constrangedores nas redes sociais e outros meios digitais?
JF:
Primeiro, crianças e adolescentes precisam se sentir protegidos por suas famílias. Conversar sobre os possíveis perigos ao navegar na internet é uma forma de criar esse vínculo de segurança. Entender a rotina dos filhos na Internet também deixará os pais mais seguros. Precisam combinar um método de alerta caso se depararem com situações constrangedoras. Devem ensiná-los a não responder caso a conversa seja ofensiva ou um desafio apareça e a “tirar um print” da tela para enviar aos pais. Ensinar a bloquear conteúdos ofensivos e pessoas nocivas também é um método eficaz. O sentimento de proteção que foi nutrido com a família deixará sempre sua autoestima elevada e os métodos de alerta deverão sempre ser lembrados.

Como a escola e as famílias devem estar atentas a comportamentos diferentes apresentados pelas crianças e jovens?
JF:
Quando a autoestima foi prejudicada e eles não se sentem seguros, podem aparecer comportamentos negativos. É importante sempre redobrar a atenção quando notar: agressividade verbal (palavrões, tom agressivo, reações ofensivas aos pais, irmãos e amigos), quando usam o cabelo para esconder o rosto sempre, quando as roupas e decoração são mais sombrias, quando falta paciência para conversar, quando o senso de justiça está desequilibrado (deseja uma punição mais pesada do que a situação exige), e quando há repentina baixa no rendimento escolar, assim como isolamento.

Na sua opinião, atualmente o bullying acontece mais no ambiente virtual ou real (presencial)?
JF:
No virtual, se caracterizando cyberbullying. A distância e a possibilidade de esconder o próprio rosto e, às vezes, a identidade, torna os praticantes de bullying mais ousados e agressivos, pois têm a sensação de impunidade.

Pode dar alguns exemplos de trabalhos realizados no Colégio Rio Branco sobre o assunto?
JF:
São muitas as ações em diversas áreas, mas no 5º ano do Ensino Fundamental, por exemplo, trabalhamos na disciplina Letramento Digital, a programação de uma história no Scratch (linguagem de programação) que aborda fake news e cyberbullying. A professora Vanessa Sobrino, que leciona História, trabalhará racismo neste ciclo com o 7° ano e farei parte, a partir da semana que vem, deste projeto. No 5º ano, também, a professora Teresa Baroquelo tem um grupo de alunos dedicado a pesquisar ações antibullying, do qual sou conselheiro.

Papel da escola

Além das ações citadas pelo professor, o Colégio Rio Branco trabalha com temas trazidos pelos jovens, conflitos e saúde mental em atividades diversas como palestras para as famílias, rodas de conversas e nos componentes curriculares Cotidiano Em Questão (Coquest) e Jovem em Perspectiva para alunos do 9° ano do Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, além de discussões em atividades extracurriculares e projetos como o Coletivo Humana Mente.

O que diz a legislação

– Lei Carolina Dieckmann (nº 12.737/2012): é uma alteração no Código Penal Brasileiro voltada para crimes e delitos virtuais. Com o avanço da tecnologia e o acesso facilitado às redes sociais, o sistema judiciário constatou a necessidade de classificar crimes cometidos no ambiente digital. Sancionada em 2 de dezembro de 2012, esse foi o primeiro texto a tipificar crimes cibernéticos, tendo como foco, as invasões a dispositivos que acontecem sem a permissão do proprietário. O nome da lei é uma referência à atriz brasileira, vítima de crime dessa natureza.

– A Lei nº 13.185 que institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (bullying) em todo o território nacional foi sancionada em 6 de novembro de 2015. Em Parágrafo Único, o documento também determina: “Há intimidação sistemática na rede mundial de computadores (cyberbullying), quando se usarem os instrumentos que lhe são próprios para depreciar, incitar a violência, adulterar fotos e dados pessoais com o intuito de criar meios de constrangimento psicossocial”.

Ambas leis foram sancionadas pela presidente Dilma Rousseff, e, desde então, outros projetos de lei relacionados ao tema têm avançado ou tramitam no Congresso.

Setembro Amarelo: ajude a manter viva essa cor!
O suicídio é um ato de desespero, premeditado ou impulsivo, mas é um ato de um ser humano em franco desespero. No entanto, de acordo com o Centro de Valorização da Vida (CVV), um dos criadores da campanha de conscientização Setembro Amarelo, junto ao Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), nove em cada dez mortes por suicídio podem ser evitadas.

 Atenção! Se você chegou até aqui e sente que precisa conversar, procure um familiar, um amigo, um educador ou alguém em quem você confia, ligue para 188 ou acesse www.cvv.org.br

O Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza apoio emocional, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail ou chat 24 horas, todos os dias. No momento em que você começar a falar, tudo ficará mais fácil.

 

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