Professoras indicam livros de mulheres incríveis para celebrar o Dia Internacional da Mulher

Professoras indicam livros de mulheres incríveis para celebrar o Dia Internacional da Mulher

Obras de Carolina Maria de Jesus, Chimamanda Adichie, Virginia Woolf, Agnes Heller, Maria Duenãs, Jane Austen, Rachel Ignotofsky e Silvia Federici, entre outras, estão entre as sugestões das educadoras.

Colégio Rio Branco

06 de março de 2020 | 18h56

Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializou o dia 8 de março, como o Dia Internacional da Mulher, para celebrar importantes conquistas políticas e sociais femininas ao longo do tempo. Para 2020, a ONU Mulheres definiu como tema para a data: “Eu sou a Geração Igualdade: concretizar os direitos das mulheres”.

As origens históricas para a celebração desse dia, contemplam desde ideais disseminados durante a Revolução Francesa às lutas femininas contra as más condições de vida e de trabalho que permearam a Revolução Industrial; o movimento sufragista, pelo direito ao voto, e o crescimento de grupos femininos organizados que insurgiram nas fábricas da Europa, EUA e outras partes do mundo, entre o final do século XIX e início do XX.

Fatos como a passeata por direitos e jornadas de trabalho mais justas, em 1909, em Nova Iorque, e o trágico incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist Company, que matou 125 trabalhadoras, na mesma cidade, em 1911, também são marcos importantes para a data. Assim como a grande greve de 1917, na Rússia, quando milhares delas protestaram contra a Primeira Guerra Mundial e a fome – que ceifaria famílias inteiras.

De lá para cá, muitas conquistas por direitos e igualdade avançaram, mas outros fatores políticos e socioeconômicos relacionados às mulheres também retrocederam em várias partes do mundo. Por isso, nada melhor do que recorrer às mulheres e diferentes personagens que marcaram épocas e continuam fazendo história nas mais diferentes culturas.

Para homenagear o 8 de março de 2020, 12 professoras do Colégio Rio Branco, das unidades Higienópolis e Granja Vianna, elencaram livros de autoria feminina e o porquê suas narrativas são tão importantes e especiais.

Marina Araujo Miorim, doutoranda em Sociologia da Cultura, mestre em Educação, socióloga e professora de Sociologia no Ensino Médio.

Foi difícil escolher um livro só, então vamos lá:
Anedotas do destino, de Karen Blixen – nesse livro de cinco contos, a autora nos conduz a uma reflexão sobre a vida através das escolhas que fazemos, mas também das surpresas que ela nos coloca no caminho. Tenho especial afeição pelo conto “A Festa de Babette”, pois nele a rigidez de normas sociais claustrofóbicas se rende aos temperos deliciosos da misteriosa cozinheira Babette.
O Verdugo, Hilda Hilst – é uma peça de teatro que nos apresenta o dilema ético e profissional de um homem, um carrasco, que precisa cumprir a pena capital contra um prisioneiro que ele julga inocente. A força humanizadora do discurso do sujeito que está prestes a ser executado comove e inquieta o seu executor.
Calibã e a Bruxa, Silvia Federici – esse é um livro de História, com letra maiúscula. Um trabalho de fôlego da autora, que nos apresenta a trajetória de mulheres que foram caçadas e mortas para garantir o desenvolvimento de um novo modelo de sociedade que não comportaria a liberdade de ser e de pensar das mulheres, em nome da acumulação econômica”.

Samara Machado Pereira, mestranda em Educação, graduada em Letras e professora de Redação e Língua Portuguesa.

Quarto de despejo: diário de uma favelada, Carolina Maria de Jesus – “Considero o livro como o mais fiel registro da voz poética e feminina das favelas, cuja escrita incomoda, fere – por fazer-nos encarar a desesperança diária como se fosse nossa – mas é também catártica. Trata-se do registro lírico (mas que não disfarça sequer erros ortográficos, porque até nisso é real) do cotidiano da autora, que como tantas outras mães solteiras, pobres e migrantes, vê o seu futuro cerceado pelas paredes de um quarto na favela, onde a população marginalizada é historicamente “despejada” e esquecida. Indico, porque considero urgente encararmos a dureza da realidade da mulher brasileira socialmente excluída, para que possamos conceder a essas vidas a dignidade que merecem – e tanto melhor se o fizermos por meio das (igualmente duras), palavras de Carolina Maria de Jesus”.

Rafaela Felix Munhoz de Oliveira, professora de Física e Ciências da Natureza.

“Eu indico a obra da Agnes Heller. Heller foi uma filósofa com uma trajetória de vida surpreendente. É húngara e sobreviveu ao holocausto. Além da sua vida inspiradora, a sua obra retrata um aspecto que é menosprezado ou passado despercebido pelas pessoas: o cotidiano. E para pensar o cotidiano a autora toca em um ponto chave que hoje parece perdido pela sociedade que é o processo de humanização. Como educadora, os estudos de Heller me ajudam a pensar sobre como colaborar com uma mudança efetiva e positiva na vida dos meus alunos”.

Gisele Nogueira, professora de História

Em um mundo onde tem se questionado o papel do feminismo na sociedade, Nadia Hashimi e Maria Dueñas nos provocam a refletir sobre a mulher, a feminilidade e o feminismo com a força da delicadeza que apenas as mulheres podem expressar sobre si mesmas. Como professora de História, estas narrativas de contextos históricos e culturais distintos são significativos e enriquecedores para que sejamos provocadas a pensar a mulher em si e por si mesma, sua ação como sujeito histórico livre de qualquer forma de intimidação simplesmente por ser mulher.
A Pérola que Rompeu a Concha, Nadia Hashimi – o livro conta a história uma nova iorquina de ascendência afegã que, ao visitar o país de origem de seus pais, interessou-se pela cultura ancestral, em especial a questão das bacha posh, meninas que eram vestidas como garotos até a puberdade, uma prática de famílias que não tinham filhos homens, para por exemplo, acompanhar e proteger as irmãs em espaços públicos e poder desfrutar do privilégio da educação reservada apenas aos meninos. Este livro revela elementos da cultura islâmica afegã de antes e depois do Talibã, sobretudo, como as tradições e a história do país interferiu e interfere na trajetória de mulheres que são impedidas de estudar, andar nas ruas com liberdade e autonomia, fazer escolhas ou simplesmente sonhar.
As filhas do Capitão, María Duenãs – conta a história das três filhas de Emílio Arenas, um marinheiro espanhol que se fixa na Nova Iorque dos anos 1930 e decide trazer a esposa e as três filhas que viviam na Espanha para perto dele. As três irmãs, de origem humilde, por vontade do pai, são obrigadas a deixar a cidade de Málaga rumo à Nova Iorque. Em meio a muitos infortúnios, a cosmopolita cidade desperta nas irmãs sonhos jamais sonhados. A narrativa é leve, à medida que um capítulo acaba, seguimos o próximo e mais um, mais outro… Entretanto, a leveza na narrativa não a desqualifica como uma obra para se pensar a mulher na sociedade do início do século XX. As irmãs Arenas, em meio aos seus dramas individuais e familiares, nos revelam a trajetória que as mulheres ocidentais percorreram para que hoje, século XXI possamos escolher, nos expressar, sonhar, conquistar nossos espaços”.

Ana Paula Lembis Dias, professora de Física

Escolhi três livros! Um que já li, um que estou lendo e outro que quero ler.
Persuasão, Jane Austen – embora escrito no século XIX, acho esse livro importante para a reflexão sobre a liberdade de escolha, seja em relacionamentos amorosos, ou outras escolhas pessoais, apesar das pressões sociais e familiares.
O conto da Aia (The handmaid’s tale), Margaret Atwood -estou lendo. Uma distopia para pensar sobre o papel da mulher na sociedade.
As cientistas: 50 mulheres que mudaram o mundo, de Rachel Ignotofsky – um livro para inspirar garotas que se identificam com a área das ciência e tecnologias. Quero ler e também ler para minha filha! Acredito que esses três livros farão garotas e mulheres incríveis sentirem-se mais seguras em relação aos seus potenciais e escolhas, e conscientes de que não estão sozinhas; outras mulheres também incríveis, mesmo com as dificuldades encontradas, são muito fortes e servem de inspiração! ”.

Laila Antunes, professora de História do Fundamental II e Núcleo de Apoio

Americanah, Chimamanda Adichie – “O primeiro nome que me vem à cabeça é o da Chimamanda, uma escritora nigeriana contemporânea com muito talento e sensibilidade que tem sido muito reconhecida pelo seu trabalho. Ela trabalha muito a questão da mulher, e principalmente da mulher negra, ocupando novos espaços, seja por meio de suas personagens na literatura ou mesmo através das suas palestras, como o TED ‘O perigo das histórias únicas’. Um dos livros livros que gosto é o Americanah.”

Camila Vilar Canhete, formada em Letras (Português, Inglês), professora de Inglês dos Ensinos Fundamental II e Médio

Eu indico dois:
Frankenstein, Mary Shelley
– publicado em meados de 1800, Mary Shelley é considerada a primeira autora de ficção científica. Reza a lenda que Mary escreveu essa obra prima em apenas uma noite durante um desafio com outros autores (homens) proeminentes da época. Frankenstein, além de ser um clássico da literatura inglesa, trata de assuntos extremamente atuais como escolhas éticas em relação à medicina, a arrogância e a necessidade do homem ao produzir ciência e discute sobre o que nos torna humanos de fato.
Uma mulher não é um homem, Etaf Rum – publicado em 2019, essa é uma história sobre as mulheres de uma família de imigrantes palestinos vivendo em Nova Iorque nos anos 90 e 2000. A narrativa acompanha as mulheres em momentos diferentes da vida e suas memórias vívidas sobre a guerra, campos de refugidos, a vida antes do casamento e infância. Uma história emocionante sobre o que uma mulher é, e o que ela deveria ser“.

Mirtes Timpanaro, coordenadora e professora de História

Orlando, Virginia Woolf – “Fiquei pensando em quem indicar e escolhi a Virginia Woolf. No ano passado, decidimos trabalhar o livro Orlando em um grupo de leitura e foi um grande desafio por nunca ter lido nenhuma das suas obras. Pelo fato dela ser uma mulher forte, com uma história trágica, não sabia que tipo de texto encontraria, que tipo de história ela podia contar. E a grata surpresa foi ler um livro de uma leveza e uma qualidade incríveis, escrito em uma época nada fácil para as mulheres. Ainda hoje não é, ainda mais com um tema como Orlando, que é um rapaz lindo, maravilhoso como homem, mas que aos 30 anos acorda como mulher, e a partir daí, será uma. Então toda essa discussão de gênero, em 1928, é muito interessante. Uma história maravilhosa, um texto saboroso, de uma escritora fenomenal, de uma mulher que se suicida no final da vida, porque devia guardar muitos sentimentos e emoções difíceis de serem trabalhados à época, mas que é surpreendente porque na leitura dela encontramos um texto tão bem-humorado, tão maravilhoso, tão divertido! Uma Virginia Woolf que eu gostei muito de ter conhecido”.

“Podemos nos beneficiar desta pausa na narrativa para fazer alguns comentários. Orlando havia se transformado em mulher – isso é inegável. Mas, em todos os demais aspectos, continuava a ser precisamente como era antes. A mudança de sexo, embora viesse a alterar o futuro deles, nada fizera para lhes mudar a identidade. Seus rostos permaneceram, como provam os retratos, praticamente os mesmos. A memória dele – mas daqui em diante, para obedecer às convenções, devemos dizer “sua” e não “seu”, e “ela” e não “ele” –, ou seja, a memória dela percorria todos os eventos do passado sem encontrar o menor obstáculo. Talvez houvesse uma ligeira nebulosidade, como se algumas gotas negras tivessem caído no límpido poço da memória; certas coisas haviam ficado um pouco turvas, mas isso era tudo. A mudança parecia ter ocorrido de forma indolor e completa, não causando nenhuma surpresa a Orlando. Muitas pessoas, levando isso em conta e considerando que tal mudança de sexo é contrária à natureza, fizeram ingentes esforços para provar que Orlando sempre fora mulher e que Orlando naquele momento era homem. Deixemos que os biólogos e psicólogos decidam. Para nós, basta expressar o simples fato de que Orlando foi homem até os trinta anos, quando se transformou na mulher que continua a ser desde então. ” (Woolf, p. 141-142). Trecho citado pela professora Mirtes.

Renata Cardinali do Nascimento, pedagoga e professora bilíngue na Educação Infantil

Eu tenho muitas indicações boas e não consigo escolher uma só, porque as mulheres estão cada vez mais se colocando em um lugar que já é e sempre foi delas! Então, indico:
O protagonismo feminino em verso e prosa – esse é um livro que traz poesias, versos e é escrito só por mulheres, conta também a história de cada uma delas e suas profissões. É um livro cheio de sensibilidade.
Mulheres que correm com os lobos, Clarissa Pinkola Estés – a Clarissa, ao longo de muitos anos foi buscando histórias ao redor do mundo sobre “mulheres selvagens” e como elas habitam essas personagens. É um livro grande e denso, que precisa de dedicação. Que precisa sentar, ler, e que mexe com a gente em lugares muito profundos e até estranhos, mas que você se identifica. Então, ela traz essa mulher selvagem, essa mulher loba e quais são os arquétipos das diferentes mulheres que estão no nosso dia a dia.
Disciplina Positiva, Jane Nelsen – esse trabalho é brilhante. Ela fala sobre como podemos educar nossas crianças de uma forma positiva, amorosa, promovendo saúde.
Educação Não Violenta, Elisama Santos – a autora aborda como podemos educar os nossos filhos e as nossas crianças com mais amorosidade, colocando muito dela como mãe e os filhos como laboratório para ressignificar a forma como ela mesma foi criada e poder criá-los de uma outra maneira.
Criativo e empreendedor, sim senhor, Rafa Cappai – um livro sobre empreendedorismo criativo, escrito por uma garota cheia de vida, que acredita no seu poder de criação, na sua totalidade. Como quem diz: ‘eu não posso ter só um perfil, eu não posso assumir só uma vertente na minha vida, porque eu sou muitas, e eu preciso aprender a colocar todas as minhas particularidades dentro do meu negócio para torná-lo mais original, legítimo, verdadeiro, para torná-lo meu’. Ela é uma garota ge-ni-al!”.

A professora Renata Cardinali também tem outras dicas sobre livros e diversos assuntos nos seus canais no YouTube, Facebook e Instagram: @deproprapais e @deproprapro

Carolina Sperandio, pedagoga, pós-graduada em Linguística Aplicada e em Educação e coordenadora pedagógica dos Ensinos Fundamental II e Médio

Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes, Elena Favili e Francesca Cavallo
Persépolis, Marjane Satrapi
Extraordinárias: Mulheres que revolucionaram o Brasil, Aryane Cararo e Duda Porto Souza – “Minhas indicações têm em comum o fato desses livros terem sido escritos por mulheres para mulheres ou sobre mulheres à frente de seu tempo, que tiveram a coragem de transgredir regras para ocupar um lugar de destaque e assim revolucionaram a época em que viveram. Com isso abriram caminhos e deixaram um legado. Essas leituras são uma oportunidade para que meninas (e mulheres) conheçam histórias inspiradoras de mulheres que não pediram licença para ser. Se precisamos de exemplos para nossa constituição, aqui temos alguns dos bons. Seja por meio de um conto de fadas moderno, HQ ou minibiografias, são uma celebração à força e ao potencial da mulher.”

Alana Grimaldi, professora de Língua Portuguesa e Técnica de Redação

Cânticos, Cecília Meireles – “É difícil escolher um livro só, porque temos grandes autoras, pessoas que escrevem divinamente bem e gosto de muitas delas, mas um livro que me marcou bastante foi o primeiro livro de poesias que eu ganhei: Cânticos, da Cecília Meireles. Fui presenteada com ele quando era adolescente e talvez tenha interferido no fato de também escrever e gostar tanto de poesia”.


Dixier Maria Carratti é formada em Matemática, com pós-graduações em Educação. Professora de Matemática nas séries finais do Ensino Fundamental.

Hibisco Roxo, Chimamanda Adichie – “É uma autobiografia com ficção que retrata um pouco da vida da autora como adolescente, o relacionamento dela com o pai, muito autoritário, a religião. É um livro muito sensível, que me marcou muito. Eu leio, eu releio quantas vezes eu puder, às vezes trechos, às vezes capítulos e tem um pouco da história da Nigéria, da parte política e religiosa daquele momento, mas bem atual também e com uma narrativa muito leve e gostosa. É um texto que você vai lendo em busca do final, do que mais pode acontecer, o que você ainda pode descobrir durante a leitura. Então, essa é a minha indicação: de uma grande mulher e de um grande livro. Vale comentar que foi sugestão de uma outra mulher, a professora Denise Barros, de Língua Portuguesa. Eu pedi a ela um livro leve para as férias, fora do pedagógico, e ela me indicou esse”.