Pipocando Ideias

Pipocando Ideias

Colégio Rio Branco

05 de abril de 2021 | 20h02

Foto: reprodução/ilustração.

Do momento que antecede uma nova ideia, àquele em que ela se torna completa, é comum sentir o cérebro fervilhar até acontecer a típica explosão de quando o pensamento se torna mais consciente, concreto. Nesse momento, somos tomados por uma grande sensação de bem estar. Química pura!

Há ideias que chegam quase prontas – os insights – e outras que precisam de maturação. Há as ideias solitárias e as coletivas que, aprimoradas, se tornam ação. O fato é que toda ideia vem da necessidade e se transforma a partir de um desejo.

Rubem Alves escreveu: “[…] minhas ideias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.”

Os imprevisíveis acontecimentos de 2020, por tantas vozes já narrados, obrigaram-nos a fazer praticamente as mesmas coisas de modo completamente novo. Levaram-nos, mais do que nunca, ao pensar e ao fazer coletivos, evidenciando a nossa interdependência. Temos passado por uma prova de fogo sem precedentes e sem que pudéssemos nos preparar para a implementação de práticas necessárias, mas até então desconhecidas. Com isso, num primeiro momento, a educação do formato presencial tentou se encaixar no virtual. Em pouco tempo veríamos que isso não seria suficiente. 

À época acompanhamos, com tristeza, o período de fechamento das escolas se estender e em pouco tempo os professores começaram a compartilhar as experiências com o ensino remoto emergencial: atividades, utilização de diversas metodologias, novas extensões e aplicativos, referências teóricas, ambientes de aprendizagem, plataformas, sites e as demais aplicações Google para Educação, que felizmente já faziam parte de nosso cotidiano, na busca de validação e construção de novas aprendizagens.

As trocas foram se intensificando, impulsionando a adoção de novas práticas com o objetivo de engajar os alunos e potencializar suas aprendizagens, e novas ideias começaram a pipocar entre os educadores de todos os segmentos do colégio. Apesar disso, nem todos conheciam ou dominavam os recursos e isso era um dificultador para experimentá-los nas aulas.

Mas, “O milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos”, diz Rubem Alves.

E foi assim, por meio da campanha intitulada “Levanta a mão quem precisa de uma mãozinha”, que passamos a incentivar o pedido de ajuda, a troca de ideias, de metodologias aplicadas e de ferramentas para as aulas on-line, e lançamos os primeiros fios para tecer coletivamente uma rede de apoio para que as novas práticas fossem incorporadas por cada vez mais pessoas. 

E, por causa de ideias pipocando e da emergente necessidade de reinvenção, criamos o Pipocando Ideias, que mais do que um repositório de conteúdo no Google Classroom, pode ser entendido como um ‘berçário de ideias’. Um berçário porque precisa de cultivo, de acompanhamento e por depender de todos para seu pleno funcionamento.

A iniciativa nasceu da necessidade, de um desejo, de um contexto, de ideias coletivas; é abastecido por experiências reais e pela colaboração; é feito por docentes e atende professores da Educação Infantil ao Ensino Médio. Surgiu para inspirar e para valorizar as iniciativas dos professores num cenário incerto e caótico.

Desde então, os professores têm produzido material, aproveitado e criado tutoriais, usado novos recursos digitais, experimentado metodologias para o ambiente remoto e/ou híbrido, ao mesmo tempo em que refletem sobre a prática (ação-reflexão-ação). Essas reflexões e práticas são compartilhadas entre áreas ou entre séries em momentos de reuniões pedagógicas e com isso todos são encorajados a tentar e têm a oportunidade de se desenvolver. Estamos construindo uma nova cultura de aprendizagem, que já estava em curso, mas que foi acelerada pela crise provocada pela pandemia.

É notório que quando a aula muda, a resposta do aluno também muda, ou seja, começamos a presenciar uma espécie de efeito borboleta. Ainda há muito a ser feito, pois além de tudo, é preciso estimular a autonomia cognitiva e o conhecimento crítico dos alunos para o uso das diversas ferramentas e da internet, mas sabemos que antes disso é preciso chegar a eles. Depois de alcançá-los, precisamos desenvolver a ‘sabedoria digital’, como diz Prensky, criador do termo “nativo digital”. 

Estamos prontos? Não, e talvez nunca estejamos, afinal, não paramos de aprender, as nossas certezas precisam ser revisadas periodicamente, e isso pode significar ter de abrir mão de crenças que nos dão segurança. Significa, mesmo sem garantias, transitar entre a zona de conforto, a zona de medo, a zona de aprendizado para chegar à zona de crescimento. É preciso grande investimento pessoal e, assim como dito no início deste texto a respeito do surgimento de uma ideia, é preciso juntar necessidade e desejo. Apesar das dores, o momento não podia ser mais propício.

Como em toda experiência humana, precisamos nos apoiar uns nos outros para conseguir deixar de ser de um jeito para ser de outro e, também, lutar contra o nosso lado “piruá”. Para Rubem Alves, “piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar.”

E você, aceita aproveitar o calor do momento para mudar ou vai ficar de fora dessa desafiadora, mas incrível jornada de transformação?  Vem pipocar e se transformar com a gente!

Acesse “A pipoca” para ler o texto de Rubem Alves. 


Carolina Sperandio Costa da Silva

Coordenadora pedagógica do Colégio Rio Branco – Unidade Granja Vianna. Pedagoga e psicopedagoga com pós-graduação em Linguística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em Tendências Emergentes em Educação pela Tampere University of Applied Sciences (TAMK) da Finlândia e pós-graduação em Educação: Metodologias, Tendências e Foco no Aluno pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Nas horas livres, gosta de escrever sobre educação inspirada em coisas simples da vida.

 

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