Percursos na educação básica: um caminho a ser construído

Percursos na educação básica: um caminho a ser construído

Por Claudia Xavier Costa Souza

Colégio Rio Branco

02 de setembro de 2020 | 10h24

Imagem: ilustração – Colégio Rio Branco.

A partir de 23 de março, em consonância com  as determinações dos órgãos oficiais, reforçando o cuidado com a comunidade e apoiando a rede de ações de prevenção ao Coronavírus (Covid-19), o Colégio Rio Branco suspendeu as aulas presenciais e transferiu as relações de aprendizagem para o ensino remoto que permite dois movimentos: não abrir mão da responsabilidade pela aprendizagem dos alunos e colaborar para a saúde física da comunidade local e global. 

O Colégio é uma escola referência Google, reconhecida por utilizar as plataformas Google for Education com alunos, educadores e colaboradores de forma integrada às atividades, com apoio da Nuvem Mestra, partnerpremier do Google for Education na América Latina. A utilização do Google Classroom ocorre a partir do 6º ano do Ensino Fundamental e a utilização de Chromebooks com CMC (Chrome Management Console) já estava na rotina escolar. Atualmente, a escola conta com 55 professores certificados no nível 1- Educator, 17 no nível 2 – Educator, e três no nível 3 – Trainer.

O processo de transição ocorreu com mais tranquilidade nos segmentos do Ensino Fundamental II e Ensino Médio em função dessa experiência. O desafio foi maior com a Educação Infantil e o Ensino Fundamental I, primeiramente, em função da faixa etária que necessita de uma interação constante e próxima entre os pares e o professor. Nesses segmentos, o uso da tecnologia ocorria como estratégias metodológicas, em momentos pré-determinados e cuidadosamente planejados. Desta forma, foi necessário uma “virada de chave” para que o ensino remoto fosse o caminho exclusivo de aprendizagem. 

O Colégio Rio Branco teve o que chamaram de “semana zero”, durante a qual as famílias ficaram à vontade para decidir se levariam seus filhos à escola, afastaram os profissionais do grupo de risco e suspenderam cursos livres e avaliações. A equipe levantou voo para o ensino totalmente remoto. O modelo não-presencial foi marcado por vários desafios, mas também por muitas aprendizagens. Semana a semana, famílias, alunos e colaboradores recebiam o posicionamento para os próximos passos. As palavras-chaves para ação e comunicação foram: confiança, parceria, colaboração, tranquilidade e a imensa capacidade de adaptação.

Os professores de forma heroica fizeram as adaptações necessárias e desempenharam o seu trabalho com uma energia ímpar, combustível que permitiu flutuarem em voo cruzeiro. Críticas e sugestões foram a bússola para que mantivessem os profissionais do Colégio em voo pleno. Não abriram mão dos seus princípios, mas buscaram articular o espaço escolar que entrava no cotidiano familiar de maneira a respeitar e cuidar dessas relações; novos sentidos e perspectivas nasciam; mesmo distantes, precisavam mais do que nunca estarem perto e atentos um ao outro.

“Até breve”, “Atenciosamente” e “Cordialmente” deram lugar ao “Cuidem-se!” “Fiquem bem!”.

A rotina das aulas regulares, a interação entre alunos e professores, a realização de atividades e acompanhamento da mentoria escolar trouxeram segurança às famílias em relação à consistência do trabalho realizado.

Protocolos e roteiros foram orientando “o fazer” que experimentaram na prática, fruto de uma construção coletiva em que se fez necessário organizar e dar parâmetros, mas acima de tudo inovar. O cenário dinâmico exigiu a implementação de diversas ações nos âmbitos pedagógico, emocional e financeiro.

Os encontros de formação docente foram e são permeados com perguntas reflexivas em busca da construção coletiva de respostas que estejam em consonância com os princípios da instituição: Como garantir uma comunicação eficaz? Como lidar com os imprevistos e com as situações quando fogem ao “controle”? Como é possível avaliar a aprendizagem dos alunos?

As TDICs deixam de funcionar como um recurso para entregar conteúdo e aulas expositivas, para funcionar como um elemento mediador da aprendizagem. Assim, as experiências digitais passam a ser construídas como possibilidades de buscar a personalização da aprendizagem (BACICH et al., 2015). Nesse voo, enfrentaram turbulências, principalmente com as crianças menores: drives, meetings, sites, atividades assíncronas e síncronas, pequenos grupos; sempre se reinventando para atingi-los da melhor forma e conciliar, dentro do possível, a rotina, o home office dos pais, o afastamento dos avós, a timidez de algumas crianças e a desenvoltura de outras.

E quando tudo isso passar? E se não for possível voltar presencialmente? Provocações que fizeram a comunidade crescer, intensificar suas fortalezas, suas potências e sua capacidade de superação.

 Por meio da interação e de pequenos vídeos enviados por mensagem foram chegando perto, afinal, a saudade, a tristeza dos dados epidêmicos em ascensão, as dores e “perdas chegando”, aproximaram-se de cada casa, de cada um dos profissionais, alunos e famílias do Colégio. A saúde emocional da equipe, das crianças, dos jovens, dos gestores e das famílias sempre foram essenciais nesse convívio, para isto, ações foram implementadas: Sala de convivência virtual para os mais velhos; encontros de mentoria com as orientadoras educacionais; alunos tutores voluntários compartilhando seus saberes; café virtual com professores; debates, encontros com música e arte; Padlet (painel digital) com registros de aprendizagens dos professores, nomeado como Diário de Aprendizagens; atenção à presença dos intérpretes para a participação da comunidade surda; atividades de engajamento social, entre tantas outras ações feitas para que pudessem fortalecer os vínculos e trazer as atividades, agora com nova roupagem, para amenizar a saudade. Não estão a frente e sim ao lado, e ao lado seguem e seguirão.

Com o prolongamento do período de isolamento e de distanciamento social que resultou na continuidade do trabalho remoto, ousaram com as avaliações digitais, pois acreditaram que não podiam interromper o processo de aprendizagem realizado até então. Não, para o Colégio Rio Branco o ano não estava e nem está perdido. A avaliação a distância pode trazer muitos questionamentos quanto à validade dos resultados obtidos, mas a experiência em si foi surpreendente para todos. Sim, os alunos conseguiram fazer a transposição dos conteúdos essenciais que aprenderam remotamente e as dificuldades foram mapeadas para ações de recuperação com possibilidades de serem retomadas.

O ensino remoto pode priorizar o conteúdo por meio de videoaulas indicadas ou produzidas pelos professores, textos de referência, simuladores, aplicativos, plataformas digitais externas ou as disponíveis nos livros didáticos. Os professores puderam, nesse contexto, solicitar preparo prévio para a próxima aula e utilizarem roteiros de estudo que auxiliaram na realização da atividade solicitada. Esse ensino também pode focar na interação por meio de documentos compartilhados, fóruns, chats ou por debates online, utilizando-se reuniões por Hangouts. Puderam também trazer a produção por meio de tarefas de acordo com as especificidades e os objetivos de cada componente curricular. Como exemplos podem ser citados a produção de textos individuais ou em grupos, a elaboração de apresentações, de vídeos, de podcasts, a realização de exercícios, entre outros. 

Procuraram equilibrar as vertentes do ensino remoto: conteúdo, interação e produção, não abrindo mão da conexão e da conectividade. Para tanto, a escolha baseou-se no princípio da interação entre aluno, professor e conteúdo, rompendo com o paradigma da instrução e assumindo o paradigma da comunicação como vetor do processo pedagógico.

Segundo Lilian Bacich (et al., 2015), as TDICs (Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação) favorecem a personalização, na coleta de dados e na identificação de quem são esses alunos, quais são suas dificuldades e facilidades, e como as experiências de aprendizagem podem melhor atender ao objetivo de desenvolver habilidades e competências. Portanto, elas vão muito além de oferecer uma aula gravada a alunos que não puderam estar presentes na escola. Ainda ressalta que entender os alunos como prosumers que consomem, e também produzem no ambiente digital, é fundamental ao elaborar o desenho do papel das TDICs nesse momento.

Se elas forem usadas para reforçar o ensino centrado na figura do professor como um repositório do saber ao invés de focar a construção de um currículo crítico e democrático, perde-se a oportunidade de desenvolver o pensamento crítico e a participação ativa e transformadora, que tanto é necessário para que de maneira consciente se tenha um mundo mais digno para todos que vivem nele. 

Os profissionais do Colégio aprenderam que trabalhar com indicadores ajuda a trilhar o caminho com mais segurança e respeito ao outro. Avaliaram este período por meio de pesquisas online com seus professores e alunos, e a partir dos dados que cruzaram entre as respostas dos alunos e dos professores puderam ter a comparabilidade dos dados e assim, replanejar o caminho e prepararem-se para a volta parcial e híbrida, sempre fazendo o que é necessário fazer para que todos da comunidade estejam em segurança.

Do quadro geral dos educadores que ali trabalham, 62,2% dos professores manifestaram que o ensino remoto supriu as necessidades de sua prática, 84,4% avaliaram sua interação com os alunos como boa e muito boa. Entre as preocupações trazidas em relação à prática no período de isolamento, apontaram o volume de trabalho, a preocupação com a presença dos alunos e sua aprendizagem, o medo de não dar certo e estado emocional de todos os envolvidos. Enquanto aprendizagens, destacaram a importância de ouvir o aluno, da apropriação aos recursos tecnológicos, a capacidade de adaptação e de se importar mais com o outro. “Aprendi que meus colegas têm conhecimentos aos quais preciso me curvar e pedir ajuda. Aprendi que não sei tudo”, disse uma professora em seu depoimento na avaliação.

Como questiona Gary Herbert, citado em palestra por Leandro Karnal (2020), “Se não você, então quem? Senão agora, então quando?”. Assim prosseguem, certos de que impedir o conflito e desistir dos desafios é o impedimento para o crescimento.

Bibliografia:

(p.78) Souza, Souza, Pupatto, Campos – Percursos da educação formal e não formal em tempos de pandemia in De Wuhan a Perdizes: trajetos educativos, 1ª ed. Educ ed, 2020.

Claudia Xavier é uma das autoras do livro “De Wuhan a Perdizes: Trajetos Educativos“, publicado pela EDUC, editora da PUC-SP, que apresenta reflexões de alunos e professores sobre os desafios da educação durante a pandemia do novo coronavírus.

Diretora do Colégio Rio Branco – Unidade Granja Vianna, Cláudia Xavier é mestranda em Educação pela PUC-SP. Pedagoga formada pela mesma instituição, atua há mais de 30 anos nas áreas de gestão escolar e formação de professores.  Especializada em Gestão de Pessoas pela Fundação Dom Cabral; em Gestão de Conflitos pela USP e em Construção do Projeto Político Pedagógico pela PUC-PR. Pós-graduada em Psicologia Moral e em Psicopedagogia Institucional. Participou do programa de gestão da qualidade pedagógica do governo alemão, ZFA Schulmanagemente Wetmeit – para a Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Tem experiência em Planejamento Estratégico Compartilhado e seminários sobre alfabetização e metodologia da Língua Portuguesa.

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: