Outubro Rosa: como falar sobre o câncer com crianças e adolescentes?

Outubro Rosa: como falar sobre o câncer com crianças e adolescentes?

Por Juliana Góis e Luísa Genaro

Colégio Rio Branco

27 de outubro de 2021 | 20h26

Imagem: reprodução.

O nosso corpo fala e oferece pistas de quando algo não vai bem, o que torna de extrema relevância as campanhas que visam alertar para a importância da prevenção e do diagnóstico do câncer, aumentando suas chances de cura. O “Outubro Rosa” é um exemplo desses movimentos, possui caráter mundial e dirige-se mais especificamente ao câncer de mama. Por outro lado, sob a perspectiva dos aspectos emocionais, devemos lembrar que mesmo diante de sintomas suspeitos ou com a plena consciência dos fatores de risco para esta doença, na maior parte das vezes, a pessoa que é acometida pelo câncer mergulha nesse mar de forma abrupta, sem treino prévio acerca de como utilizar os cilindros de oxigênio. É aos poucos, do seu jeito, no seu tempo e a partir das suas experiências que ela vai aprendendo a manusear os aparatos que a auxiliam a respiração. 

Ao abordarmos essa doença, também é de grande valia considerar que, a despeito da existência dos diferentes tipos e níveis de gravidade de câncer, em geral, num primeiro momento, ele ainda está associado à iminência de risco de morte. Nesse sentido, torna-se compreensível a necessidade de um período para que o próprio indivíduo possa compreender, assimilar, desconstruir pré-conceitos e enfrentar o que lhe era até então desconhecido. Sabe-se que cada pessoa é única e possui sua própria forma de ser, fazer e lidar com os desafios da vida, o que torna quase impossível prevermos e discorrermos de forma universal sobre como enfrentar uma doença que adentrou uma casa de supetão, sem ao menos bater à sua porta.

Em contrapartida, não é novidade que o ser humano é, em sua essência, um ser social e isso nos remete à reflexão sobre o como falar a respeito do câncer. Lembro-me como se fosse ontem de uma ligação que recebi há três anos enquanto estava sentada em uma cadeira no cabeleireiro. O identificador de chamada me roubou um sorriso, era uma amiga “das antigas”, dos tempos de colégio, daquelas amizades que não fazem mais parte do dia a dia, mas que basta cumprimentar que a conversa flui como se o último encontro tivesse acontecido ontem. Era semana de Natal e sabemos que nessa época as emoções afloram e há uma tendência de (re)aproximação daqueles que queremos bem. No vai e vem da conversa o tom e da voz mudou e junto dele o anúncio de que algo diferente estava acontecendo: “quero te contar uma coisa”. Ela havia sido diagnosticada com câncer de mama, contava com naturalidade sobre o processo de descoberta e os próximos passos, do outro lado da linha eu ouvia calada, me faltavam palavras e dos meus olhos escorriam lágrimas. Em algumas vezes até quem tanto fala se cala, apenas ouvi, agradeci por ela compartilhar esse momento comigo e lhe disse a única coisa da qual eu tinha certeza: eu estaria sempre ali. 

A verdade é que alguns assuntos são mais delicados e difíceis de serem abordados,  conversar sobre câncer não é uma tarefa simples. Há famílias que, por exemplo, optam por não contar o diagnóstico aos filhos e  essa escolha deve ser respeitada, como já diz o antigo ditado: “cada um sabe onde o seu calo aperta.” Porém, vale lembrar que as crianças e adolescentes são parte dela, inserem-se neste núcleo, e que cada membro, ao seu modo, está atento e sente quando há algo de diferente em seu meio. 

As inúmeras modificações na rotina familiar num processo de tratamento para o câncer são inevitáveis. Quando omitimos algo assim, os filhos podem sentir-se ainda mais preocupados e inseguros, e isto pode vir a desencadear questões, como a instabilidade emocional. Ao passo que quando eles sabem da verdade, por mais dura que seja, têm a oportunidade de conversar sobre o assunto, fazer perguntas, expor seus medos, pedir colo às suas angústias e até mesmo sentirem-se úteis ao oferecer demonstrações de carinho a quem ama. Nesse contexto, tecer junto aos entes queridos e aos filhos, uma conversa sincera nos parece aqui o melhor caminho.

Embora reconheçamos que o diálogo no âmbito familiar sobre o diagnóstico e o tratamento do câncer seja importante, temos algumas considerações a fazer. Primeiramente, para dar essa notícia aos filhos, o adulto precisa estar em um momento de maior estabilidade emocional, mais fortalecido diante dos seus próprios medos, a fim de passar maior segurança durante a conversa – se necessário, ele pode dividir esse momento ao lado de outro adulto a quem confia e que seja uma figura de referência para o filho. Além disso, outro ponto importante, é que a linguagem utilizada deve ser adequada de acordo com a faixa etária, pois o nível de compreensão de uma criança é completamente diferente do de um adolescente. 

Nesse novo cenário que pode vir a envolver ausência do familiar para consultas constantes, internações e queda de cabelo durante o tratamento, por exemplo, podem surgir dúvidas.  Responda às questões à medida que elas surgirem, sendo honesto em relação inclusive às respostas que você também ainda não tem, e colocando que muitas delas podem ser descobertas em conjunto.

Por fim, para ter essa conversa, escolha um momento, um lugar tranquilo e reserve um longo tempo para dar início a esta conversa, que certamente não terminará ali. O essencial é reconhecermos que trata-se de uma situação nova e que, para sabermos sobre o que ela irá despertar, faz-se necessária a abertura de um espaço. O câncer é uma doença complexa, impactante e com desdobramentos tanto de ordem física quanto emocional. Assim como foi com o paciente, os familiares também irão precisar de um tempo para assimilar o que lhe foi dito, e é no dia a dia que as emoções e reações irão emergir: seja no brincar, na arte, no falar, no encostar ou mesmo no silenciar – aqui o  importante é ter  um  tempo reservado para estar junto.

Por vezes somos convidados a lidar com o inesperado, a encontrar forças que nem sabíamos ter e a descobrir novos caminhos. Nesse percurso, por vezes permeado de incertezas, se olharmos para os lados veremos flores, vínculos que se fortalecem e momentos de vida inesquecíveis.

Para finalizar, trazemos como uma mensagem de esperança a técnica de trabalho com cerâmica provinda do Oriente e chamada kintsugi – também conhecida como “carpintaria de ouro”. Nela peças quebradas são restauradas e retornam a sua forma original através do encaixe e união dos seus fragmentos com um verniz polvilhado com ouro. Embora as cicatrizes douradas sejam evidentes e visíveis, o que demonstra transformação, tais peças tratadas com esse método exibem grande beleza  e chegam a ser mais apreciadas do que eram antes mesmo de quebrar. Desse modo, essa técnica artesanal se transformou numa metáfora que traz importância da resistência, da resiliência e do amor próprio frente às imprevisíveis adversidades da vida. Em um vídeo, o artista André Gola ao fazer referência ao kintsugi diz: “às vezes, o que vem para nos quebrar, nos dá ainda mais valor”.


Juliana Góis

Orientadora educacional de Apoio à Aprendizagem do Colégio Rio Branco. Psicóloga e psicopedagoga, especialista em Neuropsicologia e mestre em Neurociência. Atua na área clínica e educacional.


Luísa Trindade Genaro

Orientadora educacional do Colégio Rio Branco. Possui licenciatura e bacharelado com atribuições tecnológicas em Química, é pós-graduada em Educação Especial e Inclusiva, e em Gestão Escolar e Educação Ambiental. Pós-graduanda em Neurociência Aplicada à Educação.

Materiais de apoio:

https://www.inca.gov.br/o-que-e-cancer

http://www.oncoguia.org.br/conteudo/saiba-como-os-pais-devem-encarar-o-cancer-e-contalo-para-os-filhos/12488/7/

https://revista.abrale.org.br/como-falar-sobre-cancer-com-as-criancas/

https://www.inca.gov.br/tratamento/orientacoes-aos-pacientes-e-familiares

https://accamargoessencial.com.br/

https://www.youtube.com/watch?v=oRxF9y5GrzQ

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