O dia do amigo e a importância da amizade

O dia do amigo e a importância da amizade

assessoriaimprensa

20 de julho de 2022 | 14h17

Por Juliana de Oliveira Góis

No calendário encontramos mais de uma data para celebrar o dia do amigo: 04 de fevereiro, 18 de abril, 20 de julho, 30 de julho e, em alguns países, o primeiro domingo de agosto. Sendo assim, qual é o dia do amigo? No Brasil, comemoramos no dia 20 de julho, assim como em alguns de nossos países vizinhos. A data, instituída em Buenos Aires, foi criada pelo argentino Enrique Ernesto Febbraro, celebrada pela primeira vez em 1970 e inspirada pela chegada do homem à lua em 20 de julho de 1969: além de uma conquista científica, ela representaria a oportunidade de fazer amigos em outras partes do universo. De toda forma, certa de que após mais de 40 anos isso ainda não se tornou realidade, sugiro que, se possível, comemoremos nesta data, nas demais e em todos os outros dias. Afinal, bem (dito) Drummond: “de amor andamos todos precisados”. 

Após o inesperado e longo período de distanciamento social, vivenciamos no primeiro semestre de 2022 um cenário complexo que já se anunciava há dois anos. Em um estudo de revisão publicado em junho de 2020, no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, cujo objetivo foi avaliar o impacto do isolamento social na saúde mental de crianças e adolescentes, Loades et al., concluiu-se, de forma assertiva, que os mais jovens seriam os mais propensos a apresentar aumento dos sintomas de ansiedade e depressão durante e após o término do isolamento social.

As primeiras pesquisas acerca das consequências da pandemia demonstram a gravidade da situação. Os motivos para essa crise no espectro da saúde mental nas diferentes faixas etárias são diversos e englobam fatores objetivos, como demissão, perda de pessoas próximas e intensificação de problemas emocionais que já existiam; mas, também aspectos subjetivos: se o isolamento foi difícil para alguns, retomar o convívio com amigos, professores e colegas de trabalho, ainda que represente a volta para um lugar conhecido, também implica em desafios. Afinal, hoje a realidade não é mais a mesma, ela se transformou e nós também.

O ser humano é um sujeito social e um dos fatores de proteção para a saúde mental é fazer parte de um grupo, estabelecer e manter amizades. Segundo o sábio dito popular: “quem tem um amigo, tem um tesouro”, partindo desse ponto de vista e cientes do valor da amizade, vamos agora refletir sobre sua importância nas diferentes fases da vida, o que  ajudará na compreensão do cenário atual.

Na primeira infância, entre dois e três anos de idade, começam as brincadeiras de “faz de conta”. Nelas a criança representa o mundo através da imaginação – num piscar de olhos a tampa da panela se torna um escudo e o pano de prato preso na gola de uma camiseta a transforma em um super-herói. Através da fantasia ela experimenta papéis, imita situações do dia a dia, cria possibilidades, testa receitas, tempera com magia e faz os primeiros ensaios do que ainda está por vir anos depois. As brincadeiras tornam-se cada vez mais complexas até os quatro, cinco anos – fase em que a construção do “faz de conta” é compartilhada, onde a viagem ao mundo fantástico é pensada em conjunto com os pares: “hoje eu sou a bruxa, o João é o papai, essa boneca é a vovó e a minha amiga Isa é minha filha que sabe voar.” Amiga Isa?! Sim, nessa fase as crianças formam os primeiros vínculos mais fortes de amizade e esses tornam-se cada vez mais significativos com o passar do tempo.

Quando as crianças passam a compreender melhor suas próprias emoções e as do outro, desenvolvem naturalmente habilidades sociais de extrema importância, como a empatia. Conforme crescem e amadurecem cognitivamente, as formas de amizade mudam, tornam-se um pouco mais profundas e estáveis. Além disso, começam a ser consideradas a opinião dos outros e são nos inevitáveis embates presentes que elas aprendem a resolver conflitos.

Entre nove e onze anos de idade a criança passa progressivamente a mudar o foco da atenção, para de olhar tanto para si e passa a compreender que as demais pessoas pensam, sentem e agem de formas diferentes. Ela repara no outro e se compara a ele. Nelan a autoestima está intrinsecamente associada com a autopercepção dos recursos que possui para realizar atividades e enfrentar desafios, com o feedback dado pelos seus amigos ou pessoas próximas – nesta fase os amigos já se tornam tão importantes quanto a família, assim como com a identificação que possui com pais, professores ou outros adultos com os quais convive.

A partir daqui não demora muito para a adolescência bater na porta e é dado início a um processo de travessia em que a base construída na infância serve de alicerce para a construção da própria história do indivíduo. Entre os adolescentes, a convivência com os pares é tida como prioridade e o tempo dedicado aos amigos costuma ser maior do que em qualquer outro momento da vida. Eles tendem a se afastar temporariamente dos pais e aproximarem-se dos amigos, com quem se sentem compreendidos e acompanhados nesta fase de descoberta de suas próprias vontades, desejos e limites. Estudos na área das neurociências apontam que durante o adolescer há uma grande quantidade de oxitocina, hormônio relacionado às ligações sociais e formação de vínculos, circulando no organismo, o que favorece o desejo, ainda maior neste momento, de andar em turma.

Se na literatura são mais frequentes materiais que falam sobre a amizade na infância e juventude, isso não significa que ela torna-se menos relevante na vida adulta. Em 1937, na Universidade de Harvard, foi dado início ao maior projeto de estudo sobre saúde humana e que envolve milhares de voluntários com idades e perfis diversificados. Eles têm sua vida analisada, realizam exames periódicos e entrevistas. A conclusão do mesmo é arrebatadora: os amigos são o principal indicador de bem-estar na vida de uma pessoa. Inclusive pessoas com mais de 70 anos possuem 22% mais chance de chegar aos 80 se mantiveram fortes e ativos os vínculos de amizade. Ah! E não se preocupem com uma grande quantidade! Segundo um estudo feito na Universidade de Duke o número-chave é quatro – pessoas com menos de quatro amigos apresentam um risco dobrado para doenças cardíacas. Esse achado reforça a conhecida premissa de que a qualidade é mais importante do que a quantidade. Por essas razões, entre outras, meu amigo, é aconselhável uma rotina que permita espaço para esta relação deliciosa de dupla via, onde se está ali para alguém, ao mesmo tempo que se tem com quem e para quem contar sobre amenidades, sobre a vida e sobre os sonhos que sonhamos dormindo ou acordados.

Acredito que, diante do exposto, não surpreende o impacto negativo da privação da convivência com os pares, em especial para os pequenos, para os adolescentes e para aqueles que encontraram dificuldade para atravessar os muros impostos a fim de compartilhar sentimentos conflitantes e experiências inéditas com outrem por meio dos recursos oferecidos pela tecnologia. Afinal de contas, como foi difícil essa fase e como é bom ter e estar ao lado daqueles com quem compartilhamos as alegrias e dividimos as tristezas. Tenham todos um feliz dia do amigo!

“A ave constrói o ninho; a aranha, a teia; o homem, a amizade.”
William Blake

 

Juliana Góis
Juliana Góis é Orientadora Educacional de Apoio à Aprendizagem no Colégio Rio Branco, psicóloga e psicopedagoga, especialista em Neuropsicologia e mestre em Neurociência. Atua na área clínica e educacional.

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