O carnaval, o carnaval…

O carnaval, o carnaval…

Historiadora explica a importância da festa e dos blocos de rua como resgate histórico e cultural, e como objeto de estudo para todas as idades: das crianças aos vestibulandos.

Colégio Rio Branco

21 de fevereiro de 2020 | 17h42

Imagem: reprodução.

Um dos principais acontecimentos nos últimos anos foi o ressurgimento dos blocos de rua no carnaval, principalmente na cidade de São Paulo, desde a regulamentação concedida pela prefeitura, em 2014.

De lá pra cá, a cidade já soma centenas de blocos de diversos tamanhos para todos os gostos e idades, reunindo milhares de foliões e atraindo turistas de vários cantos do Brasil.

De acordo com informações da prefeitura de São Paulo, a expectativa de público para 2020 é de 15 milhões de pessoas, consolidando a festa paulistana como uma das principais do país. O número de desfiles de blocos será quase 40% maior do que em 2019.

A democratização da festa resgata raízes da nossa cultura ao permitir que pessoas de todas as classes sociais possam sair às ruas para se divertirem, gratuitamente. Usar fantasias e aproveitar com a família e amigos ao som de marchinhas, músicas atuais ou de compositores que marcaram épocas.

“Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar
Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais”

“Acho extremamente importante esse retorno dos blocos em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde também ganhou força, e em outras cidades, já que trazem aquilo que o carnaval sempre teve de mais interessante: que são as pessoas tomando as ruas”, explica a professora e coordenadora de História do Colégio Rio Branco, Mirtes Timpanaro, que leciona a disciplina há 31 anos.

A comemoração nas ruas também remete ao tradicional Carnaval de Veneza, quando no século XVI, membros da nobreza aproveitavam a festa para se misturarem ao povo pelas ruas, disfarçados com máscaras e rostos pintados, além de outras festas parecidas ao redor do mundo.

“O carnaval nasceu como um momento em que as pessoas invertem os processos, invertem seus papeis, elas saem do seu estado comum, da sua vida tradicional para viver outro universo, e é possível perceber isso quando se estuda os primeiros traços da história do carnaval desde a Antiguidade”, explica a historiadora.

“Na Idade Média, mesmo com toda a pressão que a Igreja Católica tratava o assunto e as questões do corpo e da moral, a Igreja permitia um momento antes da quaresma: a terça-feira gorda. Esse era o grande dia da festa da carne, a comida, a bebida, os excessos, o carnaval… depois, a quarta-feira de cinzas como o momento em que as pessoas deviam se guardar no seu pesar, nas suas orações e esperar os quarenta dias até a Páscoa”, conclui.

O carnaval no Brasil, seja nas ruas ou nos desfiles das escolas de samba, também é um período que historicamente marca momentos políticos importantes, trazendo à tona temas polêmicos, protestos, reivindicações, insatisfações coletivas, ou seja, é uma das formas nacionais mais legítimas e democráticas de liberdade de expressão.

A professora Mirtes também menciona um texto do historiador Peter Burke, sobre História da Cultura e Cultura Popular na Idade Média, no qual ele faz uma comparação entre a sociedade e o barril de vinho e sobre a necessidade de tirar a rolha para que o vinho possa respirar um pouco, porque se essa rolha não for retirada, o barril explode.

“Então é um pouco isso, nesse momento, em pleno século XXI, as pessoas estão colocando para fora os seus pesares, o seu ‘chega’, quero festejar, quero rir e sair dessa pressão cotidiana, desse momento nacional e mundial tão complexo que estamos vivendo, pesado, ainda e de volta, cheio de preconceitos e polarizações, para viver um outro momento”, explica Mirtes.

“Num tempo
Página infeliz da nossa
história
Passagem desbotada na
memória
Das nossas novas
gerações”

Além da carga emocional e todo o contexto social que envolve a festa, muitos desfiles, sátiras e alegorias são verdadeiras narrativas históricas e da atualidade. Ao longo dos anos, diversas letras de músicas, personalidades carnavalescas e sambas enredo estiveram e continuam presentes em questões de provas para vestibulares, concursos públicos e para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

“Dormia
A nossa pátria mãe tão
distraída
Sem perceber que era
subtraída
Em tenebrosas
transações”

Nessa aula, a professora de História, Mirtes Timpanaro, trabalha um samba de Ataulfo Alves com os alunos do Colégio Rio Branco

Também é comum que as músicas e os estilos regionais da festa sejam estudados e analisados em sala de aula, em diferentes componentes curriculares e atividades multidisciplinares, que envolvem Língua Portuguesa, História e Humanidades, Geografia, Sociologia, Cultura, Filosofia, Artes, entre outras. Além dos inúmeros trabalhos de conclusão de curso, e teses de mestrado e doutorado já produzidos sobre a temática do carnaval.

Na maioria das escolas de todo o país, especialmente na Educação Infantil, também é comum que na véspera do feriado, os educadores realizem atividades lúdicas que envolvam o trabalho com marchinhas infantis e a troca do uniforme pelas fantasias e pinturas no rosto, dentro de um contexto pedagógico.

“Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal
Tinham direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
O carnaval, o carnaval”

Tradição: crianças fantasiadas na escola.

Já nas ruas, é cada vez maior o número de blocos infantis que permitem que pais e filhos se divirtam e consolidem lembranças familiares inesquecíveis de muita diversão e aprendizados.

“Os bloquinhos são muito bem-vindos para as crianças, para os jovens e adultos de todas as idades porque o carnaval é isso, pode até incomodar também em alguns momentos, mas exatamente porque é um momento de desacomodar, de sair do seu conforto para ir às ruas, festejar e viver uma outra história”, afirma a historiadora.

“Palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do bulevar
Meu Deus, vem olhar
Vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear”

Em São Paulo, para os adultos que queiram aproveitar a folia está disponível uma  lista de blocos, separada  por ordem alfabética e diferentes temas, estilos musicais, shows, trios elétricos e propostas que valorizam a diversidade e a pluralidade – tão típicas do carnaval.

Para as crianças, também existem diversas opções de blocos infantis espalhados por parques, clubes, shoppings e ruas da cidade.

“Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral
VAI PASSAR”

Informações e referências:
Prefeitura de São Paulo
“Vai Passar”, letra de Chico Buarque e Francis Hime (1984).

 

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