Mas afinal, empatia se aprende?

Mas afinal, empatia se aprende?

O Brasil já ultrapassa a marca de 100 mil vidas levadas pela Covid-19, e ainda é preciso muita colaboração coletiva e empatia para superar esse momento. Ajudar as crianças a desenvolver habilidades para lidar com situações diversas e construir uma sociedade melhor, é um importante desafio para as famílias e a escola. Por Adriana Simionato, Ana Claudia Crivellaro e Valquiria Rodrigues*

Colégio Rio Branco

10 de agosto de 2020 | 14h43

Atividade discutiu a importância dos sentimentos e de se colocar no lugar do outro, antes da quarentena.

Essa é uma daquelas valiosas perguntas que todos queremos saber a resposta. Nesse mundo novo em que vivemos, diariamente, percebemos a necessidade de humanizar e qualificar nossas relações pessoais e interpessoais tanto na vida em sociedade, quanto no ambiente de trabalho.

A vida que se vive na pandemia tem nos trazido a possibilidade de pensar e repensarmos a vida cotidiana. Nunca tivemos tanto tempo para ficar em casa e convivermos em família. Crianças, jovens, adultos e melhor idade, todos aprendendo a lidar com diversos sentimentos em uma contínua e intensa convivência.

Momentos desafiadores: home office, afazeres domésticos, escola virtual, professores a distância e crianças com energia de sobra dentro de suas casas. A cada momento temos que lidar diversos conflitos e com diferentes sentimentos que nos levam a fazer novas descobertas e buscar novas soluções para os problemas que nos deparamos.

Sem dúvida, as aprendizagens e as emoções vividas durante essa pandemia seguirão marcadas em cada um de nós! Enfrentamos, e ainda enfrentaremos, meses de intensas descobertas. Nada vivido superficialmente! Pelo contrário, o que antes passava despercebido, hoje está bem diante de nossos olhos. Nos deparamos com o medo, insegurança, raiva, orgulho, compaixão, culpa, amor, esperança, fé, confiança….

Aos poucos, assumimos o papel de gestores de emoções no meio de tantos conflitos que surgem para administrarmos. Enxergar a realidade tem nos possibilitado fazer cada vez mais perguntas, as quais nem sempre encontramos respostas.

Muito se tem falado em habilidades não-cognitivas, habilidades estas que não estão escritas nos livros, mas que certamente estão nos exemplos compartilhados pela família, pela escola, pela vivência de mundo. Dentre elas, destacamos a empatia, pois em estudos recentes em psicologia e neurociência é considerada como “inteligência emocional”.

Empatia não é o mesmo que simpatia. Empatia é a ponte entre o egoísmo e o altruísmo.  Empatia exige conexão com o outro, ou seja, habilidade de tomar ou reconhecer a sentimento de outra pessoa, com isenção de julgamentos. (Brown, Brené)

Mas afinal, essa habilidade pode ser aprendida? Como desenvolver a empatia em crianças? Qual é o papel da família? Qual é o papel da escola?

Sim, a empatia se aprende!

Em aula presencial antes do isolamento social, crianças aprenderam sobre o novo coronavírus e o valor de cuidar uns dos outros.

A família quando lida com uma situação de conflito, tem a possibilidade de fazer o exercício de reconhecer o sentimento presente na situação, conectar-se a ele, na tentativa de se colocar no lugar da criança, compreendendo assim, a “montanha russa” das suas emoções. É esse olhar atento e refinado, que oportuniza a criança a se sentir acolhida e segura.  Por meio do exemplo do adulto, a criança ao ser cuidada e ter seus sentimentos validados, cria recursos para também olhar para o outro da mesma forma que tem sido olhada. E a empatia, aos poucos, vai ganhando forma.

No ambiente escolar a criança brinca e interage com os colegas, aprende a apreender a se socializar, além de construir conteúdos conceituais.  No grupo, aprende a compartilhar objetos, negociar brincadeiras, criar estratégias, ter ideias, construir colaborativamente projetos e, principalmente, exerce diferentes papéis.

Nesse contexto a criança se conecta com as emoções dos colegas, com a orientação do professor que ao identificar um problema, trabalha na mediação do conflito fazendo com que todas as partes envolvidas possam expressar seus sentimentos. Na maioria das vezes, ao perceber que ao tirar o brinquedo ou o bater no colega, este ficou triste e sem compreender o porquê daquela ação. Nesse momento, o professor mediador cria um espaço de conexão entre todos os envolvidos, no qual todos podem expressar o que estão sentindo, explicar o que aconteceu e qual foi a intenção naquela atitude.

Outro espaço precioso para mediação e resolução de conflitos é quando a escola promove assembleias envolvendo um grupo de crianças que queiram expor situações que as deixam alegres ou tristes e, na sequência, outras que queiram relatar como se sentiriam se estivessem no lugar do outro, para que assim, possam compreender suas emoções, sentimentos e, portanto, tomada de atitudes.

Trazer para as crianças a reflexão sobre determinadas situações e sobretudo, que as pessoas são diferentes, portanto merecem também o respeito. Ao ensinar empatia, também estamos contribuindo para construção de outros valores, dentre eles, respeito e resiliência.

Ser empático envolve o desprendimento, o desapego às próprias crenças, valores e preconceitos para que possa reconhecer e compreender como o outro pensa, age e sente. Praticar a escuta ativa e sem julgamentos. É colocar-se no lugar do outro. Parece difícil? Impossível? Nem tanto! Requer um pouquinho de disponibilidade interna e aceitação do diferente. Convidamos você a fazer o exercício de tirar a atenção de si e olhar o outro.

Vamos aproveitar essa fase que estamos vivendo com pessoas necessitadas, tanto materialmente, como emocionalmente, e criar uma grande oportunidade para treinar o olhar das nossas crianças em se colocarem no lugar do outro e, com isso, se transformarem em adultos sensíveis e que contribuirão para o bem-estar da nossa sociedade.


Adriana Simionato, orientadora da Educação Infantil ao 2° ano do Ensino Fundamental do Colégio Rio Branco, Unidade Higienópolis. Psicóloga, pedagoga, psicopedagoga e pós-graduanda em Neuropsicologia.


Ana Claudia Crivellaro, orientadora do 3° ao 5° ano do Ensino Fundamental do Colégio Rio Branco, Unidade Higienópolis. Formada em Pedagogia e Ciências Biológicas, com especializações em Coordenação Pedagógica e Supervisão Educacional, Neuroaprendizagem e Neurociências.


Valquiria Rodrigues, diretora assistente do Colégio Rio Branco, Unidade Higienópolis. Pedagoga, mestre em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem e Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Integrou o grupo de Pesquisa LACE da PUC-SP, no projeto Aprendendo Brincando – Equipe Diretiva.

Bibliografia:

Brown, Brené .A coragem para liderar (recurso eletrônico) / Brené Brown :tradução Carolina Leocadio. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Autografia, 2019

Caminha, R. M., Soares, T., & Kreitchmann, R.S. (2011). Intervenções Precoces: promovendo resiliência e saúde mental. In M. G. Caminha & R. M. Caminha (Eds.). Intervenções e treinamento de pais na clínica infantil (pp 31-80). Porto Alegre: Sinopsys.

Deming, David J. A crescente importancia das habilidades sociais no mercado de trabalho 2017

Goleman Daniel, ph.D, Inteligência emocional. A teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. Rio de Janeiro: Objetiva

Gottman, J., & DeClaire, J. (1997). Inteligência emocional e a arte de educar nossos filhos: como aplicar os conceitos revolucionários da inteligência emocional para uma compreensão da relação entre pais e filhos. Rio de Janeiro: Objetiva.

 

 

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