Games: vilões ou mocinhos?

Games: vilões ou mocinhos?

Especialista explica os aspectos positivos e negativos dos jogos eletrônicos para as crianças e jovens, e dá dicas para as famílias e educadores sobre os limites da internet

Colégio Rio Branco

20 de março de 2019 | 19h37

Imagem/Ilustração

 

Nos últimos dias, a discussão sobre a influência que os vídeo games podem ter no comportamento de crianças, jovens e até adultos voltou ao centro de debates, já que são expostos a dispositivos eletrônicos cada vez mais cedo.

Outro tema bastante presente, que desafia pais e autoridades, são as correntes ou “lendas virtuais”, uma espécie de jogo que pode extrapolar o ambiente virtual e representar algum tipo de risco físico ou psicológico às crianças, inclusive de forma coletiva, como o desafio da Baleia Azul e mais recentemente, o da boneca Momo, pelo WhatsApp.

O acesso a internet e aos games, de forma geral, merecem cuidado e isso tem sido uma preocupação, mas por outro lado, os jogos podem ser extremamente benéficos para a aprendizagem e na educação, como a linguagem de programação, por exemplo, e o uso dos dispositivos tecnológicos em sala de aula.

Jorge Farias, professor de Tecnologia do Colégio Rio Branco

O especialista Jorge Farias, professor de Tecnologia do Colégio Rio Branco e coordenador dos projetos Game Factory,  Robótica e “Stop Motion…Ops!…Stop Bullying!” – contra o cyberbullying, explica mais sobre o tema e esclarece as principais dúvidas que envolvem as famílias e educadores. Jorge tem experiência e trabalha com linguagem e programação, criação de jogos 2D, robótica, linguagem cinematográfica e laboratório maker. É graduado em Pedagogia e Sistemas de Informação, com pós­-graduação em Psicopedagogia.

Qual é a idade mais indicada para a criança começar a ter contato com os jogos eletrônicos?
JF: Não há uma idade mínima para que uma criança jogue, porém o contato familiar e social é indispensável para o desenvolvimento da criança, como o psicomotor, o cognitivo e o afetivo. Elas precisam passear, pular, brincar, experimentar emoções da infância que só o contato pessoal pode proporcionar e isso não pode ser delegado aos jogos, que apenas complementam o desenvolvimento global da criança. E os pais devem ficar atentos quanto à classificação indicativa, presente em todos os jogos comercializados para videogames e em alguns sites.

Qual o limite de tempo é indicado para uma criança jogar diariamente, em média?
JF: Há uma pesquisa feita pelo psicólogo experimental Andrew Przybylski, da Universidade de Oxford e publicada na revista Pediatrics, em 2014, que indica uma hora por dia como tempo satisfatório. Mais do que isso, a influência dos jogos pode prejudicar o comportamento, como indicou a pesquisa. Esse tempo é excelente, visto que há outras atividades importantes para a infância, como brincar em parques, nadar, jogar bola, estudar e ler.

Como as famílias devem impor limites?
JF:A noção de tempo e organização de tarefas não são pontos fortes da criança, então, os pais devem impor o limite e o equilíbrio de tarefas, mas sempre explicando o porquê de tais limites. Se possível, os pais devem acompanhar ou até mesmo jogar com a criança, o que aumentará a resposta positiva em relação à imposição. Uma dica é permitir maior tempo de jogo aos domingos (desde que já estejam livres das tarefas escolares e outros comprometimentos familiares).

Crianças e até adultos passam cada vez mais tempo em mundos virtuais, como isso pode se refletir no futuro?
JF: Não vejo mais separação entre o real e o virtual. Hoje se vive online. As ferramentas de relacionamento e mídias virtuais, como Whatsapp, Facebook e YouTube se tornaram necessidades básicas de convívio, e realmente têm facilitado a vida corrida nas grandes cidades e encurtado qualquer distância. Ferramentas de edição de documentos, acesso bancário e arquivamentos virtuais também têm colaborado para essa dependência digital. A tendência é que, mesmo vivendo numa complexidade tecnológica, nossa vida se torne mais simples e socialmente próxima, com a burocracia dando lugar a alguns apertos de botão. Mas o contato pessoal, o olho no olho, o abraço, o afagar de cabelos nunca podem ser substituídos. Os perigos existem quando o relacionamento pessoal dá lugar à solidão virtual.

imagem/reprodução

Como os pais e educadores devem agir quando se deparam com correntes e jogos que chegam pelas redes sociais e fazem apologia à violência ou ao suicídio, como o desafio da boneca Momo, por exemplo?
JF: Aos pais, em primeiro lugar deve-se conversar com os filhos da forma mais natural possível, progressivamente, sem alarde ou intenção de causar pânico. Às vezes o assunto nem chegou aos olhos e ouvidos deles, e o melhor nesse caso é preveni-los de forma genérica, sem contar detalhes, pois a simples abordagem direta pode causar curiosidade desnecessária e uma busca sobre suicídio ou Momo na internet, o que pode piorar a situação. Depois, devem se colocar à disposição para conversar assuntos que deixem os filhos preocupados ou com medo, e manter-se vigilantes quanto ao conteúdo que as crianças assistem na internet, principalmente no Whatsapp. Criar uma confiança mútua garantirá que, caso ocorra o contato com o assunto, ele será resolvido de forma rápida e saudável.

Caso o contato com o assunto já tenha acontecido, é necessário afirmar o quão importante é o valor da criança e do adolescente para os pais, deixando claro o amor que sentem e reafirmar-se como porto seguro caso os filhos precisem de ajuda. Depois, é necessário perguntar em quais locais da internet os filhos tiveram o contato com o assunto para que possam avisar a escola e denunciar aos responsáveis pelas redes sociais e órgãos competentes. A escola deve manter diálogo constante com os pais, direcionando seu corpo docente para ficar atento às conversas dos alunos e comportamentos estranhos, mas evitar a exposição aberta sobre esses assuntos, preferindo tratar especificamente com os alunos que mostrarem necessidade de atenção junto aos seus pais.

Jogos violentos podem influenciar no comportamento das crianças?
JF: Os jogos possibilitam que as crianças entrem em contato com seus anseios, medos, frustrações e desejos. Cada fase perdida, missão fracassada ou jogo ganho permite que vivam essas emoções sem que precisem se arriscar na vida real. Os que contém violência aumentam tais emoções. Esses jogos não criam o comportamento violento, mas podem potencializar, através dessas experiências, o que a criança já tem dentro de si. Aí está a importância do acompanhamento dos pais, que devem observar o relacionamento entre seus filhos e os jogos. Deve-­se prestar atenção especial nos personagens desses jogos, que podem ser considerados heróis, mas têm comportamentos antissociais, e podem ter suas atitudes agregadas pelo jogador. Caso notem algum comportamento violento quando jogam, os pais devem conversar com a criança sobre suas emoções e, se necessário, procurar um especialista em comportamento.

No caso de games violentos, como as famílias podem estar atentas ao conteúdo acessado pelos filhos, já que muitas vezes eles jogam na casa de amigos ou até mesmo em lan houses?
JF:A conversa familiar e o cuidado comunitário são ferramentas essenciais para que a criança e o adolescente se sintam seguros. Participar da rotina dos filhos conversando sobre o dia-a-dia, abordar a visita que fez aos colegas, conversar com os pais dos colegas e com o responsável pela lan house e verificar sempre o histórico da internet são atitudes que garantirão a proteção necessária. Como já mencionamos: jogos não criam o comportamento violento, mas podem potencializar, através dessas experiências, o que a criança já tem dentro de si.

Em qual momento a relação com os jogos deixa de ser entretenimento e começa a dar indícios que não é saudável?
JF: Situações estressantes de jogo (como jogos de guerra, guerrilha, combate policial, tráfico de drogas, missões com roubos, bullying escolar), amizades (virtuais ou presenciais) nocivas e com vocabulário agressivo e exposição a jogos incompatíveis com a maturidade podem gerar comportamentos que englobam: agressividade verbal (palavrões, tom agressivo, reações ofensivas aos pais e irmãos), gosto repentino por coletânea de armas (brancas ou não), roupas e decoração mais sombrias, falta de paciência para conversar, senso de justiça desequilibrado (quando deseja uma punição mais pesada do que a situação exige) e isolamento.

Como a família deve intervir nesses casos?
A família deve conhecer os hábitos e comportamento de seus filhos. Seus gostos e suas reações devem ser previsíveis. E devem saber também que mudanças de comportamento e gostos mudam conforme a idade avança, principalmente na pré-adolescência (11 a 13 anos). Uma criança pode não gostar mais de carrinhos e passar a preferir revólveres de brinquedo, por exemplo. São mudanças que podem acontecer, moldadas conforme seu universo se expande e entra em contato com outras situações e amigos. E são estas situações e amizades que devem ser monitoradas. A classificação etária do jogo também deve ser analisada, pois a maturidade da criança pode não estar preparada para certos conteúdos, como violência de guerra e insinuações eróticas. Caso o comportamento dos filhos demonstre essas atitudes, é importante levá-os a uma autorreflexão e identificar possíveis laços de amizades prejudiciais. A escola deve dar o suporte necessário monitorando tais comportamentos. Caso se agrave, um terapeuta especialista pode ser necessário.

Pode-se confiar na classificação etária que é determinada para os diferentes tipos de games?
JF: A classificação da faixa etária para jogos é realizada pelo Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação (Dejus) e baseada em pesquisas do Ministério da Justiça e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Os três temas base para classificação são: sexo, violência e drogas. Apesar do esforço em preservar a criança, selecionando a idade certa para ter contato com profundidades diferentes de cada um dos três temas, a classificação é apenas uma referência para os pais, que sempre devem acompanhar os filhos no momento da compra e do jogar, avaliando o melhor momento para a exposição de algumas situações e informações de acordo com a maturidade da criança. Qualquer conteúdo que não seja compatível com a faixa etária da criança é negativo.

Quais tipos de jogos são recomendados e quais devem ser proibidos?
JF: Todos os jogos estimulam habilidades cognitivas, como, por exemplo, o simples e famoso Pac­Man, que desenvolve o raciocínio rápido e movimentos ágeis, e o complexo Minecraft, que desenvolve o planejamento estratégico, administração de recursos, construção de material e organização espacial. Mas é sempre bom procurar os jogos que têm o objetivo explícito de educar. Basta digitar em um site de buscas a frase “jogos educativos”, ou procurar nas lojas de aplicativos virtuais, na categoria Educação. As crianças não devem ser expostas a jogos que exploram objetos, comportamentos e situações que exijam certo nível de maturidade e compreensão do jogador e podem ser inadequados para crianças, como GTA 5, onde há missões como roubar carros com armas pesadas e traficar drogas, ou God of War, com cenas de nudez e conotação sexual. É recomendável aos pais, estarem sempre sempre atentos à classificação indicativa e acompanhá-los em alguns momentos durante os jogos.

Os games também podem contribuir para o desenvolvimento e aprendizado das crianças?
JF: Podem sim! O potencial de aprendizado nos jogos é grande, pois podem estimular diversas habilidades cognitivas, como leitura e compreensão, interpretação de problemas, tomada de decisões, definição de prioridades, organização espacial, foco em missões e cálculo financeiro. Essas e outras habilidades são essenciais para o desenvolvimento acadêmico e também na vida pessoal. Há jogos voltados para o aprendizado escolar, como os que treinam a formação de palavras, cálculo matemático, contextualização histórica e mapas virtuais. Porém, como pedagogo e professor, eu sempre ressalto que a mediação torna o processo eficaz, pois direciona a criança ao objetivo e torna mais palpável sua aprendizagem, principalmente em jogos não educativos.

Quais os benefícios que os jogos trazem para as crianças?
JF: Além das habilidades cognitivas e acadêmicas, os jogos também estimulam as relações sociais entre jogadores e desenvolvem habilidades tecnológicas. Em alguns casos, o jogador precisa fazer planejamento estratégico, usar o raciocínio lógico, ter movimentos ágeis e manter o reflexo aguçado. Sem contar os jogos que precisam do corpo para interagir, como dançar ou jogar tênis, que estimulam a atividade física.

A programação de games e a criação de aplicativos é uma tendência muito forte entre as crianças e jovens na atualidade. Quais os benefícios dessa modalidade?
JF: Primeiro, a programação trabalha a criatividade e o raciocínio lógico, o design e a organização de ideias, isto é, os dois lados do cérebro. Segundo, programar algo seu para servir aos outros desenvolve o empreendedorismo. Terceiro, há poucos programadores em proporção ao número de usuários, o que cria a tendência de no futuro ser uma profissão bem vista e requisitada. Quarto, a programação pode servir como ferramenta da interdisciplinaridade: o aluno pode criar um aplicativo que mostre todo o conteúdo aprendido durante o ano e que sirva de material de estudo concentrado aos colegas da sala antes das provas finais ou criar um site que explique a história do país com textos bem feitos, mapas e cálculos demográficos, por exemplo. Quinto, programar sobre um assunto do seu jeito faz com que a pesquisa sobre tal assunto seja mais intensa, o que desperta mais interesse em estudar. Sexto, ensina o planejamento de projetos, no qual a criança aprende a planejar, programar, experimentar, errar, tentar novamente, revisar, avaliar e assim por diante, reestruturando sua capacidade de organização pessoal. Sétimo, as crianças e adolescentes podem ter uma voz ativa na sociedade com ferramentas tecnológicas que ela mesma criou, incentivando mais ainda o protagonismo, Logo um profissional de programação não será mais algo difícil de encontrar, pois a geração atual está entendendo a importância de programar.