Era uma vez… o valor de contar e ouvir histórias em tempos de quarentena

Era uma vez… o valor de contar e ouvir histórias em tempos de quarentena

Por Juliana de Oliveira Góis

Colégio Rio Branco

20 de abril de 2020 | 15h18

Imagem: reprodução.

Era uma vez… esse pode ser o marco do início de uma pausa na correria do dia a dia, o começo de um passeio pelo mundo da fantasia, ou, quem sabe, de uma visita a lugares onde tudo pode acontecer. Nesta introdução um convite: você aceita fazer uma viagem no tempo? Tente se lembrar das histórias que lhe foram contadas na infância, dos seus livros preferidos e de como eram esses momentos. Respire fundo e, se preferir, feche os olhos para um mergulho nas suas memórias antes de retomar a leitura deste texto.
Lembro-me que meu avô costumava contar histórias no quintal de sua casa, após o almoço. Uma delas nunca esqueci, talvez por ter pedido a ele que me contasse sempre aquela, “só mais uma vez”. Mania de criança querer ouvir o mesmo conto repetidas vezes e em todas elas se encantar como se fosse a primeira. Trata-se de um fenômeno comum na infância, por vezes ela não compreende tudo na primeira leitura e, a cada repetição, consegue entender melhor a história, além disso se sente segura quando consegue antecipar a próxima cena. Na repetição, a criança percebe a presença de padrões e há nesse processo uma busca pela noção de que há uma certa previsibilidade na vida. 

Sabemos que as histórias estimulam habilidades  como a imaginação e a criatividade, todavia o seu papel vai muito além. Elas favorecem o desenvolvimento social e afetivo e, em tempos como este,  tornam-se ainda mais valiosas, tanto às crianças quanto aos adultos. A literatura infantil é bastante vasta; uma boa história propicia descobertas e ouvindo-a as crianças passam a compreender melhor o mundo e os  seus próprios sentimentos.

Contudo, as temáticas infantis vêm sendo problematizadas pelo viés moral e existe um movimento crescente de oferecer às crianças histórias em que a bruxa não quer ser má, o lobo mau não existe e assim por diante. Nessa mesma linha, algumas letras de cantigas foram alteradas, a fim de tornarem-se menos violentas: “o cravo não brigou com a rosa”, “não atire o pau no gato” etc. Há nessas condutas uma crença de que, ao oferecer versões mais atenuadas, estaríamos protegendo a criança. Um ditado popular diz que “quem canta seus males espanta”, o complementamos dizendo que não precisamos nos preocupar em retirar os males. 

A professora do Ensino Fundamental I, Mara Turolla, fez uma contação online para os seus alunos, nesse período de quarentena. Clique para assistir.

Uma pesquisa britânica sobre conto de fadas, após entrevistar  dois mil pais, revelou que um em cada quatro alterava trechos da história com o intuito de torná-las mais “amigáveis”, 16% deles baniram por completo alguns contos de fadas do seu repertório de leitura para os filhos; e, os contos “Chapeuzinho Vermelho”, seguido por “Três Porquinhos”, foram os mais frequentemente editados.
Segundo o psicanalista Eduardo Ottolia, que participou dos encontros de formação com a temática “Literatura infantil e seus desdobramentos”, promovidos pelo Colégio Rio Branco no ano passado para pais e educadores, “é possível que esses movimentos estejam carregados das melhores intenções, imaginando que dessa forma estamos criando melhor nossas crianças, mas é é aqui que os enganos aparecem” (sic).

Se por um lado, é compreensível este instinto de proteção, por outro, devemos ponderar acerca de suas consequências. Quando não oferecemos as histórias reais para as criança, estamos também deixando de oferecer a elas um instrumento valioso para elaborar na fantasia as experiências da vida comuns a todos nós, seres humanos, como o amor, a morte, a separação e o abandono, entre tantas outras. Em cada conto, a criança se depara com representações de experiências que foram, são ou poderão vir a ser vivenciadas por ela. Se retiramos o vilão, a bruxa, o lobo e os fantasmas, é como se podássemos a oportunidade do desenvolvimento da resiliência.

Vamos pensar nos dias atuais: seria impossível escondermos de uma criança a realidade imposta por um cenário de pandemia. Recentemente, o escritor e psicólogo Illan Brenman
propôs uma reflexão acerca de como uma criança que nunca vivenciou no mundo simbólico o que é sofrimento, o medo, a coragem, a incerteza e a luta pelo que você quer, está lidando com este momento. Na falta dessa vivência, tudo acontece pela primeira vez, sem ensaios prévios, o que pode vir a gerar maior ansiedade e sofrimento. Os contos de fada  ou contos populares regionais podem ser ferramentas interessantes para auxiliar no desenvolvimento de recursos emocionais para lidar com essa fase, visto que, no desenrolar do enredo dessas histórias, estão presentes a incerteza, o medo, a morte e ao mesmo tempo a coragem, a esperança e o amor. Se durante o percurso, a criança experimentar sensações de medo, tristeza ou angústia saberá que é possível enfrentar os perigos, que, se estiverem juntos, a batalha tende a se tornar mais fácil e que em algum momento o problema irá se resolver, afinal, toda narrativa é composta por começo, meio e fim.  

Ao contar ou ouvir histórias do universo infantil, o adulto se distancia da realidade, deixa de lado suas preocupações e pode junto da criança saborear momentos de afeto recheados por fantasia, aventura, humor, suspense, romance e drama. A despeito das dicas e sugestões acerca de como contar histórias, amplamente divulgadas neste período de quarentena, não existem regras, aprende-se fazendo. De toda forma, se você não gosta ou não se sente à vontade para ler ou inventar contos, tudo bem. Uma possibilidade nos dias atuais é o acesso via internet a áudios ou vídeos com leituras. Aconchegue-se ao lado do seu filho neste momento e desfrute este momento. A beleza está no encontro, na entrega e no sentir com ele. 

Estamos atravessando um momento atípico, complexo e com muitas incertezas. Em contrapartida, em uma era em que os momentos de reunir a família tornaram-se cada vez mais escassos, muitos de nós estamos conseguindo passar mais tempo em casa. Após as primeiras semanas de isolamento social, aprendemos que isso não é sinônimo de que estamos com mais tempo livre e que conciliar atividades da casa, do trabalho e de homeschooling é desafiador. Mas também descobrimos que é possível fazer diferente, que a empatia é uma habilidade essencial para nossas vidas e que alguns encontros se transformam em doces memórias. Este texto começou com um convite e termina com uma proposta: aceita fazer um pequeno intervalo para contar ou ouvir uma história? Espero que você aproveite.

10 dicas de links com histórias infantis contadas:

1. O pote vazio
2. Não faz mal ser diferente
3. “A velhota fofoqueira”
4. Marcelo, marmelo, martelo
5. O monstro das cores
6. As centopeias e seus sapatinhos
7. O homem que amava caixas
8. As cores de Mateus
9. A casa sonolenta
10. A Menina e o Passaro encantado

Acessibilidade – contações produzidas pelo Centro de Educação para Surdos Rio Branco (CES), legendadas e com tradução em Libras (Língua Brasileira de Sinais):

A lenda do Sol
A Bela e a Fera

Juliana de Oliveira Góis é psicóloga e orientadora educacional de apoio à aprendizagem, do Colégio Rio Branco.

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: