Encontros… Crônica de um professor sobre o dia a dia na escola

Encontros… Crônica de um professor sobre o dia a dia na escola

Por Caio Mendes*

Colégio Rio Branco

28 Outubro 2015 | 15h11

Caio_Mendes
Há algumas semanas aconteceu o “Encontro Cultural do Colégio Rio Branco”, o que me fez parar para refletir. Vou tentar reproduzir algo que tento fazer diariamente na minha prática em sala de aula: ampliar o entendimento dos acontecimentos, começando pela análise das palavras escolhidas.

“Encontro” é um vocábulo escolar em sua essência. Diariamente – e em praticamente todos os dias da semana mesmo – estamos lá, bem cedinho, para nos encontrarmos. Que alegria podermos estar juntos. Começo com um “Bom dia, Matias!” – inspetor que sempre está nas catracas de manhã e que carrega um nome de grande valor. Cumprimento também os alunos que esqueceram o crachá, os que mal acordaram e os que deixam os irmãos na Educação Infantil – estes particularmente mais felizes nas sextas, pois sempre é Dia do Brinquedo. Cumprimento os “grandes do Ensino Médio”, alguns que já estão rindo, “os pequenos” que correm com suas malas de rodinha e especialmente os que estão morrendo de frio. Faz poucos graus Celsius de manhã na Granja Vianna. Encontro algumas professoras do Fundamental I, a inspetora que sorri, os alunos na mesa de ping-pong. Seu Evaldo pára sua varrição ritmada para um invariável “Bom dia, professor!”. Zezinho há meio século na Fundação, e Laurinha, há um quarto, também me encontram e me recebem com bom dia. As saudações são calorosas na Sala dos Professores e também em cada sala de aula. Que alegria podermos estar juntos.

A cada aula meu pensamento é sempre em como tornar memorável esse nosso encontro. Escapar da rotina não é fácil. Escapar do fácil não é fácil. Mas nunca tive medo do difícil. Sou cria dessa casa e sempre encontrei professores pra me dizerem “Calma… Vá lá que você consegue”. E olha que eu nem dizia estar nervoso. Mas quem é professor tem um estranho e aguçado dom de ler as expressões faciais de seus alunos.

[O texto talvez esteja longo, mas vou deixar as palavras irem conquistando seus espaços, elas querem sair…]. Vamos à segunda palavra: “Cultural”. Que grandiosidade. Cultura diz respeito à produção humana. Nela cabem as línguas, os números, as formas e as cores. Os tecidos, as estrelas e seus significados, as relações familiares e a escola. Cabem o binômio de Newton, as leis de Newton e a maçã. Cabe Shakespeare, eu e você. Não é muito louco? Tudo que é cultural me encanta e está ao nosso alcance. Pode (e deve) ser discutido e expresso em palavras, imagens, sinais, sons e bits.

Tudo isso faz com que o “Encontro Cultural” seja um reflexo do que uma escola pode ser… deve ser…e é. Que alegria podermos estar juntos. Escola é muito mais que a sala de aula e suas carteiras. Escola é mais do que o calendário de provas. Escola é mais do que a preparação para o ENEM. Escola é poder transformar o espaço. Escola é poder cantar pelos corredores, é poder cozinhar, é poder declamar uma poesia. Escola é poder monitorar, é poder viajar, é poder debater. Escola é poder ganhar, perder, torcer e competir. Escola é poder construir um gigantesco barco de papel e suspendê-lo no ar. Escola é apresentar-se no palco, é fazer um gol, é chorar e ser amparado. Escola é lugar de receber os pais, os amigos de sempre e os ex-alunos. Ah, como é bom voltar e estar em casa. Que alegria podermos estar juntos.

Tudo isso pra dizer que eu tento fazer de todos os meus dias no Colégio Rio Branco, um “Encontro Cultural”. E isso não se faz sozinho. É preciso muita energia, muita força e muito empenho. É preciso colegas de profissão com propósitos firmes. É preciso alunos nos quais se pode confiar. Não é fácil. Mas nunca tive medo do difícil. O colégio sempre foi lugar de desafios, de amigos, de projetos encantadores e de um “Calma… Vá lá que você consegue!”. Meu muito obrigado aos meus alunos e colegas que fazem do nosso encontro diário um momento importante em minha (nossas) vidas. Espero que continuemos nos encontrando. Que alegria podermos estar juntos todos os dias.

*Caio Mendes foi aluno do Colégio Rio Branco, e hoje é professor de História na instituição, realizando seu trabalho com afinco e excelência, na Unidade Granja Vianna. É muito querido por colegas e alunos, e coordena, junto aos estudantes, o importante projeto Humana Mente – uma iniciativa multidisciplinar e de acessibilidade que envolve Cultura, Arte, História e os principais temas da agenda atual.