Diálogos entre desenho infantil e a realidade: o que as crianças podem dizer

Diálogos entre desenho infantil e a realidade: o que as crianças podem dizer

Por Sueli Marciale, psicopedagoga.

Colégio Rio Branco

16 de abril de 2021 | 15h14

Ilustrações: trabalhos de alunos do Colégio Rio Branco.

 A Educação Infantil constitui uma  modalidade fundamental  da Educação Básica para o desenvolvimento das crianças, pois é nessa etapa que se iniciam as primeiras experiências importantes, tendo em vista que elas se encontram em pleno crescimento em relação aos aspectos cognitivo, emocional,  afetivo,  social e  moral.

Princípios norteadores das propostas pedagógicas como éticos, políticos e estéticos são traçados para nortear o trabalho desde a Educação Infantil, levando em consideração as concepções de criança, de infância e de currículo. Dentre esses princípios, destaca-se o estético, voltado para a importância de se desenvolver atividades que despertem a sensibilidade, a criatividade, a ludicidade, assim como a liberdade de se expressar em diferentes manifestações artísticas e culturais. 

Nesse sentido, o desenho constitui uma das atividades importantes para perceber e entender como a criança está “lendo” a realidade à sua volta. Antes visto  como um passatempo em casa(sem sentido, muitas vezes, para os adultos) ou nas séries iniciais da Educação Infantil, agora passa a ser considerado fundamental  para acessar o mundo interno, as percepções, afetividade, aflições, angústias e desvendar como as crianças experimentam sua individualidade em relação aos outros e ao meio ambiente.

Mais do que rabiscos, formas e cores em um papel em branco,  os desenhos infantis representam o mundo imaginário de crianças, desde o início de sua infância. As linhas e os traços exprimem o que pensam no momento em que desenham. Para elas, rabiscar é também o meio de se afirmar, de exprimir as suas emoções, o universo tal como o vivem e traduzir, por meio de uma forma de expressão muito pessoal, o acontecimento vivido ou imaginado. Desenhar significa, portanto, para elas, se comunicar e libertar-se. 

A inicialização do desenho acontece, na maioria das vezes, antes do momento em que entram na escola. Os primeiros desenhos são realizados por prazer e são vistos como uma prática recreativa ou uma simples brincadeira. Riscam paredes, chão e até elas mesmas, qualquer lugar onde sintam vontade de o fazer, mas, ao ingressarem na Educação Infantil, as crianças agem com vigor ao desenhar. Experimentam movimentos e matérias oferecidos sem medo, fazendo-os variar por intermédio de suas ações. 

Diante disso, trabalham de modo concentrado em seu desenho, pois, desde cedo, a cultura já se faz presente no meio social, vão construindo suas ideias sobre o que é o desenho e para que serve esse desenhar. Geralmente, na fase infantil, elas têm uma necessidade de nomear os desenhos, surgindo, assim, o conjunto dos seus traços iniciais. “[…] a criança projeta no desenho o seu esquema corporal, deseja ver a sua própria imagem refletida no espelho do papel” (DERDYK, 1989, p. 51).

Muitas delas expressam algo voltado para as experiências e as vivências do seu mundo. Por isso, o professor deve sempre incentivá-las a desenhar por meio de desafios que despertem sua curiosidade.


Assim, “[…] observar como a criança aprende a desenhar é fato fundamental para o trabalho educacional, e conhecer os processos de aprendizagem no desenho promove as transformações de seu ensino” (IAVELBERG, 2013, p. 102). Nesse sentido, a tarefa dos educadores consiste em saber como a criança aprende e se desenvolve nesse campo nas diferentes culturas, como também cabe à escola abrir oportunidades no ensino das diversas áreas de conhecimento.

Derdyk (1989, p. 19) enfatiza que a criança, enquanto desenha, canta, dança, conta histórias, teatraliza, imagina ou até silencia. “[…] o desenho também é manifestação da inteligência, a criança vive a inventar explicações, hipóteses e teorias para compreender a realidade” (DERDYK, 1989, p. 54). 

Dos rabiscos (dos dezoito meses aos dois anos) sobre suportes de grandes dimensões e com liberdade; uso  de várias ferramentas de desenho (canetas, tintas, lápis de cera ou de cor: dos  dois aos três anos); expressão,por meio do desenho, informa-nos aquilo que pensa desenhar mesmo antes de começar o desenho(dos três aos quatro anos); escolha das cores(dos quatro aos cinco anos) em função da realidade mas, por vezes tem tendência a esquecer o desenho em favor da escrita; a criança, ao desenhar espontaneamente, cria uma estrutura que a leva com mais facilidade em direção às suas emoções, fantasias e sentimentos. 

De certa forma isso acontece com todas as formas de expressão que conhecemos, a partir do momento que esta deixa de ser um momento espontâneo e de prazer para passar a ser um momento obrigatório e restrito perde toda a sua genuinidade e riqueza, tal como acontece, por exemplo, com a leitura. A criança transpõe para a folha o seu estado de alma e de espírito sem dar conta. É por isso mais favorável não insistir para que a criança desenhe, se ela não sentir necessidade. Ela deve desenhar para ter prazer e não para dar prazer.

Desenhos infantis na pandemia

Se para os adultos não é simples compreender que há um momento de isolamento social necessário impossibilitando a continuidade da rotina, imagine para as crianças. Como elas têm lidado com suas realidades, possibilidades e limites – a começar pelo espaço físico de que dispõem neste cenário tão complexo vivido há mais de um ano?

Como têm lidado com a saudade dos coleguinhas, a realidade de isolamento dentro de casa, a raiva e a tristeza? Como as crianças estão vivenciando este período ímpar na história?

O Colégio Rio Branco, antes mesmo da pandemia, já promove em seu currículo, espaços de representação gráfica de seres, objetos, ideias e sensações (desenhos), que possibilitam às crianças aprender, de forma lúdica, a nomear e a expressar seus sentimentos, por meio das brincadeiras, leituras e contação de histórias. Esse processo constitui o Projeto COM VIVÊNCIA, em que desenvolvimento das habilidades socioemocionais acontece na rotina das crianças, desde muito pequenas, em momentos espontâneos e por meio de atividades dirigidas, com estratégias diversificadas para contemplar as diferentes formas de pensar e de sentir de cada uma delas.

Acredita que, quando entendem as emoções e as comunicam de maneira objetiva, podem e conseguem, ao reconhecê-las, escolher melhores estratégias para resolver problemas e lidar com situações negativas, ou positivas, desenvolvendo, gradualmente, a percepção sobre o ponto de vista do outro.

Entende que, neste momento, tornam-se ainda mais necessários os espaços planejados de convivência para serem desenvolvidas atitudes de autocuidado, cuidado com o outro e do compromisso com atitudes individuais que promovam o bem-estar coletivo.

Abaixo seguem expressões de um tempo fluído, de tantas incertezas (sentimentos como: alegria, tristeza, raiva e valores, entre eles, importância de estar junto à família).

Mais do que querer “decifrar” o que a criança compôs, importa “dialogar” com o desenho.

Como me sinto ? Alegre, triste e com raiva

 


Ilustrações: Desenhos produzidos pelos alunos do Colégio Rio Branco.

BIBLIOGRAFIA DE APOIO

ANNING, Angela. Os significados dos desenhos das crianças. Porto Alegre, Artmed,2009.

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução n. 5, de 17 de dezembro de 2009: Fixa as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC/CNE, 2009. 

DERDYK, E. Formas de pensar o desenho: desenvolvimento do grafismo infantil. São Paulo: Scipione, 1989.

FERREIRA, Aurora. A criança e a arte: O dia a dia na sala de aula. Rio de Janeiro: WAK, 2005.

HORN, M. G. S. Sabores, cores, sons, aromas: a organização dos espaços na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2004.

IAVELBERG, Rosa. O desenho cultivado da criança. 2. ed. Porto Alegre: Zouk, 2013. 

LOWENFELD, Viktor. A criança e sua arte. 2 ed. São Paulo. Mestre Jou, 1977. 

MÈREDIEU, Florence de. O desenho infantil. São Paulo: Cultrix, 2006. MOREIRA, Ana Angélica Albano. O espaço do desenho: A educação do educador. São Paulo: Loyola, 1997

MOREIRA, A. A. A. O espaço do desenho: a educação do educador. 12. Ed. São Paulo: Loyola, 2008.

Sueli Marciale
Diretora assistente da Unidade Granja Vianna, do Colégio Rio Branco. Atua especialmente com Educação Infantil e Ensino Fundamental. Psicopedagoga com formação em Letras pela PUC-SP, e especializações em Linguística Aplicada ao Ensino de Letras e Relações Interpessoais na Escola. Possui certificações internacionais e acumula experiência docente e de gestão em renomadas instituições do Ensino Básico ao Ensino Superior.

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.