Dia Internacional da Felicidade: afinal, o que significa essa tal felicidade?

Dia Internacional da Felicidade: afinal, o que significa essa tal felicidade?

assessoriaimprensa

18 de março de 2022 | 08h00

Dia da Felicidade

“Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma”
Adriana Falcão


Antes de refletir sobre o que significa Felicidade, coloco aqui uma proposta: você aceita realizar um exercício prévio à continuidade da leitura deste texto? Se sim, respire fundo e ofereça asas aos seus pensamentos, desconecte-se por alguns instantes do aqui e agora e plane sobre as saborosas lembranças armazenadas em sua memória. Se não, siga em frente.

Você já parou para pensar em quais momentos você se sente feliz? Em ocasiões como essas, ao fechar os olhos, eu ouço o som do mar, sinto o vento do balanço, o gosto do bolinho de chuva da minha avó e o cheiro dos meus filhos quando bebês. 

A linha da vida é individual e curvilínea. Nela, as emoções oscilam por ondas que continuamente sobem e descem, ora nos sentimos bem, ora não – e está tudo bem! Sim, a felicidade se faz presente em fenômenos episódicos e não numa constante, representa um estado emocional vivenciado em ocasiões específicas e não uma forma de ser. 

Na literatura, nos deparamos com inúmeras definições. Felicidade é um dos temas mais estudados desde a antiga Grécia até os dias atuais. Do ponto de vista histórico, inicialmente acreditava-se que ela era um desígnio dos deuses – concepção religiosa que imperou por muitos séculos e em diversas culturas. Essa visão passa a ser questionada a partir do surgimento da filosofia socrática, que inaugura o paradigma segundo o qual a busca pela felicidade é uma tarefa de responsabilidade do próprio indivíduo. Doravante, no Iluminismo, emerge a crença de que todo ser tem o direito de atingir a felicidade. 

Na Psicanálise, Freud se debruça neste tema, em especial na obra “O mal-estar na cultura”, e nela questiona: o que os homens desejam na vida? Afirma, então, ser, sem dúvida, a felicidade. Na mesma linha, Albert Einstein respondeu: “É a felicidade que estamos atrás”, diante da pergunta feita por um entrevistador acerca do que os humanos mais desejavam. 

Em linhas gerais, pode-se dizer, hoje, que felicidade representa um estado emocional positivo almejado por todos e que se caracteriza pela sensação de prazer e bem-estar. Nos últimos anos, a Psicologia, a Psiquiatria e as Neurociências têm demonstrado interesse por este assunto, sendo o motor propulsor de indagações como: será que a partir do conhecimento acerca das estruturas e circuitarias cerebrais associadas à felicidade podemos aumentar os níveis de prazer em nosso dia a dia? Será que as escolhas que fazemos rotineiramente são preditoras de felicidade?

No decorrer desse percurso, muitas descobertas já foram feitas. Diversos estudos relacionam algumas estruturas cerebrais com a sensação de prazer, como os gânglios basais, o Córtex Orbitofrontal e o Córtex Cingulado Anterior. Além disso,  os mecanismos hedônicos também são modulados pela ação de neurotransmissores como a dopamina e a serotonina. A despeito da especificidade dessas terminologias, o que nos importa é que o conhecimento acerca dessas associações podem  favorecer a implementação de práticas que geram a sensação de bem-estar. Logo, nossas ações e escolhas do cotidiano são de extrema relevância para o aumento do senso de felicidade. 

Implementar uma prática regular de exercício físico, por exemplo, para além dos benefícios para a sua saúde física, também, alivia o estresse, melhora a autoestima e é positiva para o humor. Estes ganhos estão associados ao fato da atividade física promover liberação dos mencionados neurotransmissores no cérebro: a dopamina e a serotonina. A dopamina é liberada no organismo de forma natural, quando temos uma experiência agradável, e ao “viajar” entre os neurônios, gera a sensação de prazer. Já a serotonina modula os estados de humor e é responsável justamente por gerar sensação de bem- estar. Em relação à frequência, um estudo com mais de um milhão de pessoas demonstrou que 45 minutos de exercícios físicos, realizados de três a cinco vezes por semana, já tendem a gerar ganhos, reduzindo estados mentais negativos.

A psicologia positiva é uma teoria que busca o estudo das vertentes da positividade com o intuito de tornar a vida das pessoas mais leve e equilibrada. Uma de suas técnicas é o autoconhecimento para mudança de comportamento e perspectiva. No momento em que a pessoa possui percepções mais atentas de si, torna-se capaz de identificar possíveis gatilhos que impactam no seu comportamento e, a partir daí, perceber que, algumas vezes, simples mudanças de hábito são suficientes para voltar a se sentir bem. Quando alguém identifica irritabilidade ao sentir fome, por exemplo, pode estabelecer uma rotina com horários definidos para refeições ou mesmo carregar consigo sempre um alimento saudável, que ajudará a evitar este mal estar. 

Diante de tudo o que foi dito, talvez você esteja se perguntando se há uma fórmula específica para a felicidade e já lhe adianto que a resposta é não – afinal, de um lado temos a felicidade que é uma sensação ímpar e subjetiva e do outro, temos o ser humano, que é complexo, se transforma constantemente e de forma paradoxal, e é, ao mesmo tempo, único e múltiplo. 

A busca pela felicidade é uma questão individual; são pessoais e intransferíveis estes instantes armazenados na sua gaveta, guarde-os com carinho e resgate-os sempre que sentir vontade ou saudade; fique tranquilo, o estoque de momentos felizes é ilimitado e só depende de você. A verdade é que, a despeito de quaisquer conquistas, nunca nos sentimos plenamente satisfeitos, mas é esta falta, esta busca contínua pela felicidade que nos mantém em movimento, vivos, sonhadores e desejantes. Enfim, não há uma receita, eis a tragédia e a beleza da vida.

Para marcar, então, o Dia Internacional da Felicidade – 20 de março, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), faço um convite à reflexão: Como será seu dia hoje? Está pronto para, mais uma vez, sentir-se feliz?

Juliana Góis
Juliana Góis
é Orientadora Educacional de Apoio à Aprendizagem no Colégio Rio Branco, psicóloga e psicopedagoga, especialista em Neuropsicologia e mestre em Neurociência. Atua na área clínica e educacional.

 

 

 

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