Consciência Negra: professores falam sobre a importância do ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas

Consciência Negra: professores falam sobre a importância do ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas

Representatividade e cumprimento da lei 10.639/03, luta antirracismo, vozes negras, políticas de igualdade e genocídio do povo negro estão entre os temas destacados pelos educadores.

Colégio Rio Branco

20 de novembro de 2020 | 13h50

Com mais de 300 anos de escravidão em sua biografia histórica, o Brasil é o país com a maior população negra fora da África, cuja etnia representa mais de 50% dos brasileiros. Apesar das importantes conquistas do povo negro, a partir de 1888, e principalmente nas últimas décadas, os efeitos colaterais como a desigualdade e o preconceito racial continuam sendo alguns dos problemas sociais mais latentes do país e a raiz para várias outras mazelas como a violência, o encarceramento em massa, o desemprego, a falta de oportunidades e de moradia.

O Dia da Consciência Negra, 20 de novembro – data que remete à morte de Zumbi dos Palmares, em 1695 – foi instituído como feriado em mais de mil cidades em todo o Brasil, e há alguns anos anos convida a sociedade para refletir sobre a importância de políticas públicas de inclusão, direitos e comportamentos que impactam toda a população. Outra iniciativa que veio para contribuir, principalmente na área da educação, é a Lei 10.639/2003 sancionada pelo Governo Federal, em janeiro de 2003 – que tornou obrigatório o ensino da História e da Cultura Africana e Afro-brasileira nas escolas de ensino Fundamental e Médio em todo o território nacional, nas redes públicas e privadas de ensino, como parte do currículo escolar.

No Colégio Rio Branco, a medida vem sendo contemplada em todas as séries dos ensinos Fundamental I, II e Médio, seguindo também a proposta da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), com a temática inserida em contexto de multidisciplinaridade. Temas como o racismo, a desigualdade e a intolerância racial também são trabalhados em disciplinas específicas como o Jovem em Perspectiva, o Cotidiano em Questão (CoQuest) e em coletivos formados por alunos e professores como o Humana Mente.

“A escola é um espaço muito rico, em que os indivíduos se constituem cidadãos. A valorização das diferentes culturas, do respeito e da tolerância se dá pelas experiências vividas no cotidiano, nas relações, nas reflexões e nos conflitos. Questões cruciais como o racismo, nas suas diversas formas, devem ser trazidas para dentro da escola para que possam gerar consciência e atitudes que venham ao encontro de um mundo mais justo e solidário”, explica Esther Carvalho, diretora-geral do Colégio Rio Branco.

Capa das agendas do Ensino Médio do Colégio Rio Branco (2020).

Como uma das instituições que integram o Programa de Escola Associadas da UNESCO (PEA), e em razão da Década Internacional de Afrodescendentes 2015-2024 da ONU, o Colégio Rio Branco além do currículo regular e das discussões que fazem parte do dia a dia, esse ano também homenageou a cultura africana e afro-brasileira com a temática nas agendas dos alunos da Educação Infantil ao Ensino Médio.

Para compartilhar experiências e contribuir com o Dia da Consciência Negra, professores das Unidades Higienópolis e Granja Vianna responderam perguntas sobre a importância da lei para o estudo da cultura e história afro, como aplicam esses conceitos no dia a dia e em sala de aula, suas expectativas, reflexões sobre a data, sonhos e personalidades negras que admiram. Confira:

Larissa Tainá Neves, professora regente polivalente e bilíngue na Educação Infantil, da Unidade Higienópolis.

Respeito desde a primeira infância
“Atualmente trabalho com crianças de cinco e seis anos de idade, e é essencial que desde a infância, a criança tenha essa visão e perspectiva de respeito entre as pessoas, independente da sua classe social, gênero ou cor. Sabemos que todos nós somos diferentes e tudo bem ser diferente, desde que haja respeito por essas diferenças. Eu aplico isso no meu dia a dia mostrando que é possível ser quem quisermos ser, quem sonhamos ser, mas o respeito deve ser prioridade em todos os lugares que estivermos e com todas as pessoas”.

Direitos e resgate histórico
A Lei 10.639/2003 é uma medida muito importante. Todo povo tem a sua história, o seu estilo de vida, sua cultura, seus valores e com o povo negro não é diferente. Os negros vieram para o Brasil em uma condição muito sofrida e injusta, mas nunca deixaram de lutar por seus direitos e reconhecimento como cidadãos dentro de uma sociedade. Hoje, os negros representam em média, 54% da população brasileira, trazendo consigo uma bagagem de defesa pelos seus direitos. É um povo, cuja história merece ser reconhecida e valorizada, por isso é essencial que toda essa história de luta, que ainda não acabou, seja estudada pelos nossos alunos, tanto na rede privada, como na rede pública de ensino. A história do negro no Brasil traz marcas importantes e características únicas de um povo ativo, mas que ainda sofre pela desigualdade”.

Mais que um dia
“O dia 20 de novembro simboliza a evidência de que a luta do povo negro precisa ser respeitada e valorizada, relembra que a luta contra o preconceito e a desigualdade não acabou e que dia após dia há pessoas nesse combate, na linha de frente, na busca pelo seu lugar justo na sociedade brasileira. Acho importante ressaltar, que o dia 20 de novembro não deve ser vivido e lembrado apenas no dia 20 de novembro, mas todos os dias. Essa data nos lembra que o negro continua nessa busca incessante pelo seu lugar, pelo seus direitos: de ir e vir, de estudar, os mesmos direitos que qualquer outra pessoa tem. Então, respeito, valorização, empatia, ajuda e conscientização devem estar presentes todos os dias. Por todos nós! ”.

Não há espaço para o preconceito
“O povo negro alcançou muitas conquistas ao longo da sua jornada no Brasil, a começar pela Lei Áurea, o direito ao voto, o direito ao trabalho, o direito de estudar, a inserção nas universidades públicas e privadas. Todas essas conquistas se dão mediante a uma perseverança e resiliência muito grande desse povo, que resistiu a diversos tipos de pressão e sabemos que o caminho a ser percorrido ainda é muito longo. Acredito que trabalhar, estudar é um direito de todos e que essa busca por melhorias é contínua. E se todos somos seres em busca de evolução como pessoas, não consigo ver espaço, não pode haver espaço para preconceito e diferenças. Não pode e não deve ter espaço para esse tipo de comportamento. É uma luta que está longe do fim, mas é uma conquista que está por vir. Pode demorar porque isso envolve o outro, conscientizar outras pessoas e não é um trabalho fácil, mas não é impossível. Então essa seria a minha principal observação: não desistir dessa luta porque será ganha! ”.

Referências negras
“Tenho duas referências de épocas diferentes e vou explicar o porquê: a primeira delas é um dos maiores expoentes da literatura brasileira, o escritor Machado de Assis (1939-1908) e a segunda é a jornalista Maria Júlia Coutinho, nascida em 1978. São pessoas negras e de épocas distintas, mas que tiveram, na minha opinião, um mesmo resultado final: certamente passaram por momentos de suas vidas frustrados pelo preconceito com relação às suas cores e em profissões diretamente ligadas ao público, tanto na literatura quanto no jornalismo. O preconceito é uma barreira que eles possivelmente encontraram em suas vidas profissionais, no entanto, isso não os impediu de chegar onde chegaram e terem o prestígio que têm. Essas duas pessoas enfrentaram os mesmos problemas sociais em épocas distantes, mas não deixaram de ir avante. São referência de perseverança e de que devemos fazer acontecer porque é possível! ”.

Samara Machado dos Reis, mestranda em Educação, graduada em Letras e professora de Redação e Língua Portuguesa do Colégio Rio Branco.


Quebra de estereótipo

“A lei é extremamente importante para que se consiga combater o estereótipo do escravo africano. Muitas vezes e ao longo de muitos anos, a história da população negra foi contada a partir desse estereótipo, quase que como se essa fosse uma condição própria do ser africano, então, a literatura negra-africana quando inserida no currículo escolar, tem o objetivo de resgatar a memória negra para além desse estereótipo e isso é bastante relevante, tanto para os alunos, que entram em contato com esse conteúdo, como para os professores, pois quando os educadores se veem obrigados a inserir esse conteúdo nos currículos também podem repensar suas práticas, a maneira de dar aula e o que deve ser transmitido. Educando o professor, educa-se o aluno, então é bastante relevante por essas questões”.

Na sala de aula
“Eu geralmente costumo trabalhar isso em Língua Portuguesa, de duas maneiras: ou pela literatura, trazendo autores negros, vozes negras e discutindo com os alunos esse tipo de livro ou em redação, a partir de propostas temáticas que permitam esse debate e as questões que envolvem a luta do povo negro: o racismo de forma geral, estrutural, temas como a intolerância religiosa que também perpassa a questão racial, colorismo, etc, então geralmente acontece em forma de redação ou pela leitura de autores negros.”

Resgate histórico
“Para mim, o Dia da Consciência Negra é, também, um dia resgate da memória de luta do povo negro. É para não nos esquecermos de uma dívida histórica de mais de 300 anos de escravidão no Brasil e para reforçarmos, resgatarmos e reavivarmos as demandas que ainda existem, justamente em razão dessa dívida. O Dia da Consciência Negra é um dia para rememorar a história. ”

Representatividade na política
“É difícil pensar em uma coisa só, mas eu provavelmente reforçaria a necessidade de políticas públicas para desigualdade de oportunidades, certamente colocaria alguma ênfase nesse ponto, acho importantíssimo também a representatividade dentro da política porque enquanto não tivermos mais negros e negras ocupando espaços políticos o resto não vem, depois reforçaria a necessidade de políticas que visem proteger as vidas negras, combater e reconhecer o genocídio da população negra. ”

Referência e voz contra o racismo
“Atualmente, uma grande referência para mim tem sido o Silvio Luiz de Almeida, um doutor em Direito que recentemente escreveu o livro “Racismo Estrutural”. Acho ele uma voz teórica bastante na luta contra o racismo, no Brasil. Na minha opinião, é de fato uma das maiores referências quando penso em luta antirracista”.

Maryana Gonçalves Eiras (Mary Eiras) 
Professora do Núcleo de Apoio de Biologia e Ciências, gestora do Grupo REAJA, da Unidade Granja Vianna.

Estudo da cultura afro-brasileira nas escolas
“A importância dessa medida nas escolas é justamente trazer o conhecimento para todas as classes e todas as faixas etárias. O conhecimento da nossa história, pensando na afro-descendência, é importante e válido para qualquer classe social e não somente na rede privada de ensino, como na pública. Quanto mais esses estudos e conteúdos forem inseridos, mais os jovens negros poderão se sentir representados como um exemplo a ser seguido e a população branca, que nem sempre tem tanto conhecimento, é capaz de entender um pouco mais sobre a importância e a valorização que esse grupo precisa ter. E quando falo em grupo, não é no sentido segregado, mas sobre algo que precisa ser do conhecimento comum de todos e que ainda falta muito para ser conquistado”

Mulheres negras na Ciência
“Quando em penso em ciência, acho que já tem uma interdisciplinaridade muito grande, mas quando citamos cientistas famosos é bastante comum conseguirmos mencionar Einstein, Darwin, pessoas que foram muito importantes, porém é muito válido mencionar mulheres e negras cientistas, e são várias, como a Luiza Barros, a Simone Maia Evaristo, que é bióloga e citotecnologista, atualmente a Jaqueline Goes de Jesus – que fez parte da equipe que conseguiu sequenciar o genoma do novo coronavírus, então essa representatividade quando pensamos em mulheres, negras, ou de toda a forma, pessoas negras que conseguem compartilhar, contribuir para nossa sociedade é muito válido e mostra, mais uma vez, que a ciência não uma coisa totalmente  seletiva, etilista e que todo mundo pode fazer. Procuro buscar sempre a representatividade, a partir daquilo que os meus alunos estão vendo, como uma professora negra, mas também trazer para eles, pessoas que conseguiram avançar e contribuir para a nossa sociedade”.

20/11: para colocar a mão na consciência
“Para muitos é somente um dia no calendário, que muitas vezes pessoas não conhecem ou não dão a devida importância, mas que apesar de ser somente um dia e a nossa luta ser diária é necessário para ter uma melhor consciência: colocar a mão na consciência mesmo, olhar ao nosso redor e ver o que estamos fazendo. A população negra tem avançado, conquistado cada vez mais o seu lugar em todos os espaços, em todas as áreas e isso permite com que nós tenhamos visibilidade, representatividade, então é um período em que sempre é mencionado um empoderamento e até mesmo o empoderamento feminino. É importante que tenhamos os olhos bem abertos para valorizar, além de tudo, todos os aspectos conceituais que aquela pessoa tem contribuído, mas também todos os aspectos que vão além da pigmentação da melanina na pele, e é o que dá essa cor única para cada um de nós”.

Expectativa: presente e futuro
 “A primeira coisa é justamente que o negro não seja e não se sinta mais menosprezado, que não fique abaixo de ninguém – não considerar que quem está abaixo é inferior e quem está acima é superior, a luta é para que a igualdade nos espaços. Chegará o tempo, eu acredito e espero, que não tenha mais uma discrepância tão grande sobre tom de pele, a estrutura e coloração do cabelo, o formato do nariz, que são as marcas que trazemos. A etnia negra tem diversas características exclusivas e lindas, mas a gente não pode colocar isso simplesmente como “eu sou e vou poder fazer isso” ou “eu sou e por isso mesmo não vou fazer”. Então o meu pedido, a minha observação é que justamente a gente possa olhar para os lados e observar que somos uma mistura, uma população única, estamos em um mundo onde todos estão enfrentando a mesma pandemia, o mesmo vírus, precisamos ser um pouco mais solidários, ter pensamentos mais igualitários e que consigam nos fazer seres humanos melhores”.

Referência: ancestralidade e família
“Existem diversas referências, se a gente parar para pensar temos Michelle Obama, Agnes Nunes, Taís Araújo, Rachel Maia, enfim, temos diversos representantes, sejam do esporte, da música, da ciência, escritores, atores, mas acho que uma referência negra, para mim, hoje, é o meu pai e a minha família – que é de onde vem toda a minha etnia e essa mistura, é ver de onde eles surgiram, o que conquistaram e onde estão, mas eu também aproveito para indicar a leitura dos livros da Djamila Ribeiro e da Luana Genót, que tratam diversos assuntos como o antirracismo, a igualdade, a ascensão no mercado de trabalho e em diversas áreas. Quando pensamos em referência negra, é preciso também se olhar no espelho e se identificar. Eu acho que isso também faz com que  nos tornemos mais fortes, mais unidos e com certeza isso nos fará conseguir atingir outros lugares”.

Lucas Martins Gomes Gonçalves, professor de Geografia do Ensino Médio, nas unidades Higienópolis e Granja Vianna.

História e matriz cultural
“O estudo da história da cultura afro-brasileira é extremamente importante porque a população brasileira tem a sua formação ligada aos povos africanos, que vieram para o Brasil por um processo de imigração forçada. O estudo da cultura afro permite uma valorização desses grupos que vieram da África e também são responsáveis pela formação da nossa cultura. Então eu vejo dessa forma, um reconhecimento da contribuição dos africanos, porque a nossa matriz cultural tem origem nesses povos: indígenas nativos, africanos e europeus”

Segregação espacial na Geografia
“Nas minhas aulas eu utilizo muito a Geografia para mostrar, através da segregação espacial, os reflexos que ainda temos em nossa sociedade por tudo o que aconteceu, então quando analisamos a questão de bairros na nossa cidade, nobres e periféricos, por exemplo, onde há uma maior concentração de negros. Porque que isso acontece? Isso nos leva a uma reflexão sobre os efeitos desse passado que ainda é sentido e têm consequências bastante perceptíveis. Esse é um ponto que eu gosto de mostrar para podermos perceber e analisar esse nosso histórico infeliz de escravidão”.

Conceito de raça
“É uma questão bem pessoal, mas acho que é um dia importante para fazer uma reflexão sobre o conceito de raça, porque existe uma raça que é a raça humana e do ponto de vista antropológico isso já é bem claro. Então esse dia, da Consciência Negra, cuja origem às vezes nem está ligada a isso, é um dia que eu tiro para fazer esse tipo de reflexão: existe uma raça e essa raça é humana, não deveríamos nos dividir. Essa é a maneira que eu percebo que contribui bastante para a minha luta contra qualquer tipo de racismo, questionar o conceito de raça como ele já foi aplicado”.

Políticas públicas de inclusão
“A política de cotas nas universidades, por exemplo, embora tenha ainda alguma polêmica, contribui bastante. Mas acho que é necessário momentaneamente, como uma medida de médio prazo para que com o tempo possamos ter de fato uma inserção social efetiva e que isso possa acabar, se tornar desnecessário, mas como uma intervenção momentânea foi muito importante”.

Referências negras: EUA-Brasil
“Uma das pessoas que sou mais fã na atualidade, e já é um senhor, é o Thomas Sowell, um economista norte-americano, um pensador, filósofo também, que tem uma visão muito interessante, influenciado por grandes nomes da economia. Escreveu livros muito bons que mostram questões ideológicas, questões sobre a própria discriminação e disparidade, mas em uma visão bastante diferente da que se tem ou geralmente é tratada nos meios acadêmicos, em relação a economia. Sowell é para mim, no momento, um dos maiores nomes da corrente liberal no mundo. Acho que é o maior pensador atual do liberalismo. Aqui no Brasil, eu não posso deixar de falar do Milton Santos, como uma grande personalidade, principalmente no campo da Geografia. Eu tenho vários nomes, mas vou ficar com esses dois”.

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