DePrôPraPais: leitura deve ser usada para auxiliar pais na abordagem de temas sensíveis e importantes junto às crianças

DePrôPraPais: leitura deve ser usada para auxiliar pais na abordagem de temas sensíveis e importantes junto às crianças

Diversidade, racismo, gênero e sexualidade estão entre os temas que a pedagoga e professora da educação infantil, Renata Cardinali, compartilha com pais e educadores em seus canais nas redes sociais.

Colégio Rio Branco

08 de julho de 2020 | 05h00

Imagem: reprodução.

Nesse momento de isolamento social e até de uma certa “sobrecarga digital”, em razão do prolongamento da quarentena, buscar experiências e aprendizados diversos nunca foi tão importante para manter o equilíbrio, promover o autoconhecimento e assimilar o turbilhão de informações.

Dentre os recursos disponíveis, os livros exercem um papel fundamental – seja no formato físico ou eBook, a leitura é capaz de proporcionar momentos únicos de lazer e de compreensão de si mesmo e do outro de maneira ampla, criativa e livre. Estimula o senso crítico e a formação de opinião, tão importantes em épocas de disseminação de fake news.

Recentemente, em uma entrevista ao jornal espanhol El País, o psicopedagogo italiano Francesco Tonnucci, mencionou a importância de aproveitar a quarentena para a leitura, pois talvez muitas famílias não tenham mais a oportunidade de passar tanto tempo juntas, como agora.

“Propor às crianças que leiam um livro deve ser um presente, não uma obrigação. Há outra maneira que é a leitura coletiva, de família. Criar um teatro que tem seu horário e seu lugar na casa, e um membro da família lê um livro como se fosse uma novela. Meia hora todos os dias. São propostas que parecem pouco escolares, mas todas têm a ver com as disciplinas escolares”, explicou Tonnucci, na ocasião.

Além do aspecto lúdico e como ferramenta fundamental para a formação cultural, a leitura também exerce um importante papel social. Em um mundo cada vez mais plural é comum que crianças e adolescentes confrontem os adultos com dúvidas sobre situações diversas que os cercam no dia a dia. Questões relacionadas à sexualidade, gênero, desigualdade, discriminação e preconceito, política, autoritarismo, saúde, entre tantos outros surgem por meio de notícias ou de vivências relacionadas ao seu próprio círculo social.

Segundo a pedagoga e professora bilíngue da Educação Infantil do Colégio Rio Branco, unidade Granja Vianna, Renata Cardinali do Nascimento, de acordo com a pirâmide de aprendizagem de William Glasser, 10% de tudo que aprendemos é por meio da leitura; 70% quando discutimos com os outros e 95% quando ensinamos. Isso nos mostra que aprendemos mais quando ensinamos e que, como família, precisamos nos colocar como eternos aprendizes- professores.

Para isso é importante que pais e responsáveis busquem respaldos variados e mostrem-se disponíveis para acolher e orientar as crianças em suas indagações e descobertas; sustentados por embasamentos teóricos científicos – confiáveis. Assim, a relação ensino-aprendizagem se dará mutuamente de forma significativa.

Com uma linguagem fácil e dinâmica, a professora Renata Cardinali também costuma dar dicas em seus canais online DePrôPraPais e de DePrôPraPrô no Youtube, Instagram e Facebook. Neles, a educadora compartilha orientações de leitura, comportamento, educação e atividades para pais, famílias e colegas da área da educação.

Renata Cardinali compartilha dicas de leitura e experiências, em seus canais nas redes sociais.

Pedagoga, formada em Letras, especialista em Gestão Escolar e Neurociência Aplicada à Educação, além de experiência que soma mais de uma década em sala de aula, Renata explica que frente às dificuldades e dúvidas apresentadas pelos pais no que tange o processo de educação e autoeducação, o canal DePrôPraPais foi criado para que juntos pudessem discutir, conhecer, entender e criar estratégias para lidar com as diferentes situações que permeiam o universo escolar e familiar.

“Ao estreitar relações entre família e escola, o educando experimenta um espaço seguro e assertivo. Quando estabelecemos um diálogo harmônico entre aqueles que são os responsáveis pela educação de uma criança, minimizamos nesse indivíduo as marcas negativas invisíveis aos olhos e, potencializamos a beleza da existência singular de cada um; assim como, possibilitamos aos adultos a oportunidade de ressignificar seus pensamentos e ações numa troca respeitosa e evolutiva”, explica.

No início de julho, por exemplo, em razão da celebração internacional do mês do orgulho LGBTQI+, a educadora compartilhou um vídeo e  livros indicados para abordar esse tema no universo infantojuvenil, e para que os pais também possam construir novos olhares junto aos filhos.

“Sugeri uma série de livros infantis que podem e devem ser usados junto às crianças para trabalhar a questão do preconceito, do gênero e da orientação sexual, de uma forma leve e sutil. Entendo que quando desejamos conscientemente e assertivamente ensinar algo, automaticamente buscamos referências válidas e variadas que servem de subsídio para o aprender para ensinar e, ensinar para aprender”, explica Renata.

Segundo a professora, que também tem lido e pesquisado sobre racismo, com base no Pequeno Manual Antirracista, da ativista negra e filósofa brasileira, Djamila Ribeiro; tanto a temática da diversidade sexual, quanto a racial são extremamente relevantes para serem trabalhados com os pais no atual momento. Para além das recentes manifestações contra a violência e o racismo estrutural que dominaram vários países ao redor do mundo, esse é um assunto necessário a ser discutido.

“Se você busca trazer o diferente diante desse cenário que estamos vivendo; se você busca politizar os seus filhos e também a si mesmo; se você busca tirar o véu da ignorância que cobre os nossos olhos, acredito que valha a pena buscar materiais, pessoas, vivências diversas para que seja possível transcender às nossas fragilidades com assertividade – ressignificando conceitos”, orienta Cardinali.

E completa “entendo que educar de forma positiva e consciente exige estudo, reflexão e práticas estratégicas, além de uma profunda disposição para se autoeducar”.

Confira alguns livros e obras infantojuvenis sobre esses temas, indicados pela educadora para as famílias:


Pequeno Manual Antirracista, Djamila Ribeiro

Onze lições breves para entender as origens do racismo e como combatê-lo. Neste manual, a filósofa e ativista Djamila Ribeiro trata de temas como atualidade do racismo, negritude, branquitude, violência racial, cultura, desejos e afetos. Em onze capítulos, a autora apresenta caminhos de reflexão sobre discriminações racistas estruturais e a responsabilidade pela transformação do estado das coisas.


Meu amigo Jim, Kitty Crowther
Jim é uma gaivota. Jack é um melro. Jim vive perto do mar. Jack mora no bosque. Jack adora ler. Jim usa folhas de livros para acender a lareira. Jack é negro. Jim é branco. Apesar das diferenças, os dois pássaros têm algo em comum: gostam de estar juntos. E, mesmo que outras gaivotas torçam o bico para isso, eles não perdem uma pena de preocupação. Afinal, por que é tão difícil aceitar a amizade deles? Por meio de uma história leve, em tons pastéis, Kitty Crowther trata com naturalidade e sensibilidade as diferenças, e introduz questões como o preconceito racial e o hábito da leitura.


Tal pai, tal filho? Georgina Martins
Um menino tem um pai muito severo, que lhe conta histórias de homens de sua terra, homens “cabras-machos” e valentes. Quando o menino decide que quer se tornar um bailarino, será preciso enfrentar o preconceito do pai.


Menina não entra, Telma Guimarães Castro Andrade
Um grupo decide formar um time de futebol e convidam vizinhos e parentes. Mesmo assim, ainda falta jogador. Surge a ideia de convidar uma menina. Uma menina no time? Nem pensar! – é o que a maioria acha. Mas logo os amigos mudam de opinião. Assim que veem Fernanda mostrar suas habilidades, percebem que estavam completamente equivocados e que o preconceito não leva a vitória alguma, dentro e fora de campo.


A história de Júlia e sua sombra de menino, Christian Bruel, Anne Galland, Anne Bozellec

Os pais de Júlia a criticam muito, sempre dizendo que ela se parece com um menino, no jeito, nas roupas etc. Numa manhã, a garota percebe que sua sombra adquire o formato de um garoto, repetindo todos os seus gestos. Júlia se sente triste e acaba questionando sua própria identidade.


Olivia não quer ser princesa, Ian Falconer

Disponível em Inglês e traduzido para o Português.
Ser princesa é a fantasia de todas as meninas. Todas? Não é bem assim. Que o diga a porquinha Olivia! Inquieta como sempre, e desta vez mais inconformada do que nunca, ela enfrenta uma crise de identidade infantil. Todas as suas amigas só querem saber de vestido cor-de-rosa e varinha de condão. Ela queria ser diferente. O “papo cabeça” de Olivia com os pais em meio à rotina da família é entremeado de cenas fantasiadas pela garotinha – tudo capturado pelo autor na forma de ilustrações.


Nó na garganta, Mirna Pinsky

Aos 10 anos, Tânia se muda com seus pais da cidade grande para uma nova oportunidade no litoral. No novo ambiente, a menina brinca e faz novos amigos, mas também sofre preconceito pela cor de sua pele. Assim, vai nascendo dentro dela uma consciência até então desconhecida, uma vontade de mostrar às pessoas sua verdadeira personalidade.


Ceci tem pipi? Thierry Lenain
No começo, era tudo muito simples para Max: havia o pessoal com-pipi e o pessoal sem-pipi. Os primeiros eram mais fortes e Max, que tinha pipi, estava muito contente. Azar das meninas. Um belo dia na escola, porém, uma garotinha chamada Ceci vai para a turma de Max. Como ela é uma sem-pipi, Max não dá muita bola: ela que vá brincar de boneca ou desenhar florzinhas, ele pensa. Mas aos poucos a menina vai deixando Max intrigado: Ceci desenha um mamute, joga bola e tem uma bicicleta de garoto. Será que Ceci é diferente? Max decide investigar. Ceci tem pipi? é uma história divertida sobre a descoberta das diferenças e semelhanças entre meninos e meninas, com ilustrações coloridas.

Meus dois pais, Walcyr Carrasco
O menino Naldo não fica muito surpreso quando seus pais resolvem se separar. Afinal, os dois vivem brigando. Mas, quando a mãe dele precisa mudar de cidade, o menino acha natural ir morar com o pai. Naldo só não consegue entender por que a mãe e a avó são contra…


Amor entre meninas, Shirley Souza
Na adolescência, surge uma série de dúvidas sobre sexo. Será que sou homossexual porque achei aquela menina bonita? Perguntas assim são feitas com frequência por garotas que estão em dúvida sobre sua sexualidade. O livro toca no assunto com uma abordagem leve e dinâmica, tirando dúvidas e desmistificando tabus que levam ao preconceito.


Do jeito que a gente é, Márcia Leite

As experiências de Chico, um adolescente que está tentando entender sua sexualidade, e de Beá, uma garota que detesta a própria aparência, põem em pauta assuntos importantes.


Olívia tem dois papais, Márcia Leite

Olívia é uma garota muito esperta e quer saber, por exemplo, como seu papai Raul sabe brincar de boneca e seu papai Luís cozinha tão bem. Quer saber também como vai aprender a usar maquiagem e sapatos de salto alto, se na casa dela não mora nenhuma mulher. A família da Olívia é um pouco diferente e totalmente “encantadora”, uma palavra que ela adora usar.

 

 

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