Como conversar sobre pandemia e morte com crianças pequenas

Como conversar sobre pandemia e morte com crianças pequenas

Colégio Rio Branco

24 de maio de 2021 | 16h10

Há mais de um ano, iniciamos uma difícil travessia. Afoitos e despreparados, remamos como podíamos naquele momento. Contudo, o passar do tempo, a criatividade e a resiliência permitiram que seguíssemos nossos caminhos – mesmo sem conseguirmos enxergar com clareza a outra margem com terra firme. Diante das dificuldades e com apoio da tecnologia, descobrimos novas formas de ser e fazer, de estudar, trabalhar e, até mesmo, de nos relacionar, o que tornou mais fácil parte desse trajeto com fim ainda indeterminado.

A nossa esperança oscila de acordo com o momento, se por um lado a vacina dada no dia 17 de janeiro deste ano nos emocionou, por outro sofremos com o impacto das turbulências que chegam em formas de ondas avassaladoras. E, nessa trágica maré, chegamos ao ponto de pensar em representações gráficas ao invés do ir e vir do mar quando ouvimos falar em onda.

Depois de um período muito maior do que prevíamos (ou desejávamos), continuamos a todo tempo preocupados com a nossa saúde e com a dos demais, respeitando protocolos e seguimos temerosos diante de um vírus que não se vê a olho nu, mas que sabemos que existe e cujas consequências oscilam entre extremos: desde sintomas que passam despercebidos até quadros letais. E, se para os adultos está difícil, não podemos deixar de nos atentar às nossas crianças.

Nesse contexto, pais, cuidadores e educadores se deparam com mais um desafio: como abordar o momento atual e as mudanças que podem ocorrer a qualquer instante? Qual é a melhor forma de falar sobre a pandemia com crianças?

Devemos considerar que estamos imersos em uma realidade atípica, que cada criança é única e terá o seu próprio jeito de se manifestar e lidar com o que está acontecendo. O essencial é reconhecermos que trata-se de uma situação nova e que, para sabermos sobre as emoções, faz-se necessária a abertura de um espaço para que essas possam emergir: seja por meio de brincadeiras, desenhos ou conversas – para isso é importante um tempo para estarem juntos.

Após tantos meses, mesmo que nada tenha sido dito diretamente, a criança já sabe que algo está acontecendo. Afinal, além de observar o entorno, ela está exposta à terminologias como pandemia, COVID-19 e coronavírus, porém, nem sempre possui discernimento para compreendê-las e nós, enquanto adultos, precisamos nos apropriar do conhecimento que ela já possui a fim de ponderarmos quais informações precisam ser dadas e a forma como isso pode ser feito.

As crianças pequenas entendem as informações de maneira concreta, sendo recomendado oferecer explicações objetivas, simples e acessíveis. Pode-se, por exemplo, dizer que existe um “bichinho” no ar que não conseguimos ver, mas que pode causar uma doença e para evitar devemos tomar alguns cuidados como usar máscara, lavar bem as mãos e manter o distanciamento; e que, após um tempo, essa fase vai passar. Vale lembrar que a criança precisa entender o motivo das medidas tomadas, não basta dizer o que deve ou não ser feito, é preciso esclarecer os porquês.

Uma estratégia simples que pode ser de grande valia é devolver a pergunta à própria criança: “O que você acha?”, “O que você já ouviu?”, “O que te falaram?”, “De onde você tirou essa dúvida?”. Devemos ouvir o que ela tem a dizer antes de falar; fazermos o exercício de escutar e, a partir da escuta, explicar. Este pequeno truque é capaz de fazer muita diferença, pois nos oferece um norte quanto à condução da conversa.

Ao interagir com a criança podemos esclarecer de forma simples o que sabemos; se não soubermos responder podemos descobrir juntos e, se for o caso, assumirmos que existem coisas sobre essa doença que ainda ninguém sabe. Diante deste cenário, quando o adulto escuta a criança, reconhece os seus sentimentos, é coerente e sincero na sua fala, a criança se sente acolhida e segura.

As crianças menores podem apresentar dificuldade para expressar com clareza o que estão sentindo. Algumas delas ainda não sabem nomear as próprias emoções, encontram-se em processo de aprender a identificá-las e podem depender de um adulto para significar aquilo que se chama tristeza ou ansiedade, por exemplo. Por vezes, essa dificuldade se traduz em somatizar o sofrimento e queixar-se de problemas físicos, como dor na barriga, aperto no peito – é mais fácil descrever sensações físicas do que nomear as de caráter emocional. Além disso, é do nosso conhecimento que o corpo também fala, sendo assim, é fundamental observarmos os sinais não verbais, como a expressão facial, a postura corporal etc.

Nós, adultos, também precisamos mediar o acesso das crianças às informações, evitando que elas sejam expostas aos noticiários, jornais e reportagens. Além disso, precisamos ser prudentes em relação à busca e a forma como lidamos com a avalanche de notícias, a fim de preservarmos a nossa saúde mental. Cabe aqui uma analogia à mensagem transmitida aos passageiros antes do avião decolar: “Em caso de despressurização, as máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Caso esteja acompanhado de alguém que necessite de sua ajuda, coloque sua máscara primeiro para, em seguida ,ajudá-lo.” Você já pensou no motivo desta orientação? A resposta é simples: se você não conseguir respirar, não conseguirá ajudar. A melhor forma de cuidarmos de uma criança é cuidando primeiramente de nós mesmos.

Por fim, apesar de falar sobre morte ainda ser um tabu para muitos, diante de uma pandemia que já atinge quase 450 mil mortos no Brasil, a perda de familiares, pessoas conhecidas, queridas ou próximas é sentida por todos nós – inclusive por nossas crianças. Torna-se assim, importante uma breve reflexão acerca de como podemos abordar esse tema.

A despeito de sabermos que a morte faz parte da vida, lidar com ela e abordá-la com uma criança costuma ser um momento delicado e que fomenta incontáveis auto questionamentos. Cabe dizermos que não há um único caminho e que aqueles que costumamos percorrer estão diretamente associados com aspectos culturais, valores pessoais ou experiências prévias.

O ideal é lidarmos com o assunto de maneira serena e natural. Como recurso para elaborar o luto podemos mostrar o ciclo de vida de uma planta, conversar, contar histórias, sugerir que ela escreva e/ou desenhe seus sentimentos e, principalmente, reforçar que, apesar das perdas, quem fica pode seguir em frente carregando consigo algo especial que quem partiu lhe deixou.

Alguns adultos optam por não falar sobre o assunto com a criança. Mas será que é possível escondê-lo? Nosso comportamento e nossas emoções falam mesmo quando a boca se cala. Lembram-se de quando citamos a comunicação não verbal? Ao agirmos desta forma, a criança precisará lidar com a fantasia e o desconhecido, sendo que o seu imaginário pode vir a ser pior do que a realidade.

Um outro caminho frequentemente percorrido é o uso de metáforas: “virou estrelinha”, “foi para uma viagem sem volta”, entre outras. Essa é uma estratégia para acalentar a dor da criança, porém, em geral, trata-se de uma forma mais confortável apenas para os adultos e muito nebulosa para as crianças, principalmente para as menores – com até os seis ou sete anos de idade. Isso porque, como dito anteriormente, nesta fase elas compreendem os fatos de forma concreta. Dessa forma, o uso de metáforas pode resultar em uma série de questionamentos cujas respostas não fazem sentido no mundo infantil ou em interrogações que ficam guardadas em silêncio.

Apesar da dificuldade em iniciar e conduzir conversas sobre este tema, mais uma vez, sinceridade, clareza, disponibilidade, carinho e acolhimento são atitudes que podem tornar o processo mais leve. Assim como quando abordamos as informações relacionadas à pandemia, não é preciso e nem recomendado oferecer detalhes e, sim, respondermos de forma simples aos questionamentos e, caso você não tenha o que dizer, é pertinente dividir com a criança que para aquela pergunta você também não tem uma resposta.

A verdade é que lidar com tristeza, dor, frustração e luto são vivências inevitáveis em todas as fases da vida e, se por um lado sabemos que morrer envolve muitas dúvidas, por outro, temos conosco a certeza de que alguns momentos ficam armazenados na nossa memória. Compartilhar as lembranças com nossas crianças pode ajudá-las e nos ajudar na ressignificação do luto. Os adultos são para elas, uma base que possibilita o crescimento, uma referência para que possam se espelhar e um porto seguro que as amparem sempre que for preciso.

Cientes de que estamos em meio a uma realidade inédita, registramos aqui a ressalva de que o ouvir e estar atento, o acolher e amparar, o acompanhar e o orientar, bem como o transmitir segurança sem negar a existência dos riscos e perigos, são princípios básicos e válidos para todos aqueles que lidam com crianças no dia a dia. Diante disso, torna-se perceptível e indiscutível o fato de que as necessidades impostas pela pandemia trouxeram consigo a oportunidade de pararmos por um instante a roda da vida, regarmos o que cultivamos nos nossos jardins, retomarmos princípios e valores, abrirmos novas portas e estreitarmos os laços com aqueles que dão sentido e beleza à nossa existência.

Juliana de Oliveira Góis – Orientadora pedagógica de apoio à aprendizagem do Colégio Rio Branco
Mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina de São Paulo. Graduada em Psicologia, com especialização em Psicopedagogia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atua profissionalmente na área clínica, com ênfase em Neuropsicologia e Terapia Cognitivo Comportamental. Tem experiência na área educacional e no trabalho com alunos com necessidades educativas especiais.

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