Com as palavras damos cor à vida: breve relato sobre as aulas de redação em tempos de quarentena

Com as palavras damos cor à vida: breve relato sobre as aulas de redação em tempos de quarentena

Por Elvio Fernandes Gonçalves Júnior

Colégio Rio Branco

06 de maio de 2020 | 14h16

Imagem: reprodução.

Vivemos tempos bem difíceis, que demandam muito de nós professores e alunos. Tempos em que, por necessidades maiores, devemos nos distanciar, na vida profissional, das salas de aula, dos alunos e colegas; na vida pessoal, de amigos, familiares, amores. Estranha essa época em que cuidar parece deixar de ser sinônimo de estar próximo, de estar ao lado, para ganhar outros significados, como afastar-se! E no entanto é necessário buscar meios de manter o contato, de fazer seguir a vida, de continuar trabalhando para transformar a nossa vida e a do outro, de levar o outro a refletir sobre o que ocorre nesse mundo que se transforma a partir de um infortúnio.

O começo desse texto é dramático, sim, mas para que contraste com a grande lição que venho recebendo dos alunos do sétimo ano do Ensino Fundamental. Como professor de português, redação e literatura, eu já devia ter em mente que o texto materializado é o lugar por excelência da expressão, o veículo pelo qual podemos nos compreender e levar o nosso interlocutor à compreensão, a forma que nos permite transmitir uma mensagem alentadora em momentos de crise. Porém, a vida por vezes nos leva a esquecer coisas tão óbvias, não é mesmo? De fato, vivemos tempos incertos e é necessário buscar forças e tirar inspiração de onde for possível. Assim, eu gostaria de trazer alguns exemplos das inspirações que recebo desses alunos incríveis.

Ao longo dessas semanas de quarentena, somos acometidos por diversas perguntas: como manter o interesse dos alunos? O trabalho nas turmas de redação, como em tantos outros componentes curriculares, exige estar ao lado, trabalhar em conjunto para concretizar o texto, trocar folhas de papel, caneta, lápis, borracha! Como lidar com a ausência de tudo isso? Como fazer com que participem, que trabalhem a partir de suas casas, que escrevam? Enfim, como dar a eles a certeza de que o trabalho não foi interrompido, apenas mudou de forma e não perdeu a essência? Para mim, dentre outras coisas, funciona manter as brincadeiras que se faziam em sala de aula, como inventar uma historinha mirabolante ao dar o exemplo de como formatar um texto a ser enviado:

Momento de descontração em aula a distância.

Brincadeiras à parte (tanto as minhas quanto a dos alunos – a história não era tão maravilhosa assim, creiam!), gostaria então de adentrar a questão central deste relato. Tomarei como exemplo alguns trechos de redações com as quais estivemos trabalhando até o momento. Neste primeiro ciclo, estudamos o conto do gênero fantástico, em que é possível criar mundos ideais em que há personagens com poderes, operar mudanças no tempo, no espaço e portanto, na própria vida. Diversos autores como Borges, Cortázar e Lygia Fagundes Telles trabalharam o fantástico em suas obras, muitas vezes questionando, contrariando uma realidade que julgavam quebrada, ausente de sonhos e repleta de problemas. 

A proposta de redação, formulada pela professora Giovanna Roggi, da unidade Higienópolis, pede que os alunos criem seus contos com base em um curta-metragem e um artigo que trata da importância das cores. No curta, um garoto é a única pessoa colorida de sua cidade e tenta fazer com que o mundo volte a ser colorido por meio de palavras gentis e gestos de solidariedade. Já o texto explica como as cores são capazes de mudar nossa percepção do tempo e da realidade. A partir disso, é incrível notar como, pelo poder da literatura, os alunos são capazes de se inspirar nesses textos para investigar, compreender e elaborar nossa atualidade. Em uma das redações, de título O Palidavírus, escrita pelo aluno Caio Garcia Pucci, ocorre um acidente após Fritz, um cientista, descuidar-se com os ingredientes de sua experiência. O que acontece? O mundo e as pessoas acabam empalidecendo:

Aquela substância se espalhou por toda a cidade de Farblos, contaminando seus cidadãos. Eles entraram em uma profunda tristeza e ficaram ainda mais pálidos. Médicos locais recomendavam evitar doces, contato físico, e que ficassem em isolamento.

A cidade de Farblos entra numa quarentena! A tristeza transmite-se pelo contato físico e, portanto, é necessário isolar-se. O neto do cientista decide então buscar meios de reverter a situação e, para acabar com aquela tristeza, oferece ao avô um “delicioso bolo de chocolate”. Com o gesto do menino, as cores daquele senhor retornam aos poucos, e assim ambos decidem transformar o laboratório numa chocolateria, que distribuiria doces por toda a cidade para combater esse vírus que empalidece as pessoas e a vida.

Outra narrativa, O Menino Colorido, do estudante Leonardo Gonçalves Panegassi, conta a história de um jovem que, ao perceber que possui poderes capazes de dar cores ao mundo,

(…)resolveu usá-los para dar cores e felicidade à sua cidadezinha. Começou a colocar seu plano em ação. Ao caminhar, tocava nas pessoas, animais, natureza, objetos e tudo ganhava cores, vida e  as pessoas voltavam aos poucos a sorrir e as crianças voltavam a brincar na rua.

Mesmo correndo risco de vida, o jovem decide tocar as pessoas, as coisas e os animais, pois é o contato físico que traz o calor de um sentimento solidário. Difícil não interpretar esse trecho como a manifestação de um desejo, de uma vontade de retorno à normalidade, quando podíamos cumprimentar amigos e parentes por meio de abraços e apertos de mão.

Por fim, gostaria de citar o conto Doença Esquisita, da aluna Larissa Carbone Abellan Rosa. Ele apresenta a história de um grupo de amigos que, ao voltar de viagem, percebe que a cidade padece de uma estranha enfermidade que faz com que as pessoas percam suas cores. Como são os únicos que, até o momento, não foram afetados, decidem pesquisar e buscar uma cura:

Depois de muitas noites estudando, eles acharam um um antigo livro da cidade que falava sobre uma coisa parecida a uma doença na qual as pessoas perdiam sua cor e ficavam tristes. Assim eles começaram a pesquisar a cura ou um jeito de ajudar aquelas pessoas. Depois de muitas pesquisa e muitas horas sentados na frente de pilhas de livros eles descobriram que o único jeito de salvar a sua cidade era com palavras gentis e bonitas. Mas eles tinham uma cidade inteira para curar. Como fariam isso sem se infectar? Bom, Maya teve uma ideia. Eles escreveriam bilhetes para as pessoas e passariam por baixo das portas.

Como transmitir uma mensagem de esperança, como encontrar pessoas para elogiá-las se corremos o risco de infecção, de adoecer e, consequentemente, adoecer o próximo? Primeiramente, pesquisar. Estudar muito. Confiar na ciência. Manter a distância e buscar meio de transmitir todo nosso afeto aos nossos de maneira segura, como um bilhete por baixo da porta, uma mensagem de WhatsApp, um e-mail, uma aula online. 

Essas redações, mais do que simples tarefas que valem nota, demonstram a extrema capacidade que temos, desde crianças, de utilizar nossa capacidade de contar histórias para interpretar a sociedade, o mundo e a vida. Manifestam a vontade e a esperança de curar um mundo que hoje passa por um de seus momentos mais difíceis. Seria demais dizer que, aos poucos, eles conseguem alcançar esse objetivo? Claro que não! Como professor, sinto que cada manhã minha é salva com toda essa criatividade, todo esse carinho e força que transmitem. 


Elvio Fernandes Gonçalves Júnior é professor do Núcleo de Apoio (Português e Redação) e dos sétimos anos do Ensino Fundamental do Colégio Rio Branco, na unidade Granja Vianna.

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