Aos que vierem depois de nós

Aos que vierem depois de nós

assessoriaimprensa

20 de maio de 2022 | 05h30

Tinham as mãos amarradas, ou algemadas, e ainda assim os dedos dançavam, voavam, desenhavam palavras. Os presos estavam encapuzados; mas inclinando-se conseguiam ver alguma coisa, alguma coisinha, por baixo. E embora fosse proibido falar, eles conversavam com as mãos. Pinio Ungerfeld me ensinou o alfabeto dos dedos, que aprendeu na prisão sem professor:

— Alguns tinham caligrafia ruim — me disse —. Outros tinham letra de artista.

A ditadura uruguaia queria que cada um fosse apenas um, que cada um fosse ninguém: nas cadeias e quartéis, e no país inteiro, a comunicação era delito.

Alguns presos passaram mais de dez anos enterrados em calabouços solitários do tamanho de um ataúde, sem escutar outras vozes além do ruído das grades ou dos passos das botas pelos corredores. Fernández Huidobro e Maurício Rosencof, condenados a essa solidão, salvaram-se porque conseguiram conversar, com batidinhas na parede. Assim contavam sonhos e lembranças, amores e desamores; discutiam, se abraçavam, brigavam; compartilhavam certezas e belezas e também dúvidas e culpas e perguntas que não têm resposta.

Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada.

GALEANO, Eduardo. Celebração da voz humana/2, do Livro dos Abraços.

 

Espero que esta os encontre bem e com saúde. Há tempos eu não escrevia uma carta. Talvez muitos que estão fazendo esta leitura nunca tenham recebido uma. Muito menos escrito de próprio punho. Garanto que é uma experiência fantástica! Escolher o papel, escrever páginas e páginas à mão como se estivesse conversando pessoalmente, colocar em um envelope, levar aos Correios, colocar o selo, enviar e aguardar a resposta por dias, semanas, às vezes até por um mês! 

A caligrafia como marca identitária dá pistas do estado emocional de quem escreve. Muitas vezes o desenho da letra no início das cartas anunciava o que viria pela frente: pressa, raiva, alegria, zelo. Pode ser difícil imaginar, mas já foi desse jeito e nem faz tanto tempo assim.

Essa era uma forma comum de nos comunicarmos nos anos 80 e 90. Ler as respostas das cartas era como ouvir as vozes ao vivo e, com outras e outras cartas, dava-se continuidade aos diálogos, às histórias e ao fortalecimento (ou rompimento) das relações sociais e afetivas. Saber esperar fazia parte. Conversar em silêncio também. Um autor escreveu que uma carta é “promessa de futuro”, e é a partir dessa ponte com o passado que quero falar sobre o futuro. 

É fato que a comunicação é uma necessidade humana, que a palavra emoldura essa experiência e que os meios para isso foram evoluindo com uma velocidade surpreendente, sobretudo no século XX, como se vê na linha do tempo composta por múltiplas linguagens produzida pela XYZA Comunicação e Pesquisa.

Com o avanço de diversas tecnologias, não necessariamente digitais, os textos passaram a ser mais curtos para economizar ou aproveitar melhor o tempo. Mas me pergunto: será mesmo que menos é mais? Tenho dúvidas.

Se a comunicação – em constante e rápida transformação – é uma necessidade humana, aprender também é. E como uma palavra puxa outra e um pensamento leva a outro, não pude deixar de pensar em professores e educadores com os quais tenho convivido e aprendido (tanto!!!) ao longo de 35 anos de magistério, e é inspirada e constituída por eles que escrevo esta pequena carta a outros educadores que virão depois de nós. 

Escolhi propositalmente uma comunicação sem pressa e com estilo retrô, mesmo que esteja sendo feita em suporte digital, para celebrar o dia do/a Pedagogo/a, afinal sabemos que aprender leva tempo, pois é necessário haver mudanças de comportamento que acontecem a partir das experiências pelas quais passamos. “A palavra Pedagogia tem origem grega, Paedagoguspaidós (criança) e agogos (condutor). Portanto, pedagogo significa condutor de crianças, quem ajuda a conduzir o ensino”. Como conduzir um processo de aprendizagem com pressa? Como ter pressa com a formação humana?  Um paradoxo do nosso tempo, eu sei.  E por fim, conduzir como e para onde?

E sobre “aquele que conduz o ensino”, tenho convicção de que um professor nunca está totalmente pronto, finalizado: quanto mais ensina, mais aprende, quanto mais aprende, mais e melhor ensina. Sem romantismo: a formação docente é um processo desafiador, repleto de acidentes de percurso, composto por estágios que podem (ou não) levar à transformação, requer investimentos de diversas naturezas e uma dose considerável de empenho, tolerância e resiliência. Vale lembrar, no entanto, que esse caminho foi uma escolha pessoal! E sobre as pessoas, é como diz sabiamente Riobaldo em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa: “O senhor… mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.”   

Para (e por) isso existem diferentes concepções de educação, teorias pedagógicas, abordagens curriculares e metodológicas, instituições de referência, autores consagrados e atemporais, e também os contemporâneos, que buscam inovar, produzir novas referências e ressignificar teorias clássicas conectando-as às necessidades do nosso tempo por meio de pesquisa científica, empirismo, incrementos tecnológicos, geralmente usando uma base epistemológica comum. É um privilégio ter acesso ao conhecimento produzido por educadores geniais e pesquisadores que estiveram à frente de seu tempo e nos deixaram seu legado. 

Portanto, valorizem sua formação e escolha profissional, e aproveitem: estudem, analisem criticamente, coloquem em prática (reflexão – ação – reflexão porque teoria sem prática vira ‘verbalismo’), compartilhem suas aprendizagens, acolham seus não-saberes com coragem e aprendam com humildade. É sempre possível, prazeroso e absolutamente necessário aprender mais e mais para reinventar a Escola.

Se a comunicação e a aprendizagem são necessidades humanas que nos conectam, conduzir pessoas é ter o poder e a responsabilidade de mudar realidades e transformar destinos. Tenham cuidado ao cruzar vidas e lembrem-se: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas, ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” (Carl Jung)

E voltando às preciosas palavras de Eduardo Galeano que inspiraram essa nossa conversa: realmente todos temos algo a dizer, mas é preciso, também e cada vez mais, aprender a ouvir, e a palavra, e o que ela representa, a ser celebrada hoje é Pedagogia. Parabéns a todas as pessoas que educam!

P.S.: Você que tem acesso à internet, já pensou em qual será o seu avatar no Metaverso?!? (a falta de acesso e de tantos outros recursos ficam para outra carta). Não à toa, a educação midiática e o papel das tecnologias no desenvolvimento das novas gerações fazem parte da Cultura Digital, quinta competência da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Temos muito a aprender, não é mesmo? Nos encontraremos por aí.

Com carinho,
Carol Sperandio 


Carolina Sperandio  é pedagoga, com pós-graduação em Linguística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e em Tendências Emergentes em Educação pela Tampere University of Applied Sciences (TAMK) da Finlândia. Pós-graduada em Educação: Metodologias, Tendências e Foco no Aluno pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Coordenadora Pedagógica do Colégio Rio Branco.

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