Alfabetização: preocupação das famílias e desafio na educação

Colégio Rio Branco

02 de outubro de 2019 | 17h06

Imagem ilustração.

Como alfabetizar crianças, e até adultos, ainda é um dos maiores desafios educacionais no Brasil. As melhores formas de ensinar a ler e escrever também estão entre os principais temas discutidos e estudados em todo o mundo e em diferentes modelos de ensino.

A UNESCO tem liderado esforços mundiais para alfabetização desde 1946. Seu projeto defende melhorar as habilidades de alfabetização ao longo da vida como parte intrínseca do direito à educação para todos.

Além do conceito convencional de habilidades de leitura, escrita e numeramento, atualmente, a alfabetização é compreendida como um meio de identificação, entendimento, interpretação, criação e comunicação em um mundo cada vez mais digital, mediado por textos, rico em informações e de rápidas mudanças.

No Brasil, o Plano Nacional de Educação (PNE), com vigência de 2014 até 2024, determina que todas as crianças sejam alfabetizadas até, no máximo, o final do 3º ano do Ensino Fundamental, por volta dos oito anos de idade.

No primeiro semestre de 2019, o Ministério da Educação (MEC) anunciou a Política Nacional de Alfabetização (PNA), e em agosto, divulgou uma cartilha com orientações, o que reascendeu o tema na imprensa, discussões sobre métodos entre educadores e dúvidas entre as famílias.

Com as crianças expostas a estímulos diversos desde muito cedo, os pais costumam ficar ansiosos para ver os filhos decifrarem as primeiras letras, ao mesmo tempo em que estão preocupados sobre quais as melhores formas de aprendizado, se devem interferir no processo de alfabetização, se podem ou devem estimular as crianças mais cedo em casa, o que é certo ou errado, entre outras dúvidas.

No artigo abaixo, a professora Joana D’Arque Gonçalves de Aguiar, coordenadora de Língua Portuguesa da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I do Colégio Rio Branco propõe uma reflexão sobre o tema, direcionada a pais e educadores.

Decifra-me ou te devoro*

Para adentrar o tão desejado mundo letrado, nossos pequenos aprendizes precisam decifrar o enigma das letras. Afinal, aprender a ler é entender todas as combinações do nosso alfabeto e isso não é algo simples. Além disso, não se pode dizer que alguém está alfabetizado, quando consegue ler palavras ou sílabas fora de contexto. Isso significa que ele ainda está em processo de desenvolvimento. Terá vencido essa etapa, tão importante da vida, quando tiver compreensão do que lê e escreve em situações diversas do cotidiano.

Sabemos que nenhum dos nossos destemidos aventureiros tenha tido qualquer tipo de final trágico; mais cedo ou mais tarde, todos conseguem decifrá-lo, quando adequadamente estimulados e, por fim, desfrutar dessa maravilhosa aventura.

Mas como se dá essa jornada? Que caminhos devem percorrer? Tudo começa muito cedo. Desde bebê, nossos pequenos ouvem histórias, lidas e contadas, observam toda espécie de texto escrito exposto ao seu redor. Essa exposição às letras leva as crianças a refletirem sobre o que veem e manipulam. Todo infante é um cientista que não para de testar hipóteses nos diferentes campos da vida e esse comportamento também acontece quando se trata da alfabetização.

Entendemos que esse processo se torna mais eficiente quando conjugamos a reflexão sobre o sistema de escrita e o letramento. Qual seria, então, o papel do adulto como facilitador desse processo? A criança deve ser exposta desde muito cedo aos textos escritos dos mais variados gêneros, bem como às diversas situações de escrita, já que ela observa como o adulto participa desse mundo de forma ativa, quantos problemas são resolvidos por ele utilizando essa linguagem, o quanto se diverte por meio dela. Com isso, logo ela percebe que o mundo da escrita é muito importante e desenvolve inevitavelmente o desejo de dominá-lo.

Mas como fazê-lo? O adulto deve estimular o interesse e a curiosidade da criança, expondo-a à linguagem escrita: lendo para ela, envolvendo-a nas mais variadas formas de expressão, pois é por meio do olhar dele que o aprendiz consegue criar suas primeiras hipóteses sobre o funcionamento dessa linguagem, experimentando modos de ler e de escrever. As manifestações dessas hipóteses não podem ser consideradas erros; são etapas do processo que vão sendo superadas, conforme sua compreensão sobre o sistema avança. Gradativamente ela vai abandonando essas crenças iniciais e criando outras, até superar todas.

É papel da escola estimular o contato com as mais diferentes formas de expressão escrita, com atividades lúdicas, prazerosas e significativas. É importante saber que não existe ensino de alfabetização; o que deve ser feito é provocar a criança com propostas, tentando ajudá-la a refletir sobre suas hipóteses a respeito do sistema.

Desde a Educação Infantil, propomos muitas atividades orais, com brincadeiras com trovinhas, parlendas, trava-línguas e outros textos da tradição oral. Nesse trabalho, a criança pode observar, por exemplo, rimas e sílabas que se repetem. Quando a criança tem contato com esses textos, ela pode comparar quais palavras rimam, quais são maiores, quais começam de forma parecida, fazendo com que ela se beneficie quando estiver comparando o oral com o escrito.

Vale ressaltar que a criança, nessa etapa da vida, deve ser muito estimulada, mas sempre de forma alegre e prazerosa, para que ela se desenvolva de forma segura. Deve-se, também, ter calma, pois todos conseguem. Com boa estimulação, certamente, ninguém será devorado.

Por Joana D’Arque Gonçalves de Aguiar*
Coordenadora de Língua Portuguesa da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I

Informações adicionais: UNESCO

 

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