Adolescer na quarentena: mais um desafio na travessia

Adolescer na quarentena: mais um desafio na travessia

Por Juliana de Oliveira Góis

Colégio Rio Branco

17 de agosto de 2020 | 11h40

Imagem: ilustração (iStock)

Diante da propagação do novo coronavírus, foi imposta uma nova realidade a todos nós. Em um contexto de distanciamento social prolongado, destacamos a importância de se olhar para um grupo para o qual a convivência com os pares é tida como prioridade: a adolescência.

Em um estudo de revisão publicado em junho de 2020, no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, cujo objetivo foi avaliar o impacto do isolamento social na saúde mental de crianças e adolescentes, Maria Elizabeth Loades et al. concluíram que os mais jovens são provavelmente mais propensos a apresentar aumento dos sintomas de ansiedade e depressão durante e após o término do isolamento social.

Esse cenário nos mobiliza a uma visita às particularidades desta fase de transição da infância para a vida adulta e uma reflexão acerca do que pode ser feito a fim de minimizar os impactos de uma pandemia na saúde mental dos adolescentes.

Na infância, o brincar permite ensaios de papéis do mundo adulto e, através da fantasia, é possível tornar-se tudo: mãe, sorveteiro, policial ou mesmo ladrão. Quando a criança diz “quando eu for grande eu vou ser…”, tais reticências contemplam infinitas possibilidades, além da sensação de que basta “ser grande” para os sonhos tornarem-se realidade. Contudo, a entrada na adolescência anuncia que a vida não é tão simples, os ensaios tornam-se atos, chega a estreia.

Muitas das ditas “primeiras vezes” acontecem nesse período: o primeiro beijo, o primeiro “fora”, a primeira viagem com amigos, dentre tantas outras… Para os pais, o resgate de suas próprias lembranças desta fase pode ajudar a compreendê-la e, num exercício de empatia, é válida a tentativa de olhar para o mundo sob outro prisma.

Quem disse que é fácil estar inserido em um grupo, ser bom aluno, amar e se fazer amado e ainda saber como responder à clássica pergunta “qual profissão pretende seguir”? Para completar, temos as mudanças hormonais e físicas que se apresentam nas formas, nos pelos e, no caso dos meninos, até mesmo na voz. Situações corriqueiras como uma espinha que nasça no dia de uma festa podem ser vivenciadas como a sensação de um vulcão em erupção no dia mais importante da vida. Sim, por vezes é com essa intensidade que alguns instantes são experimentados (lembrem-se de que estamos na estreia).

Momentos de transição precisam ser levados a sério, trata-se de um período nebuloso para o adolescente e também para os seus pais. No caminho, nem sempre é possível ver a outra margem do rio e podem surgir sentimentos de insegurança e medo. Se por um lado não há receita e muito menos uma única possibilidade de agir no que diz respeito à forma de criar filhos, por outro, certamente o diálogo é um ingrediente essencial.

A escola reconhece a importância destes períodos de transição e se propõe a oferecer suporte aos alunos e famílias no âmbito educacional. O Colégio Rio Branco realiza uma série de ações planejadas e promovidas antes das trocas de segmentos, a fim de prepará-los para a etapa que está por vir – “momento este de abordar as mudanças comportamentais, sejam elas em virtude da faixa etária ou mesmo pelo despertar das curiosidades pela mudança”, destaca a orientadora educacional Ana Cláudia Crivellaro.

No ano anterior, durante uma roda de conversa acerca das descobertas, conflitos e emoções no processo do adolescer durante “Festival do Livro em Família”, alunos do 5° e 6° anos acompanhados pelos seus pais conversaram com a escritora Keka Reis¹ e com o Eduardo Ottolia, psicanalista que trouxe à tona a discussão do adolescer como um processo que se dá no campo psíquico: “o que vai marcar a adolescência, é a ideia de experimentação pelo encontro inesperado com o desconhecido visando descobrir o mundo”.

O percurso é sinuoso, repleto de conflitos e contradições: para algumas situações o adolescente pode se mostrar autônomo e responsável e, para outras, inseguro e impulsivo. A partir das neurociências sabemos que o cérebro se desenvolve de trás para frente, do sótão para a fachada. A onda maturacional vai aos poucos subindo rumo às áreas relacionadas ao planejamento, controle inibitório e tomada de decisões — região denominada córtex pré-frontal. Contudo, se dá de forma progressiva, o que pode — em parte — explicar a manifestação de reações mais intempestivas e impulsivas nesta etapa da vida.

De toda forma, a conversa possibilita que, a despeito dos aspectos de desenvolvimento cognitivo e emocional, pais e filhos caminhem lado a lado. Trata-se de trocar, compartilhar as próprias experiências, medos, sonhos e caminhos — sem idealizações, os pais devem ter em mente que sua adolescência não foi melhor e nem pior, foi apenas diferente. Toda conversa é permeada pelo momento de falar e também de escutar, exige tempo, demonstra afeto e mostra o quanto a vida daquela pessoa é importante para quem a está ouvindo.

Ainda assim, há de se lidar com alguns vazios. Na adolescência, surge o desejo da privacidade e, atualmente, existe ainda um mundo virtual que não foi vivenciado pela geração dos pais, pelo menos não da forma como acontece nos dias de hoje. Nesse sentido emerge a palavra confiança. Procurar saber o que assiste, como interage nas redes sociais, orientar em relação ao cuidado quanto ao conteúdo de suas postagens, assim como saber onde vai e como volta de um lugar, tudo isso é importar-se e todas estas informações podem ser comunicadas através do diálogo. É importante acreditar nos valores que foram transmitidos na infância, o adolescente não nasceu com doze ou treze anos, tudo começou lá atrás e, como na construção de uma casa, os alicerces são fundamentais.

A pandemia gerou desafios sem precedentes nos mais diversos contextos. É verdade que temos que lidar com incertezas, mas está em nossas mãos focar naquilo que podemos controlar ou nas coisas que não estão ao nosso alcance. Sugiro a primeira opção – em uma perspectiva cognitivo comportamental, Aaron Beck afirma que “as crenças que temos sobre nós mesmos, sobre o mundo e sobre o futuro, determinam o modo como sentimos: o que e como as pessoas pensam afeta profundamente o seu bem-estar emocional”. O distanciamento social não é sinônimo de distanciamento afetivo e a tecnologia tem se mostrado um valioso recurso de aproximação.

Seja em uma proposta presencial, remota ou híbrida, o Colégio Rio Branco segue buscando encontrar possibilidades e novas formas para acolher os adolescentes. Diversas atividades, em diferentes modalidades, são oportunidades de troca e convivência que se transformaram mas permaneceram. A Orientação Educacional busca, nos diferentes contextos, estar próxima das famílias e alunos. Semanalmente, os adolescentes contam com um horário previamente estabelecido para discussão de estratégias que podem auxiliar no dia a dia escolar, bem como para compartilhar questões específicas secundárias ao adolescer em um tempo tão atípico.

Para finalizar, reforçamos a importância do diálogo com o registro de uma fala da psicanalista Julieta Jerusalinsky que em uma palestra brincou com o termo “conversa fiada”. Segundo ela, de fato, fiamos em uma conversa. Nesse sentido, esperamos que os adolescentes possam encontrar maneiras de continuar a fiar com seus pares durante o período de distanciamento social e que pais e filhos possam aproveitar esta oportunidade de mais tempo juntos para tecerem lindos tecidos.

¹ autora da série de livros “O dia em que minha vida mudou”


Juliana de Oliveira Góis, psicóloga e orientadora educacional de apoio à aprendizagem do Colégio Rio Branco.

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