Acessibilidade: os desafios da educação para surdos durante a quarentena

Acessibilidade: os desafios da educação para surdos durante a quarentena

Por Rubens Gomes

Colégio Rio Branco

30 de abril de 2020 | 12h24

A atuação do profissional intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras) requer um conjunto de habilidades e competências que viabiliza a acessibilidade ao público surdo, nos mais diversos campos sociais. A área da educação é onde a maioria desses profissionais atuam, interpretando em colégios e universidades. A parceria dos intérpretes de Libras com os professores é um fator imprescindível para a boa condução deste trabalho e para que os resultados sejam alcançados, uma vez que pressupõe-se que esses profissionais atuam em plena sinergia.

O trabalho do intérprete educacional, geralmente ocorre presencialmente nas instituições em que os surdos estão matriculados. A interpretação em Libras por videoconferência não é novidade, mas na área da educação, até pouco tempo atrás, não era uma atividade comum.

As centrais de intérpretes de Libras são canais virtuais que oferecem serviços de tradução e interpretação em língua de sinais e que tem por objetivo romper barreiras de comunicação enfrentadas pela comunidade surda em atividades do cotidiano, como por exemplo, conversar com o médico, solicitar orientação jurídica ou até mesmo para pedir uma pizza. Esses serviços são financiados por órgãos públicos ou por instituições privadas.

Atualmente, o mundo tem enfrentado vários desafios em virtude da pandemia ocasionada pela Covid-19, o que mudou drasticamente a rotina de milhões de pessoas. Muitas atividades que eram desenvolvidas presencialmente, precisaram se adaptar ao movimento de isolamento social e passaram a ser desenvolvidas remotamente, na modalidade home office, dentre essas, as atividades escolares. Nesse contexto, até mesmo os colégios que já possuíam experiência em lidar com ambientes virtuais precisaram encarar o desafio de disponibilizar suas aulas virtualmente.

O Colégio Rio Branco é uma instituição que por muito anos tem investido na educação de excelência, e em tempos de pandemia, essa preocupação não deixou de ser uma realidade. Todos os educadores continuam oferecendo sua contribuição para uma sociedade mais justa, crítica e consciente, ideais que não foram minimizados nas aulas a distância.

Um dos grandes diferenciais do Colégio Rio Branco é o trabalho de inclusão oferecido aos alunos com necessidades educacionais especiais (NEE) e aos surdos. Estes últimos, necessitam da atuação do intérprete de língua de sinais para que as aulas sejam acessíveis. A inclusão no Colégio Rio Branco começou em 2005, e desde então, muitos surdos oriundos do Centro de Educação para Surdos Rio Branco (escola especializada para surdos, mantida pela Fundação de Rotarianos de São Paulo) se formaram no colégio. Este trabalho conta atualmente com oito intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras), distribuídos da seguinte forma: dois intérpretes para acompanhar as atividades extracurriculares e as atividades desenvolvidas por professores especialistas junto à Educação Infantil e Ensino Fundamental I; quatro intérpretes atuando no Ensino Fundamental II; dois intérpretes atuando no Ensino Médio e um intérprete atuando no contraturno das aulas, interpretando os plantões de dúvidas.

Alinhado às ações praticadas em âmbito internacional e fiel aos seus preceitos de oferecer a acessibilidade aos alunos surdos, o colégio se reorganizou para continuar garantindo que nenhum aluno fosse prejudicado pedagogicamente. Diariamente, os intérpretes de Libras acessam as salas de aulas virtuais disponibilizadas aos alunos pelo Google Meet e interpretam os conteúdos de todas as disciplinas. Para os intérpretes e alunos surdos que não possuíam equipamentos adequados para as videochamadas, a instituição emprestou chromebooks e ofereceu momentos de formação para a utilização das ferramentas virtuais.

Em tempos de home office, posso dizer, como intérprete de língua de sinais, que os desafios na interpretação de aulas virtuais são muitos, como por exemplo, ter de lidar com problemas técnicos relacionados à instabilidade na conexão de algum dos participantes envolvidos e se certificar a todo o momento se os alunos surdos estão acompanhando a interpretação das aulas. Por outro lado, essa modalidade de trabalho é uma extensão do trabalho que desenvolvemos diariamente em sala de aula, nesse sentido, temos excelentes oportunidades de ampliar as possibilidades que esse trabalho nos oferece. Podemos explorar a nossa atuação frente às câmeras, ver a nossa própria interpretação e se colocar no lugar do aluno surdo que recebe essas informações e repensar práticas tradutórias e interpretativas. Este trabalho requer disciplina, pontualidade, compromisso e dedicação.

Dessa forma, podemos concluir que mesmo diante das adversidades que nos sobrevém, as instituições escolares precisam estar preparadas e conectadas com as possibilidades tecnológicas existentes para minimizar os impactos causados por um vírus de propagação internacional como esse que tem mudado a rotina das pessoas e exigido ressignificação em suas atividades.

Rubens Gomes é tradutor intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e Língua Portuguesa, no Centro de Educação para Surdos Rio Branco (CES) e no Colégio Rio Branco, Unidade Granja Vianna. Mestre em História das Ciências e da Matemática com foco na formação de professores que atuam com Educação Inclusiva, pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Pedagogo com especialização em Psicopedagogia.

 

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