A escola no aquário

A escola no aquário

Por Carolina Sperandio Costa da Silva e Renato Júdice de Andrade

Colégio Rio Branco

11 de setembro de 2020 | 10h07

Imagem: ilustração.

“Há tempo para todas as coisas.” Essa frase bíblica é quase paradoxal quando aplicada em alguns contextos, já que, via de regra, ele geralmente nos falta. 

Agora que fomos abruptamente parados por algo invisível a olho nu, certas coisas também antes invisíveis, passaram a tomar forma. Na prática, temos a oportunidade de enxergar o que não se podia ver até então, porque o desperdício de tempo com os deslocamentos principalmente em megalópoles como São Paulo, por exemplo, fazia parte da rotina com a qual nos habituamos. 

Sem a pretensão de contrariar nenhuma Lei Física, temos a percepção de que o tempo passou a ter um novo referencial e estamos diante da possibilidade de enxergar o que não se podia ver até então, porque a pressa era a nossa permanente condição. 

Quando falta tempo, falta também paciência. E este é um dom necessário para quase tudo na vida.

Os praticantes da aquariofilia, comumente chamada de aquarismo, costumam afirmar que ‘o que acontece rápido só pode ser coisa ruim’. Há controvérsias, mas vamos tentar entender o porquê dessa crença. 

É preciso fazer a manutenção dos parâmetros da água para equilibrar o pH, controlar a salinidade, a quantidade de amônia, nitrito e nitrato, além da própria temperatura que também não pode variar bruscamente. Depois há o tempo para que os corais e plantas se acostumem ao ambiente e desempenhem sua função. É preciso também regular a iluminação, pois um aquário só terá sucesso se conseguir reproduzir com fidelidade o ambiente real em que aqueles seres vivos escolhidos habitam na natureza. Dependendo do tamanho do aquário, esse período inicial pode durar semanas. Só então, deve-se colocar os peixes. São fases necessárias para que a vida aconteça em harmonia em um ambiente alterado.

Mas não se engane, a chegada dos peixes à casa nova não é o fim, ao contrário, é o início de tudo! Todas aquelas manutenções, e mais algumas dependendo da complexidade do aquário, passam a virar rotina. Assim como a limpeza de filtros, do vidro, trocas parciais de água, etc.  

Apesar de todos esses cuidados ainda há a ameaça real do íctio, a doença mais comum e uma das mais letais causada por um protozoário que se instala e devasta o corpo do peixe. Livre desta ameaça, é preciso continuar controlando o ambiente e cuidar também da alimentação. Os alimentos liofilizados são uma alternativa às artêmias ou krill, no caso dos peixes de água salgada: os mais difíceis de cuidar. São inúmeras as combinações possíveis a depender do ambiente e das espécies que conviverão juntas.

Nada é rápido ou simples e tudo tem um porquê. A possibilidade de contemplar e acompanhar pacientemente as relações de causa e efeito em um aquário mostram que qualquer processo leva tempo. Tentar incomodar as leis físicas e acelerar o tempo, pode significar a perda do aquário. 

Assim é a Educação!

Ilustração. iStock.

Cada etapa tem seu tempo e processos próprios que exigem conhecimento, desenvolvimento de diversas competências, manutenção, reflexão e também paciência. Isso se aplica ao indivíduo, mas também aos grandes sistemas educacionais. Não é à toa que as empresas mais valiosas da atualidade investem cada vez mais na produção de tecnologias que lhes permitam a personalização das entregas, de certa forma, reconhecendo as individualidades e as necessidades temporais distintas, infelizmente, esquecidas por projetos homogeneizadores de ensino.

É preciso observar, experimentar, regular e intervir com intencionalidade pedagógica, para que se possa encontrar o equilíbrio e o estímulo necessários para levar um ser ‘a vir a ser’, desenvolvendo-se a partir de suas particularidades e potencialidades. 

Isso é particularmente verdade quando se deseja inovar, verbo tão conjugado nas escolas hoje em dia. Vale repetir: inovar exige intencionalidade! Não acontecerá ao acaso, e mais, existem técnicas e conhecimento acumulado mostrando que caminhos seguir. 

Uma inovação educacional é como montar um aquário novo, não vai ficar pronto do dia para a noite. E quando for implantada de fato, não será o fim, mas o começo, assim como o aquário que quando fica apto para receber os peixes, marca o início de uma longa jornada de rotina, disciplina e cuidados.

O ano atípico de 2020 nos fez enxergar invisíveis. Assim como a amônia, o nitrito e o nitrato passam despercebidos aos nossos olhos, mas sua toxicidade podem exterminar todos os peixes de um aquário, na escola não é diferente. A tecnologia aplicada está e estará cada vez mais presente, mas não podemos abrir mão do contato amigo, do relacionamento próximo, do olho no olho. Somos seres sociáveis e essa proximidade nos faz falta. 

Também ficou nítido neste ano pandêmico que a passividade sufocante de algumas aulas presenciais é igualmente letal no ambiente virtual, mesmo para os sujeitos da Geração Z e Alpha, público das escolas atuais, tão ávidos por tecnologia. Isso é, de certa forma, simples de explicar, ainda que difícil de ser internalizado pela maioria das escolas. Nossas crianças e jovens não necessariamente gostam de tecnologia, eles são atraídos é pelo protagonismo que a tecnologia proporciona. Da mesma forma que é mais comum rostinhos felizes e interessados em escolas que conjugam mais o verbo aprender do que o ensinar.

Por fim, é prazeroso contemplar por horas o movimento da vida em um aquário sabendo de tudo o que foi necessário para estabilizar aquele ambiente. Da mesma forma, é prazeroso e uma enorme responsabilidade educar e fazer parte do processo de desenvolvimento e de transformação de outro ser humano considerando toda a sua complexidade.

A partir de agora, quando você ouvir a conhecida piada perguntando ‘o que o peixe faz?’, antes de responder ‘nada’, é melhor pensar com mais calma a partir da ambiguidade usada como um recurso estilístico no contexto deste texto.

Carolina Sperandio Costa da Silva
Coordenadora pedagógica do Colégio Rio Branco – Unidade Granja Vianna. Pedagoga e psicopedagoga com pós-graduação em Linguística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em Tendências Emergentes em Educação pela Tampere University of Applied Sciences (TAMK) da Finlândia e pós-graduação em Educação: Metodologias, Tendências e Foco no Aluno pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Nas horas livres, gosta de escrever sobre educação inspirada em coisas simples da vida.

Renato Júdice de Andrade
Diretor do Colégio Rio Branco – Unidade Higienópolis. Doutor e mestre em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na linha pesquisa em Políticas Públicas. Graduado em Física pela mesma instituição, seu tema de pesquisa no doutorado foram as avaliações educacionais em larga escala, em especial, o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica). É sócio-diretor da empresa Quali-E Consultoria Educacional. Foi diretor financeiro da ABAVE (Associação Brasileira de Avaliação Educacional) na gestão 2012-2013. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Política Educacional, atuando principalmente nos seguintes temas: políticas públicas, avaliação de desempenho de alunos, avaliação institucional, consultoria para elaboração de indicadores de qualidade educacional, avaliação de impacto de projetos, utilização da TRI (Teoria de Resposta ao Item) e estudos sobre efeito escola.

 

 

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