A autoimagem do adolescente na internet

A autoimagem do adolescente na internet

Por Alana Grimaldi Desbrousses Monteiro e Denise Barros da Silva*

Colégio Rio Branco

19 Dezembro 2018 | 19h15

Imagem/Ilustração

Os discursos na internet são marcados, primordialmente, pela volumosa intensidade da interação, o grande alcance e a ilimitada duração dos discursos, a quebra da intrincada divisão entre o público e o privado, a instalação do sujeito em um local de poder e sabedoria, o anonimato e o complexo das modalidades falada e escrita. Essas características nem sempre são percebidas pelos internautas e, quando o assunto é rede social, há pouca reflexão sobre quem é realmente a pessoa por trás de cada perfil.

Os adolescentes, em sua maioria, utilizam pelo menos uma rede social todos os dias. Foi pensando nessa relação tão próxima entre os alunos e as redes sociais e comparando com as características que a internet apresenta que decidimos fazer um trabalho que levasse os alunos a elaborar uma análise da imagem que os colegas de classe passam por meio de seus perfis online. A análise do outro levaria em algum nível a uma análise de si mesmo.

A ideia para o trabalho estava conectada com os assuntos que os alunos estavam discutindo nas aulas do “Jovem em Perspectiva”, um novo componente curricular, incluído em 2018 na grade do 8º ano do Ensino Fundamental. Essa nova disciplina é separada em um bloco multidisciplinar que busca discutir questões ligadas ao adolescente e ao seu processo de desenvolvimento biológico, psicológico e social. O trabalho foi desenvolvido no período de duas semanas e foram utilizadas quatro aulas para análises em dupla.

As disciplinas envolvidas – Jovem em Perspectiva, Redação, Espanhol e Artes – trabalham seus conteúdos em conjunto com temas de cada bimestre, que são analisados e discutidos com os alunos sob ângulos diferentes. No bimestre em questão, o tema a ser trabalhado foi: Autoimagem, o poder da publicidade e a relação dessa faixa etária com o consumo.

Antes de iniciarmos o trabalho, discutimos um texto sobre a relação do adolescente com as redes sociais e a influência destas na vida daqueles. Após a discussão, eles assistiram a um vídeo em que homens leem tweets sexistas e violentos que foram postados para mulheres jornalistas que cobrem os esportes. Esse vídeo mostra a diferença entre postar algo na internet e dizer isso perante a pessoa. A intensidade do discurso postado parece ser menor, mas ele é tão agressivo quanto o discurso feito presencialmente. A internet tem especificidades que podem tornar os discursos mais intensos e mais extensos.

O acesso massivo à internet tem proporcionado o aparecimento de indivíduos que acreditam poder falar, ou escrever, qualquer coisa e de qualquer jeito com quem quer que seja, valendo-se do espaço virtual para disseminar discursos intolerantes, sem se preocupar com o respeito ao próximo. Identificar as características desse espaço virtual e analisar como ele influencia a vida real requer um trabalho intenso de interpretação de texto, pois interpretar textos também é interpretar a vida. Esse trabalho foi um pequeno esforço de levar os alunos a se analisarem e perceberem que o que é postado em ambiente virtual tem relação direta com a imagem que construímos na vida real.

Para realizar o trabalho de interpretação tivemos acesso a computadores e tablets, reunimos os alunos que, em dupla, stalkearam o perfil do colega, para posteriormente dar um parecer sobre a imagem que esse colega tem na rede social. Eles puderam escolher a rede social a ser analisada, e a maioria analisou o Instagram. Alguns não tinham rede social e, além de analisar o porquê, o colega poderia ajudar o parceiro a abrir um perfil, caso ele quisesse. O trabalho gerou o interesse de todos os estudantes.

Também verificamos a presença de um indivíduo que possui rede social, embora não a utilize da maneira para qual ela foi criada, ou seja, “a possibilidade dos internautas se comunicarem através de sistemas de relacionamento, usando ferramentas como chats, trocas de arquivos, fotos, vídeos”, como cita Luis Nassif em um de seus textos para a revista Carta Capital. Esse aluno apenas faz um perfil no qual não posta absolutamente nada, é um perfil verdadeiro, que não cumpre o seu papel principal, mas que permite a esse indivíduo ter acesso ao conteúdo postado por outras pessoas.

Não obstante tenham sido poucos os estudantes que se manifestaram dessa maneira, pedimos que, durante o trabalho, deixassem claro o seu posicionamento diante da sua imagem para o mundo, da imagem que formam a partir das redes sociais nas quais possuem esse tipo de perfil e do que os leva a serem “olheiros” das redes sociais. O processo ficava cada vez mais interessante, pois os alunos se envolveram e repensaram a função das redes sociais e seu papel nelas, o que e como interagem com o mundo a partir do mundo virtual. Foi possível fazê-los enxergar que há indivíduos por trás das telas de um computador, que uma foto pode representar um momento e que, principalmente, há indivíduos envolvidos em todas as etapas do trabalho e da vida em geral.

A seguir, temos uma parte da conclusão do trabalho de uma das duplas em que uma das alunas fez uma autoavaliação do seu papel na rede social: “A imagem que passo nas redes pode não representar quem realmente sou, não quero isso. Não quero fingir ser uma pessoa, não quero criar opiniões diferentes sobre mim. Apenas quero que alguém entre no meu perfil, e diga, ‘Olha, a Fabi(*)’. Nada de mais, apenas que olhem, e me vejam. Mas, hoje em dia, todo mundo se preocupa tanto em mostrar nosso corpo, se nos achamos bonitos, ou esconder nossos corpos, se nos achamos feios. Eu acho que só temos 13 anos, somos tão novos para nos preocuparmos com isso. Estamos tão adiantados quanto a esse assunto, e não tem necessidade. A preocupação com o que as pessoas vão achar de nós fala mais alto do que a preocupação de sermos nós mesmos”.

Levar os alunos a pensar sobre seu papel no mundo é uma tarefa delicada. Acreditamos que esse trabalho foi uma pequena amostra de como podemos ser orientadores nesse processo.

(*) Para preservar a identidade da aluna, o nome mencionado no texto é fictício.

O artigo, de título original “A autoimagem do adolescente no ciberespaço”, é de autoria das professoras Alana Grimaldi Desbrousses Monteiro e Denise Barros da Silva, do Colégio Rio Branco e integra o livro no “Educando no Século XXI – Uma Escola em Metamorfose”, lançado no mês de agosto durante o Festival do Livro em Família. A publicação reúne uma coletânea de artigos de 65 educadores da instituição, no qual os autores compartilham suas vivências educacionais a partir de múltiplas perspectivas.