2020 e a pandemia à luz da História

2020 e a pandemia à luz da História

Colégio Rio Branco

24 de julho de 2020 | 04h00

Reprodução: Imagem Fabio Vieira – FOTORUA/Estadão.

A perspectiva de um professor de História sobre 2020 e a pandemia do novo coronavírus, os impactos, o fato de o mundo estar vivenciando um momento histórico, a influência dos acontecimentos nas relações e até nos exames preparatórios dos estudantes, como o Enem e os vestibulares. As discussões nas aulas de História e o fato do Brasil, além da crise sanitária, enfrentar uma grave crise política; o comportamento social coletivo, o paralelo com o passado e, finalmente, a maneira como vamos olhar para 2020 no futuro são algumas das reflexões propostas para a coordenadora de História, Sociologia e Filosofia e professora do Colégio Rio Branco, Mirtes Timpanaro, que explica a importância de revisitar o passado para tentar entender o presente, a necessidade de avaliar cuidadosamente documentações históricas e o possível surgimento de novos hábitos culturais, sejam sanitários ou sociais. Confira:

Consciência coletiva x informação

“É muito importante observar a questão da mídia, dos telejornais, do acesso via internet e perceber o mundo todo nessa mesma conexão. Todos usando máscara, lavando as mãos, preocupados com o distanciamento social, com o número de mortes, acompanhando os gráficos e os outros países. Primeiro, vivenciamos a China e a Itália como epicentros da doença, os EUA, e agora o Brasil. Observar o quanto estão sendo importantes os pronunciamentos de presidentes e chefes de Estado no mundo todo, como a recente reunião da cúpula da União Europeia para discutir quais países serão ajudados, por exemplo. As pessoas que estão antenadas percebem que estão fazendo parte de um momento histórico e os alunos também, eles sabem que todos esses fatos serão escritos nos livros de História daqui a algum tempo – no ano que vem já estarão nos livros. Talvez não com a profundidade que deva ter, não com aquilo que concerne ao historiador, que é o bom distanciamento histórico para compreender toda a gama de elementos que está por dentro, por trás e em volta desse momento de pandemia.  E é importante notar que não é só a pandemia e as questões sociais que foram escancaradas, mas também as questões políticas, não só do nosso país, mas no mundo todo, como a Nicarágua, a Espanha, a Itália; como cada país foi capaz de absorver esse momento, então acredito que pelo menos os alunos têm clareza: “estamos vivendo um momento histórico”.

Pandemia escancarou desigualdades e questões políticas: o maior cemitério da América Latina, na Vila Formosa, em São Paulo, foi destaque na imprensa internacional.

Vestibulares e Enem

“Nunca ninguém teve aula a distância nessa condição e por tanto tempo, nunca tivemos que recriar tantas relações para que elas não se percam, para que se fortifiquem, tudo isso está muito presente e acredito que nas questões de vestibular, dentro da área de História, talvez, mas na área de Sociologia e também nas redações, sim, elas devem aparecer. E é um bom momento ou talvez no ano que vem, pois não sei se as provas do Enem já estavam preparadas, mas, por exemplo, em uma questão de redação seria interessante propor o distanciamento social como tema, uma redação não baseada em ‘achismos’, mas que proporcionasse reflexões maiores, em termos políticos e etc.”

Passado e presente na sala de aula

“Nas aulas temos abordado todos os temas em torno da pandemia, mas é interessante porque, de fato, a História não trabalha o presente, o nosso material é o passado, é o ser humano no seu tempo histórico, claro, fazendo as relações com o presente, mas muito mais estudando o passado para compreender um pouco sobre como chegamos até aqui. Então o que nós fazemos muito é entender ou procurar lá atrás, momentos em que situações parecidas foram vividas.

O Brasil já teve outras crises sanitárias. Inclusive, esse é um tópico trabalhado em todas as escolas com os 9°s anos do Ensino Fundamental: o estudo do Brasil no começo do século, a Primeira República e não há como não falar sobre a reurbanização do Rio de Janeiro e todas as doenças que circulavam pelo Brasil como um todo, mas especialmente no Rio de Janeiro, por ser a capital e o foco. Varíola, febre amarela, peste bubônica – como tudo isso circulava e como o Brasil era visto como túmulo do estrangeiro: “não vá para lá”, “não comercialize com esse país, pois a doença é o lugar comum”. A preocupação em reconstruir o Rio de Janeiro, o “Bota-Abaixo” do então prefeito Pereira Passos; Oswaldo Cruz com a campanha de vacinação e toda a questão em torno da vacina.  Isso é muito importante ser discutido e relacionado, porque hoje existe a busca por uma vacina ao mesmo tempo em que pessoas negam a vacinação, ou seja, um momento de negacionismo nos dias de hoje.

No passado também houve uma negação da vacina, mas porque não se sabia o que era a vacina, não era explicado. A própria Revolta da Vacina, lógico, apesar dos oportunismos políticos que existiam, havia sinceramente, por grande parte da população, um desconhecimento: o que é essa vacina? Por que sou obrigado a colocar dentro de mim um componente que me dizem que é a própria varíola? Essas questões não eram explicadas, era algo típico de um governo ainda muito próximo do regime escravocrata, onde a ideia patriarcal do “cumpra-se”, do “faça”, “não tem que explicar, estamos mandando e todos vão tomar”, era muito forte.

Campanha de combate à varíola no Brasil, já em 1970. Reprodução: Acervo Fiocruz.

Naquele momento, toda a questão social e de saúde era vista como um caso de polícia e daí acontecem as manifestações, o quebra-quebra, bondes virados e a Revolta da Vacina em uma semana de novembro em 1904, no Rio de Janeiro. Prendem-se pessoas, retira-se a obrigatoriedade, mas passa a existir uma preocupação em explicar para a população, fazer uma campanha, e gradativamente a varíola será erradicada do país. Essas coisas são conversadas nas aulas e obviamente relacionadas com o presente. Nós não estudamos o nosso presente como uma história, pois o risco de virar uma “contação de causo” é grande: “eu li no jornal”, “eu vi” ou “alguém me mandou pelas redes sociais”. O historiador precisa de documentos, então será preciso alguns anos para poder analisar e entender tudo o que está acontecendo, para termos uma percepção mais ampla e sairão obras maravilhosas, com toda a certeza. Daqui a 20, 30 anos serão publicadas obras incríveis discutindo a pandemia no planeta, com olhares diferentes, com diferentes percepções políticas e mais qual a percepção, por exemplo, que o mundo teve sobre nós, como Brasil, como brasileiro e de como a pandemia foi gerenciada aqui. Isso tudo será muito, muito interessante. ”

Imagem: reprodução.

Futuro e o “novo normal”

“Um olhar de futuro a História não tem, e isso é algo muito legal de explicar porque as pessoas perguntam bastante e o historiador não tem uma bola de cristal, ele é péssimo nisso e quando faz dá errado, muitas vezes (risos). O cientista político e o geógrafo têm algumas condições, mas o historiador olha o seu presente e procura ali traços e resquícios do que ficou do passado; do que foi resolvido e do que não foi resolvido, das permanências e das transformações. O futuro é complexo e incerto. Por onde caminharemos? Nós já sabemos como se caminhou no passado, sabemos muitas coisas que aconteceram e isso não quer dizer que elas se repetirão ou voltarão a acontecer da mesma maneira.

1918 ou 2020? Reprodução/Gazeta de Notícias.

Essa questão toda em torno do “novo normal”, por exemplo, eu não sei o que é o novo normal , mas quando penso na gripe espanhola, várias coisas aconteceram, as fotos desse período, e é outra coisa interessante de ser discutida e nós discutimos em aula; no final da Primeira Guerra Mundial, a gripe espanhola produziu imagens muito parecidas com as de hoje: escolas, igrejas, ginásios que foram usados como hospitais de campanha, tal como agora, as fotos de pessoas com máscaras. Mas depois da gripe espanhola as pessoas não passaram a viver separadas e usando máscaras, até mesmo preocupações sanitárias foram, talvez, perdidas ou não foram completamente interiorizadas, e mesmo os órgãos públicos não agiram como deveriam naquele momento, então para essa percepção de um “novo normal”, não sei exatamente dizer o que vai acontecer de tão diferente.

1918: o uso de máscaras durante a pandemia da gripe espanhola. Reprodução.

Nós não vamos viver eternamente na frente de uma tela, eu espero. Precisamos ter novamente um convívio social, afinal, o ser humano é um ser sociável, alguns mais, outros menos, alguns bem pouco, na verdade, mas a imensa maioria é um ser social que gosta de se encontrar, que gosta de dividir a mesa, e como não dividir a mesa com os amigos? Em algum momento isso tudo se normalizará: terá uma vacina, as seguranças pouco a pouco serão novamente sentidas, o ir e vir passará a ser algo mais tranquilo, e quem sabe as pessoas saibam compreender melhor determinadas questões higiênicas, como lavar as mãos com mais frequência, tirar os sapatos antes de entrar em casa, questões culturais que outros países e nações já têm, como o Japão. Resfriou? Usa a máscara – ações tão importantes para serem feitas com relação ao próximo. Quem sabe a gente aprenda e adote para sempre, algumas dessas atitudes”.


Mirtes Timpanaro
Graduada em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). É coordenadora de História, Sociologia e Filosofia e professora do Ensino Fundamental II e Médio do Colégio Rio Branco.

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