Por que a literatura negra é tão importante?

Por que a literatura negra é tão importante?

Dia da Consciência Negra: obras de escritores e personalidades de diferentes gerações traduzem a riqueza cultural e a importância do protagonismo negro no cenário literário.

Colégio Rio Branco

20 de novembro de 2021 | 04h00

Imagem ilustração. Foto: Mundo Negro.

Aos 66 anos de idade, a moçambicana Paulina Chiziane foi a primeira vencedora africana do Prêmio Camões 2021, o mais importante da língua portuguesa, assim como o romancista tanzaniano Abdulrazak Gurnah, 73, condecorado recentemente com o Prêmio Nobel de Literatura.

Em um ano marcado pelo protagonismo de escritores negros na literatura mundial e em razão do Dia da Consciência Negra – 20 de novembro, celebrado em memória da data da morte de Zumbi dos Palmares, é importante chamar a atenção para a importância de dar visibilidade à literatura negra.

No Brasil, são inúmeros os autores que apesar das adversidades culturais, econômicas e sociais  enfrentadas diariamente pela população negra, vêm transpondo barreiras, fazendo história e ganhando cada vez mais espaço nas estantes e no coração dos leitores.

Mas, afinal, o que é literatura negra?

É a produção literária na qual o sujeito da escrita é o próprio negro, principalmente em países dominados pela cultura do branco e que receberam imigrações forçadas pelo regime de escravidão, como o Brasil.

“ […] a literatura negra se realiza quando o autor, voltando-se para a sua pessoa e sua vida como autor de origem negra, escreve em torno dessa experiência específica. Dois dados: ele é negro, ele voltou-se para dentro de si mesmo, olhando-se, e ele vai se referir a essa experiência de que só ele é dono” definiu o escritor negro, poeta, ativista e pesquisador Oswaldo de Camargo, uma das maiores referências sobre o tema no país, quando indagado se existiriam marcas específicas entre uma estética literária branca e uma estética literária negra.¹

Por meio da literatura negra, personagens e autores negros e negras retomam sua integridade enquanto seres humanos, rompendo o círculo vicioso do racismo, enraizado, também, na prática literária.

Apesar desse tipo de produção literária ficar conhecida apenas no século XX, quando os movimentos negros se fortaleceram em todo o mundo, ela existe no Brasil desde o século XIX, por meio de escritores como Luiz Gama e Maria Firmina dos Reis. No começo do século XX, enquanto a sociedade brasileira buscava esquecer o passado escravocrata, Lima Barreto denunciava, em seus textos, os problemas sociais provocados por três séculos de escravidão.

“A literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudicais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. ”  (Antonio Candido, do ensaio “O direito à literatura”, no livro “Vários escritos”. 3ª ed. revista e ampliada. São Paulo: Duas Cidades, 1995.)

Para a professora e coordenadora de Língua Portuguesa e Literatura do Colégio Rio Branco, Rosane Maria Silva de Luiz Cesari, a explicação do eminente professor e crítico literário sobre a função social da literatura nos mostra a fundamental importância do desenvolvimento da literatura negra em nosso país.

Machado de Assis (reprodução)

“A literatura sempre teve em sua produção a essência política, não só pela abordagem temática das narrativas, mas também em razão da seleção dos personagens e dos papéis por eles desempenhados no contexto das diferentes obras. No entanto, escritores negros foram deixados à margem da tradição literária brasileira, sendo as exceções famosas Cruz e Souza, Lima Barreto e Machado de Assis – sendo que este até passou por um certo processo de “branqueamento”, destaca.

Ainda de acordo com a professora, as heranças culturais advindas dos negros foram consolidadas em nosso país por meio da música, da dança, da culinária e muito pouco pela produção literária de negros.  Além disso, ou até por essa razão, a presença de personagens negras ao longo da nossa história literária é quase sempre marcada por um distanciamento racial e de modo geral reproduz estereótipos:  a mulata sensual, o malandro, o escravo, etc.

“Ao longo do século XX muitos nomes foram surgindo e conquistando destaque por meio da arte da palavra: Ruth Guimarães, Carolina de Jesus, Conceição Evaristo, Elisa Lucinda, Joel Rufino dos Santos, Cuti. Agora, neste século XXI, vemos o movimento da literatura negra expandindo-se e os escritores e poetas negros e negras alcançando merecido reconhecimento no cenário cultural brasileiro”, conclui.

Como leituras imperdíveis, a coordenadora indica as histórias infantis de Emicida e o livro Torto Arado de Itamar Vieira Júnior, além das obras de Conceição Evaristo, lembrando que autores como Carolina de Jesus e Ruth Guimarães já são indicações para provas de vestibulares como a FUVEST, além de Machado de Assis e Lima Barreto.

Alguns escritores e personalidades que vêm marcando diferentes épocas:

CARLOS DE ASSUMPÇÃO (1927-)
Professor, advogado, poeta e escritor. Ganhou diversos prêmios e títulos, tendo suas obras traduzidas para o alemão, inglês e francês. Participou intensamente da cena cultural paulistana, em especial nas atividades artísticas, sociais e políticas vinculadas ao Movimento Negro. Com 94 anos, é considerado um dos decanos da literatura afro-brasileira.

Carolina de Jesus (reprodução).

CAROLINA MARIA DE JESUS (1914-2011)
Entre suas principais obras está o livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada” publicado na década de 1960. De catadora de papel, que construiu a própria casa usando lata, madeira e papelão, à uma das maiores escritoras negras da literatura nacional, seus relatos foram traduzidos para 16 idiomas e vendidos em mais de 40 países.

CONCEIÇÃO EVARISTO (1946-)
Nascida na periferia de Belo Horizonte, migrou para o Rio de Janeiro onde conciliou o trabalho como empregada doméstica aos estudos na faculdade de Letras. Mestre em Literatura Negra e doutora em Literatura Comparada, produziu diversas obras nas quais aborda temas como discriminação racial, questões de gênero, classe social e a realidade da mulher negra no Brasil.

CRUZ E SOUSA (1861-1898)
Filho negros alforriados, João da Cruz e Sousa foi um importante poeta brasileiro do Simbolismo. Suas obras são marcadas pelo sofrimento, marcado muitas vezes pelo preconceito racial, pelo espiritualismo, individualismo e pela obsessão pela cor branca. Era engajado na causa abolicionista.

Cuti (reprodução Literafro)

CUTI (1951-)
Luiz Silva, Cuti como é conhecido, é escritor, poeta e dramaturgo. Graduado em Letras, mestre em Teoria da Literatura e doutor em Literatura Brasileira. Em 1978, foi um dos criadores do jornal literário Jornegro e da série de antologias Cadernos Negros. Participou da fundação do grupo Quilombhoje. Autor de inúmeras obras como contos, ensaios, poesia e peças teatrais. Tem 70 anos.

DJAMILA RIBEIRO (1980-)
Nascida na cidade de Santos, no estado de São Paulo, filósofa, feminista, escritora e acadêmica. Autora dos livros “O que é lugar de fala?” e “Pequeno Manual Antiracista”, entre outros trabalhos, escreveu o prefácio do livro “Mulheres, Raça e Classe” da filósofa negra e feminista Angela Davis.

ELIANA ALVES CRUZ (1966-)
Nascida no Rio de Janeiro e formada em Jornalismo estreou na literatura com o romance Água de Barrela, baseado na trajetória da sua família desde o século XIX, na África. Foi a vencedora da primeira edição do Prêmio Literário Oliveira Silveira, em 2015.

EMICIDA (1985-)
Leandro Roque de Oliveira, conhecido como Emicida, é rapper, cantor, compositor e escritor. Nascido na periferia de São Paulo é premiado por trabalhos que vão da música às produções audiovisuais. Tem se destacado como escritor de livros infantis com temáticas sociais como “Amora” e “E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas”.

GIOVANA XAVIER (1979-)
Nascida no Rio de Janeiro e formada em história, mestre, doutora e pós-doutora. Autora dos livros “Você pode substituir Mulheres Negras como objeto de estudo por mulheres negras contando as suas próprias histórias” e da biografia “Maria de Lourdes Vale Nascimento: uma intelectual negra do pós-abolição”, é organizadora do catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”. Através da plataforma @pretadotora realiza produção de conteúdo sobre autocuidado, maternidade e trabalho acadêmico sob os pontos de vista de mulheres negras na perspectiva da “narrativa na primeira pessoa”. Em 2019, foi contemplada como uma das apoiadas do Programa de Aceleração de Lideranças Femininas Negras Marielle Franco, com o projeto “Ciência de Mulheres Negras: liderança acadêmica e pesquisa ativista no Brasil”.

Lázaro Ramos (divulgação).

LÁZARO RAMOS (1978-)
Nascido em Salvador, o renomado ator é também apresentador, dublador, cineasta e escritor de inúmeras obras de literatura infantil, entre elas “O pulo do coelho” e “Edith e a velha sentada”.

LIMA BARRETO (1981-1922)
Filho de escrava liberta e afilhado de Visconde de Ouro Preto é autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” e “Clara dos Anjos”. Sua obra foi marcada pela crítica ao nacionalismo, ao militarismo e pela denúncia social, o que o tornou um dos maiores símbolos de resistência no início da República.

MACHADO DE ASSIS (1839-1908)
Nascido no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, de origem pobre, estudou pouco e em escolas públicas e nunca frequentou a universidade. Autor de vasta obra, em diferentes gêneros literários, é considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores como o maior nome da literatura do Brasil.

MARIA BEATRIZ NASCIMENTO (1942-1995)
Sergipana, historiadora, professora, roteirista, poeta e ativista pelos direitos humanos de negros e mulheres. Além de importantes trabalhos publicados em revistas e periódicos, seu trabalho de maior reconhecimento é documentário Ori (1989), de sua autoria e narração, dirigido pela socióloga e cineasta Raquel Gerber. Foi assassinada em 1995, vítima de feminicídio.

MARIA FIRMINA DOS REIS (1822-1917)
Maranhense e de origem pobre formou-se professora e construiu a primeira escola mista e gratuita em seu estado natal. Em 1859 publicou “Úrsula”, primeiro romance escrito por uma mulher negra na América Latina e primeiro romance abolicionista publicado por uma mulher, em língua portuguesa.

Helena e Eduarda (reprodução Facebook).

HELENA E EDUARDA FERREIRA – PRETINHAS LEITORAS
Moradoras de uma comunidade no Rio de Janeiro, as irmãs gêmeas Helena e Eduarda Ferreira, 12 anos, criaram um projeto contra a violência nas favelas por meio do incentivo à leitura. Através de um canal no Youtube (com milhares de inscritos) e encontros presenciais para debater livros, a iniciativa Pretinhas Leitoras foi criada em 2018. Filhas da professora de educação básica e pesquisadora Elen Ferreira, as meninas sempre foram estimuladas a ler.

Autor de Torto Arado (divulgação)

ITAMAR VIEIRA JÚNIOR (1979-)
Nascido em Salvador, graduado e mestre em geografia pela Universidade Federal da Bahia, já é considerado um dos maiores escritores da atualidade. Conquistou em Portugal o Prêmio LeYa, concedido por unanimidade pelo modo como representa de forma sólida e realista o universo rural brasileiro, na obra Torto Arado, e vencedor, também, do Prêmio Jabuti e Prêmio Oceano, em 2020 . O enredo destaca trabalhadores sem-terra remanescentes do regime escravista e personagens femininas vítimas da violência.

RUTH GUIMARÃES (1920-2014)
Poetisa, cronista, romancista, contista e tradutora. Foi a primeira escritora brasileira negra que conseguiu projetar-se nacionalmente desde o lançamento do seu primeiro livro, o romance Água Funda, em 1946. Nascida em São Paulo, passou boa parte da vida em Minas Gerais e escrevia histórias da vida caipira. Ao longo de sua carreira, publicou mais de 50 obras entre contos, crônicas, livros infantis, coletâneas folclóricas e traduções. Morreu em 2014, aos 93 anos.

SILVIO DE ALMEIDA (1976-)
Nascido em São Paulo, advogado, filósofo e professor universitário. É autor dos livros “Racismo Estrutural “,”Sartre: Direito e Política” e “O Direito no Jovem Lukács: A Filosofia do Direito em História e Consciência”. Também preside o Instituto Luiz Gama.

Stela (reprodução).

STELA DO PATROCÍNIO (1941-1992)
Nos anos 2000, Viviane Mosé publicou o livro “Reino dos Bichos e dos Animais é o meu nome”, uma coletânea de poemas transcritos de Stela do Patrocínio. De histórico de vida pouco conhecido, a autora não escrevia, mas recitava poemas que falavam da condição da mulher negra e pobre. Foi interna da Colônia Juliano Moreira, que com a implementação de um tratamento psiquiátrico humanizado por meio da arte, permitiu que artistas expressassem seus talentos.

Referências:

¹ Depoimento concedido em 2002 a Eduardo de Assis Duarte e Thiara Vasconcelos De Filippo. A versão integral encontra-se em DUARTE, Eduardo de Assis; FONSECA, Maria Nazareth Soares (Org.). Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, vol. 4, História, teoria, polêmica, p. 28-44.

Literafro – Portal da Literatura Afro Brasileira, do Grupo de Interinstitucional de Pesquisa Afrodescendências na Literatura Brasileira na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

BRANDINO, Luiza. “Literatura negra”; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/literatura-negra.htm. Acesso em 18 de novembro de 2021.

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