Escola com partido: Troca, desafio, perigo e beleza
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Escola com partido: Troca, desafio, perigo e beleza

Poliedro

20 Setembro 2016 | 18h21

É curioso que nossos vocábulos “diálogo” e “dialética” guardem em si a mesma essência. O primeiro, talvez, possa suscitar a impressão de concordância e/ou falta de animosidade entre as partes que dialogam. Já o segundo nos sugere exatamente o oposto, isto é, discordância e presença de hostilidade. Todavia, tais palavras, originalmente, indicam o mesmo processo: um processo de “troca”, uma simples “troca” de ideias, por meio do qual se pode obter um consenso ao seu final.

Assim, observamos que aqueles que dialogam bem, mesmo com aqueles que possuem opiniões diferentes das suas, conseguem ao final de tal caminhada encontrar uma solução comum, embora o processo nem sempre seja rápido quando surgem temas mais difíceis. Talvez seja necessária uma série de microdiálogos entrecortados por momentos de solidão e reflexão pelos que dialogam, para que, num momento final, uma solução seja encontrada, uma única posição seja tomada. O fato é que o “diálogo” propicia solução, concordância, pacificação e o faz exatamente por meio da “troca”.

Ora, não pode haver “troca” se não houver diferença de posição. A “troca” pressupõe, inicialmente, que as partes possuam percepções diferentes de um mesmo tema ou, se preferirmos, vejam o mundo a partir de posições diferentes. Do contrário, por que o diálogo, por que o confronto de ideias, se divergência não há?!

Nesse contexto é interessante pensar uma das marcas que devem ser deixadas no alunado por um bom ensino de Matemática. Nesta ciência, o princípio da razão suficiente, uma das leis fundamentais da lógica [ciência que estuda as leis do pensamento correto], é exagerado e saudavelmente praticado. Pode parecer antagônico, para a mente ainda infantil, que Matemática, Filosofia e Política possam ter tanto em comum, mas com tempo e trabalho, uma boa educação mostrará ao, agora adulto, que tal antagonismo é apenas aparente. Tal princípio pode ser definido como a exigência de que cada afirmação que formulemos tenha fundamentação em argumentos e fatos encadeados inteligentemente. Assim, é no processo dialético – ou dialógico – que seres humanos, praticando exaustivamente a argumentação inteligente, tornam-se adultos, isto é, ao “trocarem ideias” sobre o mundo desenvolvem a capacidade de encontrar soluções adequadas para demandas sociais.  Nesse contexto vale a pena pensar o valor da escola!

Sob tal perspectiva é possível vislumbrar a beleza, o desafio e o perigo de uma escola com partido. Numa sociedade que também herdou os legados culturais de Platão, Aristóteles, Euclides e do Iluminismo – por exemplo – não é admissível seres sociais que se posicionem em suas relações não inteligentemente! Esperamos, como sociedade, posicionamentos logicamente justificáveis.  Ainda que, pessoalmente, tenhamos múltiplos gostos e preferências diferentes, há aspectos da vida social para os quais não podemos tomar uma posição a partir de tais perspectivas.

É mister que, por exemplo, uma proposta de lei seja apreciada inteligentemente e não pensada por simples gosto pessoal. Como pode um adulto posicionar-se politicamente, isto é, como pode posicionar-se em assuntos que dizem respeito à cidade sem comparar Robert Owen/Marx ou Adam Smith/David Ricardo/Marx, sem comparar ortodoxia/heterodoxia econômicas ou ainda – como faz Renato Janine Ribeiro em seu pequeno e delicioso livro A democracia – sem confrontar democracia/república? Mesmo que queiramos encontrar pontos de intersecção entre as várias correntes de pensamento, é necessário que sejamos expostos a elas: gerar adultos implica que levemos seres humanos da condição de crianças e adolescentes para a condição de adultos autônomos intelectualmente.

Seria fácil demais e medíocre demais uma escola que ensinasse pensamento único. Eis o desafio para a escola. Eis o perigo na escola. Eis a beleza do ensino.  É desafiador deixar de se nortear pela crença – típica dos infantes – em alguém para assumir a responsabilidade de decidir sozinho – o esperado de um adulto. É arriscado fazê-lo e cometer erros. Mas é belo tornar-se independente, autônomo, adulto. E à escola cabe contribuir com tal processo, para que tenhamos, no futuro, seres que promovam ideias e consigam conviver cada vez melhor!

Por Petruciany Simone Ribeiro Bozolan, consultora pedagógica do Sistema de Ensino Poliedro

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