A arte da contação de histórias
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A arte da contação de histórias

Poliedro

13 Setembro 2016 | 18h07

A “contação de histórias” é uma das práticas mais remotas que se tem registro da humanidade. O ser humano conta histórias desde o início do desenvolvimento das habilidades de comunicação e da fala. Elas promoviam, e promovem, momentos de união, confraternização, trocas de experiências, além de ajudar a passar o tempo e vencer o tédio.

As histórias despertam a imaginação, as emoções, o interesse, as expectativas… ouvir uma história e/ou contá-la e recontá-la é uma maneira de preservar as culturas, os valores e compartilhar o conhecimento.

O primeiro contato da criança com o texto, geralmente, é por meio das histórias apresentadas, oralmente, por pais e familiares. Elas podem ser contadas em diversas ocasiões, como, por exemplo, ao acordar, durante uma tarde chuvosa, antes de dormir, preparando para um sono tranquilo e restaurador… Essa prática é extremamente importante, é o início do processo de aprendizagem.

Ouvir histórias desenvolve o pensamento crítico e oferece para as crianças a possibilidade de conhecer um mundo encantador, mas, também, cheio de conflitos e dificuldades que precisam ser enfrentados. Segundo o professor Josep Maria Puig [em sua obra, de 1998, p.69], “a criança quando ouve histórias, consegue perceber as diferenças que mostram os personagens bons e maus, feios e bonitos, poderosos e fracos, facilita à criança a compreensão de certos valores básicos da conduta humana ou do convívio social. Através deles a criança incorporará valores que desde sempre regem a vida humana”.  A psicóloga Rosely Sayão (2003) salienta que “contar histórias é um ato de amor e carinho por parte do adulto”. Destaca, também, que, “de forma lúdica e prazerosa, a criança pode aprender muito a respeito do mundo que a espera”.

Em seu livro Contar Histórias: Uma arte sem idade, COELHO (1999, p.47) nos ensina que “antes de narrar a história deve-se abrir espaço para uma boa conversa. Por exemplo, se a história gira em torno de animais domésticos e começa-se diretamente, os ouvintes poderão interromper dizendo: eu também tenho um gato, um cachorro, um passarinho, o que for”. A autora reforça que o espaço para as crianças falarem antes da narração é indispensável. Neste momento o “contador” conhece melhor as crianças e concede a oportunidade aos pequenos de falarem. Isto acalma e os prepara para a aventura.

O “contador” precisa ser habilidoso, é necessário “entrar” na história e levar junto todos os ouvintes. Diversos recursos, como, imagens, sons, instrumentos musicais, materiais alternativos, devem ser utilizados para que o momento seja ainda mais aprazível.

Algumas dicas e técnicas também podem ajudar. A linguagem corporal do “contador” tem grande relevância para o processo. Trocas de olhares diretas com os ouvintes são importantes. Caso identifique um ouvinte mais desatento, separe algum tempo para contar a história diretamente para ele, mas cuidado para que ele não se torne o centro das atenções, esse não é o objetivo. As perguntas devem ser respondidas, mas no limite exato. E lembre-se, as intervenções não podem comprometer o seu trabalho.

O ambiente, mesmo que simples, deve ser favorável à “contação de história”. Pode ser ao ar livre ou em locais fechados, porém é necessário estar livre de qualquer distração ou desconforto. Ruídos, pessoas transitando, excesso de sol, muito frio, muito calor, muito iluminado, pouco iluminado… tudo isso poderá dificultar o trabalho do “contador”. Procure o ambiente e o momento ideais para contar suas histórias.

Como em qualquer área, é importante que o “contador” busque aperfeiçoamento contínuo. Algumas universidades, como, por exemplo, a Faculdade Paulista de Artes, possuem cursos de especialização em “contação de histórias. O Senac-SP oferece, em algumas cidades, um curso livre com carga horária de 30h. Na cidade de São Paulo-SP, o Sistema Municipal de Bibliotecas tem como principal projeto o trabalho de “contação de histórias” e mediação de leitura. As apresentações são conduzidas por profissionais e funcionários da rede que se especializaram nesta arte. A Biblioteca Hans Christian Andersen, situada no bairro do Tatuapé, em São Paulo, possui um núcleo de formação e aperfeiçoamento para os “contadores de história”. A próxima formação ocorrerá no próximo dia 29, às 10 horas, e o tema será “A arte de ouvir histórias para depois contá-las”.

A escritora e pedagoga Fanny Abramovich (1989, p. 17) nos diz que “é ouvindo histórias que se pode sentir (também) emoções importantes como: a tristeza, a raiva, a irritação, o medo, a alegria, o pavor, a impotência, a insegurança e tantas outras mais, e viver profundamente isso tudo que as narrativas provocam e suscitam em quem as ouve ou as lê, com toda a amplitude, significância e verdade que cada uma delas faz (ou não) brotar”.

No ato da “contação de história”, a criança se identifica com os personagens, com os heróis, as heroínas, o mocinho e a mocinha… essa identificação desperta várias emoções e faz com que os pequenos coloquem para fora seus sentimentos e vençam o medo, a angustia, a timidez… além disso, a “contação” aguça a curiosidade dos alunos e desperta o interesse em conhecer mais histórias. A tendência é que naturalmente, se tornem habilidosos leitores e o processo de ensino-aprendizagem será mais rápido e prazeroso.

Por Jean Moreira, consultor pedagógico no Sistema de Ensino Poliedro

 

Referências bibliográficas

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil gostosuras e bobices. 5. ed. São Paulo: Scipione, 2002.

COELHO, Maria Betty. Contar Histórias: Uma arte sem idade. 9. ed. São Paulo: Ática, 1999.

PUIG, Josep Maria. Democracia e a participação escolar: Propostas de atividades. Trad. de Maria Cristina de Oliveira. São Paulo: Moderna 1998.