Quer fazer do seu filho um empreendedor?

Quer fazer do seu filho um empreendedor?

Liceu Jardim

14 de fevereiro de 2019 | 10h52

Por Daniel Contro*

 

O garotão era do Ensino Médio. Saudável e musculoso, olhar soberbo, várias Disneys no passaporte; tinha contra si ser avesso à apostila de matemática. No histórico escolar, trazia uma reprova e estava no limiar de outra. Convocado para ajudar a redimi-lo de novo fracasso em Pitágoras, o pai, convicto, sentenciou em sua defesa: “Ele pára os estudos. Não nasceu para estudar. Nasceu para empreender.”

Aquela voz paterna, descrente de um horizonte e convicta de outro, ficou-me a martelar: nasceu para empreender! Nasce-se mesmo empreendedor? Cresce no Brasil a crença de que sim, há por aqui uma multidão que se julga ungida. Um portentoso Vale do Silício de 8,5 milhões de km² e mais de 200 milhões da espécie singular. Crê-se que basta criar um novo sabor para a pipoca e tem-se mais um vitorioso da espécie.

Com sincera veneração aos que não puderam, embora quisessem, fazer algo maior do que reinventar a pipoca, empreendedorismo não dá em maternidade… Alguns mitos são exceções que apenas consagram a regra. Há duas categorias de empreendedores no mundo: os que empreendem por subsistência e aqueles que deslindam oportunidades. Os primeiros vêm das demandas da subsistência. Mourejam às portas dos nossos templos e semáforos da morte. Reinventam-se para subsistir. Os segundos são os que se dispõem a conquistar repertório, esmerar habilidades para escavar o inédito. Emergem da lapidação demorada e do talento escoimado. Não jazem à luz do sol, mas na geologia profunda, de rija lavra.

O Brasil está tomado dos primeiros e sofre a escassez dos segundos. Temos fama de povo empreendedor, mas sendo a quinta demografia do planeta, ocupamos apenas o 18° lugar no registro de patentes. O garotão da minha agenda era candidato a patentear um aplicativo capaz de impactar milhões, mas a estulta crença do pai o fará candidato a reinventar o sabor da pipoca.

 

*Daniel Belluci Contro é professor de história e tem mais de 25 anos de experiência na área da Educação, com passagem pelo sistema público estadual como professor e, na esfera do ensino privado, em todos os níveis, como professor, coordenador e gestor. Foi diretor de Educação na gestão do ex-prefeito Luiz Tortorello (1989-1992) e Secretário da Educação de São Caetano do Sul (2014). É membro da Academia de Letras da Grande São Paulo.