Deixe Seu Filho Cortar o Bife – construindo a autonomia no dia a dia do aluno

Deixe Seu Filho Cortar o Bife – construindo a autonomia no dia a dia do aluno

Liceu Jardim

01 Março 2017 | 19h29

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Por  Daniel Contro

Diretor Presidente – Liceu Jardim

A última edição do Pisa Internacional, além das áreas conhecidas: matemática, ciências e linguagem, avaliou, também, as habilidades tidas como não-cognitivas: raciocínio, liderança, iniciativa, tolerância e autonomia.

Tal qual nos conteúdos acadêmicos, os estudantes brasileiros têm, neste quesito, um dos mais reles desempenho do planeta. Ou seja, além de não saber matemática e seu idioma, eles são igualmente débeis nas competências alusivas à atitude.

Por que nossos jovens têm níveis tão tênues de autonomia e liderança? Não faltou quem logo imputasse o mau êxito às suas escolas.

De certo, elas têm lá sua parcela de contribuição. Todavia, em farta medida, o fato dimana da superproteção com que, como pais, passamos a educar os filhos. Difundiu-se uma crença irracional de que é preciso tutelar os filhos incondicionalmente, projetando uma infância indolor, um mundo inexistente. Neologismos oriundos da pueri-onipotência, como infantocracia e babylatria, têm sua mais rematada expressão entre nós. Qualquer cenário que ameace esse universo azul dos filhos é, incontinente, rechaçado e tido à conta de inimigo da felicidade.

Soma-se a inquebrantável superproteção paterna ao ambiente macunaímico das escolas e ao fenômeno se retinta de tons de tragédia… Como é a rotina escolar de nossos estudantes? Vejam seus deveres diários… simulacros e rarefeitos, validados mesmo que tardos ou inconclusos; leniência nas regras e combinados; materiais caóticos; provas que exigem menos que o mínimo; dicas indecorosas nos exames, enunciados bisonhos, assentidos como conceitos exatos, quando não os substituem os pais, numa espécie de consórcio do engodo. Nossas escolas estão mais para um centro de culto à indolência do que para forja de hábitos. Experimente ficar na portaria de um colégio, logo após o início do período. Não tardará despontar um séquito de pais energúmenos – em ritmo com porteiros ciosos – resignados à missão de tutelar, remindo tarefários, brochuras e livros , lanche, touca, itens negligenciados que, pelo telesocorro mobile, seus príncipes lhes requerem, inclementes… Ora, toda superproteção, ao contrário, enfraquece e não beneficia a ossatura pessoal. Crianças postas em ambientes indulgentes, sem os papéis que lhes são naturais, gestam os adultos de vidro, com débil nível de autonomia e compromisso.

Benção é a criança reorganizar objetos que utilizou, guardar e classificar roupas e calçados, manter a ordem dos seus espaços, treliçar o tênis, cerzir renda, cozer grão, botar lixo fora, ajudar a organizar a despesa mensal, planilhar os deveres e objetos de estudo, enfim, cortar sozinha seu bife…

Na ausência desse treino de cada dia, forjam-se os perfis hesitantes, faltos de raciocínio estruturado ou aptidão para arrostar desafios – candidatos à inépcia laboral.

As habilidades colaborativas – como a própria lexicologia exara – são mais da vontade que da genética. Ou seja, ninguém tem-nas como herança do berço. Herdamo-las do ambiente no qual nos erguemos.

Só mesmo a ignorância é mal comparável à criança instruída sem a premissa da emancipação.

Em um cenário laborativo, onde a iniciativa, o empreendedorismo e a liderança são incensados como virtudes olímpicas, que antever aos super-totoriados? A decana sabedoria exorta: não faça por ele nada do que ele é capaz de fazer por si mesmo.

Aqui está a oficina pela qual a atitude ganha têmpera e o talento lustre. O Brasil despontará melhor ranqueado no PISA e nossos filhos nos certames da vida.