Altas habilidades: transformando o desafio em solução

Altas habilidades: transformando o desafio em solução

Liceu Jardim

23 Junho 2017 | 15h56

Criança faz equações matemáticas em quadro 

Por  Rosana Oliveira Silva & Alexandre Vieira da Silva

Não é um transtorno, nem desvio ou patologia. O aluno com altas habilidades – popularmente conhecido como superdotado – está presente na maioria das salas de aula da educação básica do país. No entanto, por conta dos limites do trabalho pedagógico, as instituições de ensino, em seu modelo padrão, não conseguem oferecer um atendimento mais customizado para esses alunos.

Na experiência que o Liceu Jardim acumulou até o momento com o Ingenium – Núcleo para crianças com Altas Habilidades -, nos primeiros dois anos de pesquisa e atendimento das crianças e adolescentes com esse perfil, uma afirmação é incontornável: a inclusão de crianças com altas habilidades é complexa e urgente!

A ideia da criação do Núcleo surgiu exatamente por conta das aflições de uma mãe-professora da escola, que, por muito tempo, não encontrou instituições que desenvolvessem trabalhos com crianças que apresentassem traços de altas habilidades.

A partir da criação de um grupo de pesquisas, apoiado pela direção do Liceu Jardim, partiu-se para a observação de iniciativas mais sensíveis às necessidades do indivíduo com altas habilidades, como a Associação Paulista para Altas Habilidades / Superdotação (APAHSD), o Instituo Rogério Steinberg, no Rio de Janeiro, e a Associação Nacional para estudo e intervenção na Sobredotação (ANEIS), em Portugal.

Ao analisar essas iniciativas, constatamos, de pronto, duas questões, que ilustram a complexidade e a urgência do tema, mencionadas no início do texto: a quantidade de crianças, em idade escolar, com altas habilidades é altíssima, e a inexistência de um olhar adequado e sensível às suas necessidades tem produzido rótulos e consequências nocivos à vida escolar desses alunos.

Ao contrário do que se pensa, o sobredotado não tem vida fácil dentro da sala de aula e existem duas grandes razões para isso. Se a criança consegue intuitivamente adequar suas altas habilidades às exigências da vida acadêmica de uma escola padrão, sofrerá, muitas vezes, por sustentar o rótulo de “nerd”; por outro lado, se suas áreas de destaque não se encaixarem nos parâmetros estabelecidos pela escola, em geral, limitados a um academicismo monocromático, o indivíduo será rotulado como diferente e será tratado como um pária.

Em outras palavras, aquilo que teoricamente deveria lhe trazer outras possibilidades de interação e aumentar sua interface com o mundo muito provavelmente vai isolá-lo ou identificá-lo como uma das intermináveis categorias de criança-problema, para as quais sobram apenas as punições das instituições de ensino ou os tratamentos especializados, baseados na administração de doses diárias de medicação.

Não! A criança com altas habilidades não deve ser um problema. Para isso, o olhar de toda comunidade escolar deve ser continuamente sensibilizado na intenção de se mostrar que absolutamente todas as crianças e adolescentes contam com habilidades nas quais demonstram mais ou menos proficiência, e o popular superdotado destaca-se agudamente com uma ou mais dessas habilidades. É, pois, dever do professor e das coordenações pedagógicas pensar em estratégias que agucem continuamente a curiosidade dessa criança e avaliá-la com ferramentas que não se restrinjam apenas aos conteúdos programáticos.

* Rosana Oliveira Silva é professora de arte no Liceu Jardim, pedagoga e coordenadora do Ingenium. Graduada em Educação Artística e Mestre em Educação Artística pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Trabalhou em museus, gestão de projetos e patrimônio cultural em Portugal. Pesquisadora na área de Altas habilidades e educação.

** Alexandre Vieira da Silva é professor de produção de texto e literatura no Liceu Jardim e coordenador adjunto do Ingenium. Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas e pós-graduado em História da Arte pela Fundação Armando Alvares Penteado, trabalha em instituições privadas de ensino há 10 anos.