Transgressão e Neoparadigmas: a escola como espaço aberto para o novo!
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Transgressão e Neoparadigmas: a escola como espaço aberto para o novo!

Colégio Anália Franco

19 de fevereiro de 2021 | 18h49

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Ações Pedagógicas no sentido de educar a forma de ver o mundo (Colégio Jardim Anália Franco-SP)

 

Tradicionalmente, as escolas são vistas como transmissoras de conteúdos e preparação para os exames de acesso a universidades públicas e privadas.

 

Diria que esta é uma visão pobre sobre a educação. A palavra educar, em sua etimologia, remete a significados diversos como criar, direcionar, instruir, orientar, guiar, ampliar, conduzir, liderar, revelar, e por aí vai. Eu, como amante das contradições do sistema, gosto de pensar o educar como um caminho de desorientação dos sentidos comuns do mundo.

 

Ao invés de ensinar comportamentos e padrões, podemos educar para transgredir, como diria Bell Hooks ou Fernando Hernández. Afinal, uma educação mobilizadora de profundos sentidos e significados é aquela que ajuda às pessoas a pensarem. Saber questionar o mundo se torna, cada vez mais, uma necessidade para a contemporaneidade, entrelaçada de fake news e polarizações diversas. No famoso efeito manada, é muito sedutor se inclinar para o pensamento fácil. É muito cômodo não ler jornais diferentes ou entregar suas decisões a “um(a) outro(a)” que, efetivamente, não lhe representa em suas expectativas de vida e de formação de um mundo sustentável e humanizante, no sentido pleno dos termos. No modelo “de manada” ou “de rebanho” (Nietzsche), uma cultura quer ser hegemônica: a cultura da satisfação frente a um conforto alienante, pois nessa condição não é possível pular, gritar, expressar ou se rebelar contra uma realidade que, intrinsecamente, oprime a criatividade, a liberdade e capacidade humana de humanizar-se (seja este um pleonasmo necessário diante de um mundo onde a violência está tão sedutora).

 

Nesse sentido, a educação apresenta-se como aquela que provoca novos olhares de mundo. Ela é mobilizante por desconfortos essenciais, estimuladora pela necessidade de sair da bolha e olhar o mundo por diferentes prismas. A educação é uma prática libertadora do ser humano e edificadora de neoparadigmas para a vida!

 

Precisamos de uma educação que nos ensine a assumir as nossas vulnerabilidades, como diria Brené Brown (2013); que nos ensine a ter autonomia, como diria Paulo Freire (1997); que nos ensine a ter consciência de nossos privilégios e de nossas responsabilidades; que nos desperte a consciência sobre os lugares de fala e os lugares de escuta.

 

Uma sociedade consciente não é aquela que nos prepara, unicamente, para os exames universitários, e sim aquela que nos provoca a pensar sobre a importância de valores como o ócio criativo, tão bem defendido pelo sociólogo italiano Domenico De Masi (2001): uma relação híbrida entre estudos, entretenimento, trabalho, jogo, lazer, tempo livre. Uma escola que amplia as possibilidades de conhecimento com o campo da criatividade, da inovação, da comunicação, das interfaces digitais, da tecnologia e, acima de tudo, dos afetos.

 

Um exemplo no processo de formação integral do ser humano ocorre no Colégio Jardim Anália Franco. (o “Anália”, colégio particular da Zona Leste de São Paulo). Nele, os processos colaborativos, criativos e tecnológicos instigam os estudantes a vivenciarem um projeto educacional que os motiva a aprenderem por meio do jogo e da ludicidade. Uma educação viva, investigativa e interativa que promove a formação de estudantes protagonistas frente aos desafios do mundo global.

 

Na lógica libertadora que a educação é capaz, o Anália tem uma proposta pedagógica que forma para além da “participação do aluno”. A escola promove um “movimento de interatividade” de pessoas com o conhecimento e com a ação que o saber inspira, pois participar é diferente de interagir e a escola deve ser espaço profícuo dessa conscientização na formação estudantil. Uma pessoa pode participar de um grupo, de um contexto, de uma situação, estando com outros que dominam modos de comportamento e condutas. Todavia, é pela intencionalidade de um projeto educacional consistente que o colégio sistematiza práticas em benefício de estudantes interativos, que aprendam a acolher a todos para que o ambiente escolar seja, assim, uma comunidade de aprendizagem, sempre dinâmica e aberta para remodelar seus combinados de acordo com o tempo presente.

 

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Início de ano letivo: estudantes ressignificam as regras de vivência cotidiana (Colégio Jardim Anália Franco – SP)

 

Uma potente comunidade escolar é aquela que envolve todos os membros presentes: dos alunos ao diretor, passando também pelas famílias, equipes de suporte escolar (portaria, recepção, secretaria, nutrição, marketing, tecnologia educacional, financeiro, dentre outros), além de professores e todos os parceiros que dialogam com a instituição e a ajudam a executar com excelência sua proposta educacional.

 

No Colégio Jardim Anália Franco é possível perceber que o ambiente educativo é vivienciado com alegria e com competência pelos diversos agentes que atuam na escola. Desta forma, a escola promove um espírito formativo por excelência, além de estimular a capacidade afetiva e sentido de pertencimento. Não há competição como prática desleal, opressiva, na convivência humana. Os problemas existentes no mundo e na escola são pensados no coletivo e, sempre que possível agir sobre eles, atua-se em conjunto para superar impasses e estruturar novos caminhos. Uma escola de excelência não promove um ambiente de “uns contra outros”, mas constrói estratégias para que a comunidade educativa (estudantes, professores, famílias, colaboradores, parceiros diversos) esteja sempre unida contra os problemas que possam surgir.

 

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Estratégias Educativas que potencializam a coletividade na escola (Colégio Jardim Anália Franco – SP)

 

Vale destacar que somos potência de transformação para repensar a utilidade do inútil e a inutilidade do útil, conforme diria Nuccio Ordine (2016). Somos possibilidades de ampliação do saber, somos rizomas em conexões positivas, somos sentidos de (re)existência diante das improbabilidades, somos possibilidades de preencher e transmutar os vazios das superficialidades.

 

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Foto-performance, 2018 (Foto: Cecília Vaz)

 

Que venham novos tempos, com mais desafios. A educação está pronta para viver o desconhecido! E nós? Estaremos abertos para nos adaptar, transformar e ressignificar tudo o que for necessário.

 

Referências e Sugestões de Leitura:

BROWN, Brené. A coragem de ser imperfeito. Editora Sextante: Rio de Janeiro, 2013.

DE MASI, Domenico. O Ócio Criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2001.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

HERNANDEZ, Fernando. Transgressão e mudanças na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: ArtMed, 1998.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

ORDINE, N. A utilidade do inútil: um manifesto. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

 

Prof. Davi Giordano*

Mestre em Performance Art (UNIRIO) e Doutorando em Artes Cênicas (UFRGS).

Docente no Colégio Jardim Anália Franco

 

*Davi Giordano é artista, escritor e professor. Publicou diversos livros, roteiros e conteúdos direcionados para programas culturais, rádios, cursos web, palestras etc.

Confira mais no site do artista: davigiordano.com.br

Conheça mais sobre o Colégio Jardim Anália Franco: www.colegioanaliafranco.com.br

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