Química do Meio Ambiente: Consciência e Criticidade
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Química do Meio Ambiente: Consciência e Criticidade

Colégio Anália Franco

22 de setembro de 2021 | 14h50

Roda de conversa e uso de tecnologia na formulação de projetos em Química Ambiental (Colégio Jardim Anália Franco – SP)

A Química do Meio Ambiente é a área que busca compreender a composição do ambiente e os efeitos da poluição sobre ele. Algumas pessoas acreditam que esta área é nova, porém Wilson F. Jardim (2001) aponta que existem registros de pesquisas na área de Química Ambiental de 1872, indicando que a área é mais antiga do que muitas outras áreas da Química. No entanto, o pesquisador ressalta que, após a década de 1980 até os dias de hoje, essa área passou a ser discutida em todos os segmentos da sociedade.

A partir da crescente difusão temática, da importância conceitual e tecnológica somada aos impactos já refletidos e sentidos do aquecimento global e das pesquisas em nível acadêmico que vêm sendo realizadas por diferentes autores em distintos países, o Colégio Jardim Anália Franco (o “Anália”) estruturou e ofereceu uma disciplina eletiva de Química do Meio Ambiente para o Ensino Médio, com objetivo de que os estudantes pudessem entender a teoria e aplicar práticas laboratoriais dessa área do conhecimento.

Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), é competência geral do Ensino Médio: “Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.”.

Assim, cada vez mais, a preocupação em compreender o meio ambiente e em buscar novas soluções ambientais para o planeta vem fazendo parte da escola. Nesse sentido, não podemos ficar restritos apenas a transmitir conhecimentos aos estudantes, mas também é necessário práticas para que eles incorporem esses conhecimentos em ações. Nas palavras de Paulo Freire (2003): “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, até que, num dado momento, a tua fala seja a sua prática”. Nessa perspectiva, para trazer uma reflexão mais profunda sobre as questões ambientais, os estudantes desenvolveram, ao longo desta eletiva, uma campanha publicitária de conscientização ambiental. Essa campanha visou não só transformar ações das pessoas ao redor, mas também dos próprios envolvidos. Isso porque, se engajando em um problema e buscando uma forma de convencer as pessoas disso, refletimos e levamos a mensagem conosco para a vida.

Campanha de Química Ambiental elaborada por estudantes do Ensino Médio (Colégio Jardim Anália Franco-SP)

Para dar suporte ao desenvolvimento da campanha, os estudantes tiveram a oportunidade de discutir e trabalhar diversos temas ambientais da atualidade. Um deles foi o crescente depósito de lixo, especialmente plásticos, nos oceanos. A Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu a nossa década como “A década dos oceanos” (2021-2030), pois a poluição dos oceanos tem gerado graves impactos ambientais. Podemos destacar, neste contexto, uma ilha de lixo que existe no Oceano Pacífico, com extensão de 1,6 milhões de km2, uma área equivalente à região Centro-Oeste do Brasil. Laurent Lebreton (2018) caracterizou essa ilha, identificando que grande parte dela é constituída por plásticos e redes de pesca. Neste local, uma quantidade significativa dos lixos se apresenta na forma de microplásticos, que são polímeros sintéticos menores do que 5 mm. Estes microplásticos podem ser gerados pela fragmentação dos plásticos diversos, como os de sacolinhas de supermercado, que se quebram em pedaços pequenos. Os organismos marinhos ingerem esses pequenos plásticos, que acabam entrando na cadeia alimentar e contaminando outros organismos, como nós mesmos, seres humanos. Os efeitos destes pequenos plásticos na saúde de seres humanos ainda não são conhecidos, mas desconfia-se que estejam associados a diversas doenças, segundo estudos organizados por Olivatto (2018). Portanto, a poluição que geramos pode acabar se revertendo contra nós mesmos.

É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, até que, num dado momento, a tua fala seja a sua prática. (Paulo Freire)

Para potencializar os conceitos temáticos e experiências práticas propostas na eletiva, encontros formativos com convidados especialistas foram essenciais para a discussão e aprofundamento dos temas ambientais protagonizados pelos estudantes. O pesquisador da USP Dr. Guilherme Martins Pereira, que se dedica a estudar a poluição atmosférica, pôde conferenciar sobre o seu trabalho de Química Atmosférica e sobre a “Chuva Escura” (episódio pelo qual o céu de São Paulo escureceu durante o dia, devido à fumaça de queimadas de outras regiões). Também contribuiu para os estudos sobre meio ambiente, o químico da SABESP Maurício Suzumura, que discutiu “A Química da Água” a partir da importância da economia de água, trazendo um pouco sobre o seu trabalho de investigação de tubulações com vazamentos para reparo, que contribui muito para a redução de desperdícios de água. Essa troca de experiências entre os convidados e os estudantes foi muito significativa. Essa estratégia instigadora de encontros formativos com profissionais e estudiosos de áreas relevantes que impactam em nossa vida cotidiana, é de extrema importância aos estudos mais avançados de nossos jovens, pois visa aproximar os estudantes do Ensino Médio às diferentes profissões e visões do mundo em que vivemos.

Encontros Virtuais com Especialistas na área Ambiental (Colégio Jardim Anália Franco-SP)

Além das discussões feitas entre alunos, professores e especialistas, atividades práticas foram realizadas durante a eletiva. Como defendido pelo cientista Michael Faraday, “A química é necessariamente uma ciência experimental: as conclusões são extraídas de dados e seus princípios são apoiados pela evidência dos fatos.” Desta forma, apoiado em experimentos podemos refletir e compreender melhor questões de nossa realidade. Tendo em vista a grande importância da experimentação para concretizar os conhecimentos de Química Ambiental, tivemos um grande desafio a enfrentar: como fazer experimentos e manter os protocolos de segurança impostos pela pandemia? Nesse sentido, buscamos experimentações demonstrativas investigativas, pelas quais os estudantes não têm respostas prontas do que vai acontecer durante os experimentos, mas são questionados a prever e avaliar os fenômenos ocorridos, refletindo e ressignificando seus conhecimentos.

A Terra tem o suficiente para todas as nossas necessidades, mas somente o necessário. (Gandhi)

O projeto educacional do Colégio Jardim Anália Franco oportunizou que essa eletiva trabalhasse questões atitudinais dos estudantes, contribuindo para a formação de jovens íntegros e responsáveis com o ambiente. Em uma pesquisa feita ao final deste componente curricular, verificou-se que todos os alunos participantes acreditam que os temas trabalhados tiveram relevância em suas vidas. Além disso, os projetos dos estudantes revelaram a preocupação com diversas temáticas ambientais relacionadas ao cotidiano, como o cuidado com o que consumimos e os destinos dados aos resíduos que produzimos. Isso é fundamental para formar cidadãos do futuro, pois como destacado por Mahatma Gandhi: “A Terra tem o suficiente para todas as nossas necessidades, mas somente o necessário”.

Organização colaborativa e on-line dos estudantes no Trello (Colégio Jardim Anália Franco-SP)

Provocar os estudantes à contínua construção dos conhecimentos científicos, valorizar os estudos do meio ambiente de maneira estratégica e, ainda, vivenciar experiências que apoiarão a construção da criticidade, foram eixos fundamentais que nortearam a eletiva Química do Meio Ambiente e permitiram aproximar os jovens de importantes temáticas atuais, trazendo novos conhecimentos sobre a área e potencializando a formação de cidadãos íntegros, interativos e investigativos frente aos desafios do mundo global.

 

Referências:

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 27ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003.

JARDIM, Wilson F. Introdução à química ambiental. Cadernos temáticos de química nova na escola, Química Nova na Escola, São Paulo, n. 1, p. 3-4, maio 2001.

LEBRETON, Laurent et al. Evidence that the Great Pacific Garbage Patch is rapidly accumulating plastic. Scientific reports, v. 8, n. 1, p. 1-15, 2018.

OLIVATTO, G. P. et al. Microplásticos: Contaminantes de preocupação global no Antropoceno. Rev. Virtual Quim, v. 10, n. 6, p. 1968-1989, 2018.

 

Valquiria Pianheri Souza dos Santos

Doutora em Bioquímica (Universidade de São Paulo)

Graduada em Química (Universidade de São Paulo)

Professora do Colégio Jardim Anália Franco

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