Novo coronavírus: aprendendo com o passado, evoluindo para o futuro.
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Novo coronavírus: aprendendo com o passado, evoluindo para o futuro.

Colégio Anália Franco

09 de setembro de 2020 | 13h29

Pandemia exigiu novos Protocolos de Saúde na sociedade (Colégio Jardim Anália Franco)

E dizem por aí que o novo coronavírus (Sars-Cov-2 ou COVID-19) é o maior vilão existente, bem lhe cabe o título de vilão, mas vale lembrar um pouco dos violões do passado. A família coronaviridae tem uma grande quantidade de vírus, que não assustava tanto a comunidade científica, seja por serem restritos e circularem apenas em algumas espécies, seja por historicamente não terem a disseminação tão eficiente. Pelos estudos na área de epidemiologia dos últimos 30 anos, esperava-se alguma pandemia, mas não por parte dos coronavírus e, sim, por algum subtipo do seu amigo influenza, como já havia acontecido com a devastadora gripe espanhola (1918-1920), com a gripe-suína (2009-2010) e a gripe aviária (2003-2004), entre outras pandemias de mais longa data.

Ao sabermos o curso de doenças passadas torna-se mais fácil o entendimento das atuais. Estamos perante a um cenário de destaque no qual o Brasil comanda um grande estudo sobre o novo coronavírus, o EPICOVID-19-BR, da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Este projeto avalia e mapeia o curso específico do coronavírus em diversas regiões do Brasil. Como exemplo da Amazônia, o estudo revelou que após atingir 25% de prevalência, ou seja, quando o número total de casos atingiu 25% da população, a mortalidade começou a diminuir. E por quê?  Segundo Cesar Victória, um dos coordenadores do projeto, parece que o contato anterior com algum dos subtipos de coronavírus parentes do SARS-Cov-2 conferiu à população alguma proteção contra o vilão atual.

Na história das epidemias e pandemias podemos observar que a relação entre doenças infecciosas e impactos na humanidade é antigo. Apesar de surtos de determinadas doenças ocorrerem com frequência, apenas algumas chegam ao patamar de pandemia, ou seja, enfermidade disseminada por várias regiões do mundo. O que de certa maneira nos tranquiliza é pensar que, hoje, temos mais acesso à informação, tecnologia avançada e que já passamos com êxito por cenários semelhantes, ou piores, com bem menos recursos na medicina.

O cenário atual é semelhante ao que já aconteceu em outros momentos da humanidade, em que doenças infecciosas provocaram grandes desastres na sociedade. A peste bubônica é um exemplo disso, causada por uma bactéria que era encontrada em pulgas e roedores infectados, a transmissão ocorria de pessoa para pessoa e, em estágios avançados, os infectados apresentavam acometimento pulmonar. A peste teve grande impacto na Europa no século XIV (1347-1351), matando 75 a 200 milhões de pessoas. Nos corpos surgiam dolorosas protuberâncias chamadas bulbos nas axilas e virilhas que acumulavam pus, além de manchas negras na pele. O segredo da carreira de sucesso dessa bactéria foi a sua capacidade de infecção em outros seres vivos. Apesar de hoje já serem conhecidos tratamentos para essa doença, há relatos de pessoas que adoeceram com peste no Estado do Novo México entre 1974 e 1993. Por isso, o cuidado por parte dos programas de saúde pública deve ser reforçado, já que a vacina para a peste não se mostrou eficaz. As limitações e acertos da ciência, o aprendizado que a história nos traz e os impactos sobre do mundo e a nossa sociedade são temas constantemente abordados no desenvolvimento das aulas no Colégio Jardim Anália Franco (escola localizada na zona leste de São Paulo-SP), seja em debates nas aulas de história ou em oficinas temáticas aos estudantes da 3ª série do Ensino Médio nas aulas de T.E.D. (Tecnologias de Estudos Digitais).

Outra epidemia que causou grande impacto na humanidade foi a varíola, que sobreviveu por mais de 3 mil anos e, hoje, é considerada erradicada desde 1980, após campanha de vacinação mundial. Esta, assim como a Covid-19, é causada por um vírus, estruturas tão pequenas que cabem milhões em uma cabeça de alfinete e é caracterizada por provocar erupções na pele e ser altamente contagiosa. Semelhante ao novo coronavírus, a morte, entre outros fatores, ocorria com uma resposta inflamatória maciça, quando o corpo se sobrecarregava na luta contra o vírus e liberava tantas toxinas no combate, que acabava se envenenando.  Em meio a tanto sofrimento e milhares de mortes, surge em 1796 a primeira de todas as vacinas, criada por um médico britânico renomado da época, Edward Jenner, a partir de estudos com a vaccínia, a varíola das vacas. Nas vacas, a infecção resultava em feridas expostas em suas  mamas e, curiosamente, conferiam aos produtores rurais que tinham contato direto com esses animais imunidade contra a varíola. A observação deste fato, levou ao desenvolvimento da vacina que passou por vários testes até ser usada na população. Observação, experimentação, criação e teste de hipóteses. É, assim, que o método científico se desenvolve e é, desta forma, que estudamos Ciências da Natureza no “Anália”, nas aulas práticas de laboratório, na reflexão, criação de jogos, estímulo à criatividade, debate e observação de pequenos fatos que fazem a diferença para entendimento do todo, formando jovens íntegros, interativos e investigativos.

Alunos do Ensino Fundamental II e Médio criando jogos e materiais sobre as pandemias e o novo Coronavírus quando este ainda era noticiado apenas em outros países (Colégio Jardim Anália Franco).

 

A relação entre o ser humano e estes seres “invisíveis” sempre foi muito complexa. Doenças surgem em surtos repentinos e transformam o meio econômico e social por décadas. Algo importante é ter clareza e conhecimento das informações, transmissão e prevenção. Atualmente, o acesso aos diversos veículos de informação, à tecnologia, à ciência e à medicina está muito avançado em relação ao período de outras pandemias. Cabe a nós, como sociedade e como escola, desenvolvermos estudantes críticos e íntegros, com discernimento e argumentação consistente, para separarem boas informações daquelas sensacionalistas. A informação está ao alcance de todos, mas o que é real e o que são Fake News? Como usar a informação em favor do nosso desenvolvimento e do bem comum? Estes são temas constantemente abordados no Anália.

 

Alunos do 6º ano (EFII) em apresentação teatral lúdica para as turmas do integral sobre como pode ter surgido e se disseminado na China o novo Coronavírus (Colégio Jardim Anália Franco)

 

As notícias sobre o surgimento do coronavírus começaram em dezembro de 2019. Em janeiro de 2020, foi registrado o primeiro caso fora da China e, em março, foi decretado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) como disseminação coletiva, era uma Pandemia. No início dessas discussões, quando o novo coronavírus ainda nem tinha atingido o status de Pandemia, nossos alunos do Ensino Fundamental II e Ensino Médio desenvolveram um projeto transdisciplinar em que geografia, inglês, ciências, biologia e arte formavam uma unidade em torno do tema. Os projetos aplicaram o uso de tecnologias, jogos, discussões e debates, análises de gráficos e produções transmídia. Com os alunos da Educação Infantil e Ensino Fundamental I foi trabalhada a ideia de higienizar as mãos e importância do sabão para eliminação dos “bichinhos invisíveis”, com experiências com detergente e orégano, por exemplo.

 

Ação das turmas do Ensino Fundamental I e Educação Infantil para a conscientização do uso de máscara e medidas de higiene. (Colégio Jardim Anália Franco)

 

De lá para cá, a escola e as famílias sofreram transformações para se adaptarem ao cenário da Pandemia. Aulas on-line, home office… a pandemia foi além do campo da biologia e dos cuidados com a higiene. Passamos a enfrentar questões emocionais, tecnológicas, sociais e políticas. As discussões e reflexões a respeito desse cenário adentraram o universo da sala de aula virtual. Antes das férias, a escola planejou uma semana cultural com os alunos até o ensino médio, com atividades de integração on-line, visitas a museus virtuais, jogos voltados para a autorreflexão e autoavaliação, além do desenvolvimento do material “Habilidades de uma vida em Quarentena”, oferecido pelo Uno Internacional. No Ensino Médio, está sendo oferecida neste semestre a disciplina eletiva “Vida em Pandemia: Atualidades e Dilemas Éticos”.

 

Material trabalhado com o Ensino Fundamental sobre as habilidades socioemocionais e apresentação das disciplinas eletivas do Ensino Médio com temáticas relacionadas à Pandemia do novo Coronavírus. (Colégio Jardim Anália Franco)

 

Conscientização, aprender com a história, investigar e produzir. A Pandemia também nos traz ensinamentos. E desenvolver as habilidades necessárias para lidar com a informação e os desafios do momento atual faz parte do processo de formação de estudantes íntegros, interativos e investigativos promovido pelo Colégio Jardim Anália Franco. É pela educação que este desafio global será superado.

Thaís Priscila Biassi Caiado

Mestre e Doutora em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo

Docente do Colégio Jardim Anália Franco

 

Saiba mais:

Farrell, Jeanette. A assustadora história das Pestes e Epidemias, São Paulo: Prestígio, 2003. 279p.

Ujvari, Stefan Cunha. A história da Humanidade contada pelos vírus. 2ª ed. São Paulo: Contexto, 2011. 202p.

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