Diálogo e escuta ativa: a “inovação” de estratégias tradicionais para superarmos a era das Fake News
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Diálogo e escuta ativa: a “inovação” de estratégias tradicionais para superarmos a era das Fake News

Colégio Anália Franco

01 de abril de 2021 | 14h01

Práticas escolares que incentivam o diálogo (Colégio Jardim Anália Franco-SP, 2019)

 

Educar é muito mais do que ser a ponte entre estudantes e conhecimentos específicos, entre informações das mais diversas áreas ampliando o repertório e expandindo o horizonte de todos os envolvidos no processo. Afinal, para a formação de indivíduos críticos, empáticos e autônomos, urge que todo conteúdo seja referenciado pelo que ocorre na vida do próprio estudante, ainda que nem sempre ele se dê conta disto.

Agora, como estimular uma ação empática embasada no conhecimento científico e na ética enquanto a realidade é nublada por Fake News e vive-se em uma época que instiga a fala, mas não valoriza a escuta?

Neste momento, em que todos são impelidos a opinar mesmo sobre o que desconhecem, o bombardeio de informações falsas divulgadas em diversos veículos de informação acarreta mais um desafio para o desenvolvimento de reflexão crítica em sala de aula e, para vencer o desafio, existem ao menos três fatores essenciais: o diálogo, a criatividade e a curiosidade (aquela que toda criança possui, mas que a sociedade pouco a pouco nos tira).

Sem o diálogo, o trabalho em sala de aula deixa de ser um processo de ensino-aprendizagem para tornar-se mera transmissão de informações. Só com a troca entre estudantes e educadores, as metodologias e os conteúdos ganham significado para a realidade dos envolvidos neste processo e a partir dela. O processo do diálogo é uma estratégia que, se bem executada, envolve – inclusive – familiares e outras pessoas próximas aos estudantes, pois a escuta ativa pode ser potencializada ao ressoar no comportamento dos jovens quando tal ação é ampliada pelos diversos grupos sociais em que os estudantes participam. Cabe acrescentar que as transformações ocorrem quando as pessoas se sentem impulsionadas, motivadas a alterar a realidade. Relembrando o grande mestre Paulo Freire, a educação não muda o mundo. A educação muda as pessoas e, estas, mudam o mundo.

 

Sala de aula: espaço de trocas e aprendizagem significativa (Colégio Jardim Anália Franco-SP, 2020)

 

Para estimular o comportamento empático e crítico diante da realidade foram desenvolvidas algumas atividades no Colégio Jardim Anália Franco (o “Anália”) que, ao envolver familiares no processo, potencializaram a extensão do que foi discutido e desenvolvido em sala de aula.

A atividade mais recente, consistiu em duas etapas: a primeira envolveu a criação de um folder com um exemplo de Fake News e orientações de como verificá-las, utilizando de aplicativos e sites confiáveis, para que se confira a veracidade ou não do que chega até nós. Afinal de contas, todos nós já recebemos alguma informação duvidosa pelo Whatsapp e outras redes sociais, por isso ter um roteiro simples que permita verificar de modo ágil a informação contribui para diminuir a desinformação de nossos tempos.

Além da atividade acima, os estudantes da segunda série do Ensino Médio precisaram entrevistar seus familiares sobre uma seleção de notícias verdadeiras e, dentre estas, algumas notícias falsas. O objetivo aqui foi possibilitar este momento de reflexão e diálogo entre o estudante e sua família, proporcionando momentos divertidos e com potencial de instigar a crítica daquilo que recebemos. Parece simples, ainda mais em tempos que a todo momento recebemos receitas infalíveis com tecnologias que se prometem revolucionárias, entretanto tal percepção esquece que, inicialmente, tecnologias são meras ferramentas e que são as pessoas que realmente detêm a capacidade de desenvolver o seu potencial e, com ele, contagiar os demais.

 

Uso de ferramentas digitais e análise midiática (Colégio Jardim Anália Franco-SP, 2021)

 

A cultura formativa de atualização dos estudantes também é imprescindível no ambiente escolar para inspirar um trabalho qualitativo no desenvolvimento da criticidade dos jovens cidadãos. Segundo o diretor pedagógico do Colégio Jardim Anália Franco, Sérgio Bortolim, o Novo Ensino Médio oportuniza uma educação mais contextualizada. Para ele: “Na eletiva ‘Vida em Pandemia: Atualidades e Dilemas Éticos’, diversas estratégias de verificação da informação, debates de ideias, estruturação argumentativa e encaminhamento de projetos de estudantes, instigaram uma educação viva, voltada à emancipação do indivíduo frente a toda e qualquer informação que chegava aos estudantes. Cada vez mais, a escola emerge como um espaço de liberdade à medida em que trabalha a responsabilidade de todas as pessoas na construção da realidade em que vivemos”.

 

Atualidades e Dilemas Éticos – Eletiva do Ensino Médio (Colégio Jardim Anália Franco – SP. 2020)

 

 

 

Este processo de identificação dos fatos, da capacidade de escuta e da reflexão das informações pode ser incentivado por intermédio de projetos em que os estudantes sejam protagonistas. A professora de Língua Portuguesa, Raquel Toledo, cita um projeto da área de linguagens proposto pelos alunos no Festival Anália Franco de Esportes e Cultura (FAFEC), em 2018. O tema deste projeto foi “Fake News e Pós-Verdade” que propunha uma vivência aos visitantes sobre assuntos variados publicados nas redes sociais mais famosas (Facebook, Instagram e Twitter). “Com dicas, questionamentos e dados confiáveis, as pessoas conferiam a veracidade das informações em cada rede. Ao final do percurso, um quiz avaliava se os visitantes aprenderam as táticas de diferenciação entre notícias verdadeiras e falsas. A escola deve ser um espaço para que toda a comunidade reflita sobre a vida que nos envolve”, afirma a docente.

Projetos escolares para o aprofundamento argumentativo e checagem de notícias falsas (Colégio Jardim Anália Franco – SP, 2018)

 

Escutar antes da falar, refletir antes de concluir e verificar dados antes de replicar informações. Estratégias simples, tradicionais, mas também inovadoras em tempos em que os olhares pouco se tocam e que muitos subestimam o poder de se pensar coletivamente.

 

 

Prof. José Fernando Queiroz

Mestre em Ciências Sociais (UNIFESP).

Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais (Unicamp).

Docente no Colégio Jardim Anália Franco.

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