Biotecnologia: ciência alinhada à ética na escola
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Biotecnologia: ciência alinhada à ética na escola

Colégio Anália Franco

28 de abril de 2022 | 18h24

Vivências em Ciências da Natureza para uma formação significativa (Colégio Jardim Anália Franco-SP)

Em tempos de transgênicos, de vacinas de RNA e tantas outras inovações que fogem das tecnologias tradicionais, é fundamental criar espaços para discutir estes temas, especialmente na escola. Foi pensando nisso que o Colégio Jardim Anália Franco (“Anália”) estruturou e ofertou aos estudantes o componente curricular “Biotecnologia”, como “disciplina eletiva” no currículo do Ensino Médio.

Para entendermos melhor, o termo biotecnologia começou a ser empregado por Ereky, em 1919 (apud Malajovich, 2012, p.1), que definiu como “a ciência e os métodos que permitem a obtenção de produtos a partir de matéria-prima, mediante a intervenção de organismos vivos”. Pode parecer algo sofisticado, moderno, ou perigoso, mas em uma análise cuidadosa podemos perceber que essas tecnologias fazem parte de nossas vidas há muito tempo. O processo de produção de pão, por exemplo, envolve o uso de fermento biológico, que nada mais é do que um ser vivo, a levedura Saccharomyces cerevisiae, uma espécie de fungo unicelular. Além do pão, a fabricação de vinhos e outras bebidas alcoólicas também são tecnologias que envolvem uso de seres vivos, portanto, biotecnologia.

Em que sentido, o termo biotecnologia nos remete a novidades? Isso ocorreu graças aos avanços em pesquisas envolvendo o DNA, material genético dos seres vivos. Por exemplo, em 2020, Emmnuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna ganharam o prêmio Nobel por desenvolver uma ferramenta de modificação do DNA genômico chamada CRISPR/CAS9, tecnologia esta que pode trazer mais novidades na biotecnologia. Com isso, conhecendo melhor o DNA, e com ferramentas para editá-lo, é possível criar formas de biotecnologia para enfrentar diversos problemas atuais em que a sociedade vive.

Formações em biotecnologia no currículo escolar (Colégio Jardim Anália Franco – SP)

Para conhecer melhor todas essas tecnologias, seus benefícios e os seus riscos, desenvolvemos, ao longo da eletiva, discussões que exploraram diversos temas. Essas discussões foram feitas por meio do uso de metodologias e recursos variados, que envolveram desde atividades lúdicas até leituras críticas de materiais publicados na internet. Em uma de nossas discussões, sobre os alimentos transgênicos, exibimos a palestra da pesquisadora Pâmela Ronald, onde é discutido o que são os transgênicos e o como eles podem trazer benefícios para a sociedade. Um caso muito importante é a criação do arroz dourado, um arroz transgênico desenvolvido para produzir vitamina A. Em mais de 80 países do mundo, muitas crianças em idade escolar desenvolvem doenças, como cegueira, exatamente pela deficiência desta vitamina. Assim, o arroz dourado pode ser um remédio para o problema (Moraes e colaboradores, 2009). Mas, infelizmente, a falta de conhecimento acaba trazendo uma série de dificuldades para o uso e estudo do arroz dourado.

Um aspecto muito importante a ser considerado na área de biotecnologia é a grande quantidade de fakenews e opiniões não técnicas disponíveis nas mais variadas mídias (De Azevedo Pedrosa, e Costa, 2020). Desta forma, na disciplina de Biotecnologia também trabalhamos aspectos argumentativos na identificação, seleção e veiculação de informações, permitindo com que os estudantes diferenciassem meras opiniões de um tema em contraposição à construção de fundamentações científicas, potencializando a sólida formação investigativa no universo escolar para a seleção de fontes confiáveis para as pesquisas. Na Educação Básica é fundamental formar cidadãos que não somente aceitem informações, mas que saibam analisar e pensar sobre elas. Nesse sentido, o ato de trabalhar com essa temática em sala de aula se faz tão necessário.

“A paz não pode ser mantida à força. Somente pode ser atingida pelo entendimento” (Einstein)

 

Além do senso crítico, os dilemas éticos da biotecnologia precisam sempre ser pensados e discutidos. Para tanto, diversos casos (reais e fictícios) foram oportunizados aos alunos, para debater até que ponto a biotecnologia é benéfica ao indivíduo e à sociedade. Em uma aula, por exemplo, exibimos um trecho do filme Gattaca, que traz uma sociedade distópica, onde testes de DNA são feitos nas pessoas para selecionar quem elas são e o que fazem.

No processo de desenvolvimento deste componente curricular, os estudantes estruturaram materiais de pesquisa que foram sistematizados em podcasts. Cada grupo, de 4 a 5 alunos, desenvolveu um podcast sobre um tema de escolha do grupo. Temas como vacinas, exames genéticos transgênicos, relação entre DNA e esportes foram abordados pelos grupos, todos por motivação própria dos estudantes. Após definição do tema, fizeram pesquisas e escreveram um script do podcast. Por fim, gravaram o arquivo em áudio informativo do tema. Nesse processo, além de aprender mais sobre o tema, desenvolver conhecimento de pesquisa e produção do podcast, também foi possível praticar o senso crítico e a busca de informações coerentes e confiáveis. Assim, colocando a mão na massa, os estudantes puderam aprender muito sobre o conteúdo proposto, assim como desenvolveram diversas competências e habilidades fundamentais para a vida.

Uso de podcast como estratégia pedagógica em sala de aula (Colégio Jardim Anália Franco – SP)

 

No Anália, buscamos preparar os estudantes para os desafios da vida. Como dito por Paulo Freire (2003, p.47), “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para sua própria produção ou a sua construção”. Dessa forma, é fundamental trabalhar o currículo das escolas para que os jovens criem e aprimorem competências para que sejam íntegros, investigativos e interativos, preparados para o mundo que os aguarda e sempre curiosos, não apenas aceitando informações, mas questionando e avaliando cada uma delas.

Profª Valquiria Pianheri Souza dos Santos

Doutora em Bioquímica (USP)

Docente do Colégio Jardim Anália Franco

 

Bibliografia

DE AZEVEDO PEDROSA, Stella Maria Peixoto; COSTA, Lucimar Ferreira. Biotecnologia, alfabetização científica e formação de professores face às urgências da educação contemporânea. Revista de Educação, Ciências e Matemática, v. 10, n. 3, 2020.

FREIRE, PAULO. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários para a prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 2003.

MALAJOVICH, MARIA ANTONIA. Biotecnologia 2011. Rio de Janeiro, Edições da Biblioteca Max Feffer do Instituto de Tecnologia ORT, p. 39-50, 2012.

MORAES, Milton Ferreira et al. Práticas agronômicas para aumentar o fornecimento de nutrientes e vitaminas nos produtos agrícolas alimentares. I Simpósio Brasileiro de Apropecuária Sustentável, Viçosa. Anais, UFV, p. 299-312, 2009.

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