Platão nos ensina o porquê de criarmos crianças pensantes, com auto estima e autonomia
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Platão nos ensina o porquê de criarmos crianças pensantes, com auto estima e autonomia

Bianca de Paula

15 de agosto de 2019 | 10h00

“Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semiobscuridade, enxergar o que se passa no interior.
A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os prisioneiros – no exterior, portanto – há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas.
Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam. Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna.
Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda luminosidade possível é a que reina na caverna.
Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria. Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade.
Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.
Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo. Mas, quem sabe, alguns poderiam ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidissem sair da caverna rumo à realidade.”

Na Alegoria da Caverna de Platão, pessoas são aprisionadas e, incapazes de enxergar o mundo real, percebem apenas sombras da realidade. Um dos prisioneiros consegue se libertar de suas correntes e vê, pela primeira vez, o mundo como ele realmente é.
Ele conta aos demais prisioneiros sobre o que viu, mas incrédulos e apenas com uma referência do mundo, as sombras, duvidam e caçoam dele. Esse mito pode ser compreendido como uma metáfora para o nosso mundo, onde os prisioneiros são as pessoas conformadas em suas certezas.
Aquele que se liberta representa os curiosos, os não conformistas, as pessoas que perguntam “Por quê?”.
Esse clássico texto pode nos ensinar muito sobre a necessidade de criarmos crianças conscientes e dispostas a sair de sua zona de conforto.
Uma criança que é criada sem poder explorar e desenvolver sua autonomia pode acabar sendo privada de explorar o mundo e as inúmeras possibilidades à sua volta.
Uma criação e educação que incentivam a autonomia, a confiança e a autoestima, por outro lado pode ser comparada à disposição do prisioneiro que criou coragem e decidiu explorar a vida fora da caverna.
Quando não desenvolvemos nossa autonomia desde cedo, pode haver um impacto direto sobre a confiança e a segurança que sentimos em nós mesmos, e assim, acabamos como os prisioneiros que decidiram permanecer, incrédulos, na caverna. Ou seja, preferimos nos manter em nossa zona de conforto (mesmo que de conforto ela não tenha nada). Na verdade podemos até chamá-la de “zona do hábito, ou zona do conhecido”.
Se queremos que nossas crianças possam escapar da caverna, precisamos sempre trabalhar na sua autoconfiança, e muni-las de ferramentas emocionais e de conhecimento.
Assim, elas podem desenvolver sua autonomia e terem a certeza de que podem explorar o mundo fora da caverna.
A educação e a autonomia libertam as crianças das correntes que as forçam a enxergar apenas sombras, as torna curiosas e independentes, possuidoras de um “eu” mas forte e protagonistas de suas próprias histórias.

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