Futebol (na) arte

Colégio Humboldt

30 Maio 2018 | 14h52

Ferreira Gullar afirmou que a arte existe porque a vida não nos basta. Para ele, negar a arte é como dizer que a vida é o suficiente. Uma frieza! Já pensou viver sem a música, por exemplo? Não que queiramos fugir da realidade, na verdade queremos vivê-la com mais intensidade. A expressão “futebol-arte” se refere a um futebol bonito. É claro, a arte nos remete, muitas vezes, à beleza, à catarse.

Essa categoria esportiva foi representada na arte em suas várias modalidades. No som, haja vista músicas como a do Skank Partida de futebol, ou Verde Amarelo do Roberto Carlos, e mesmo O Futebol de Chico Buarque. Sem considerarmos as dos grêmios ligados ao futebol, a teatralização e os temas de enredo de escola de samba, que trouxeram consigo várias vezes o mote futebol. Na dança, o futebol também foi representado no documentário Nós que aqui estamos por vós esperamos, cujo tema é um apanhado dos principais acontecimentos do século XX e em seu cerne, há o balé do americano Fred Astaire em contraponto com o futebol-arte do jogador Mané Garrincha. Na pintura, há, por exemplo, a produção da tela Futebol em Brodósqui de Cândido Portinari, que traz suas memórias de garoto interiorano.  Na escultura, não temos nada menos do que uma estátua na entrada da cidade de Três Corações para homenagear o filho Edson Arantes do Nascimento. Os cinéfilos não seriam deixados de lado! O filme O casamento de Romeu e Julieta poderia trazer qualquer outra divergência, mas escolheram o futebol. Trata-se de um corintiano que se apaixona por uma palmeirense, cujo nome “Julieta” não é uma apologia à personagem Shakespeariana, mas sim à junção dos nomes de dois ex-jogadores do Palmeiras: Julinho e Echevarrieta. Prática comum em época de Copa do Mundo. Muitas crianças são batizadas com nome de artilheiro de time! A antroponímia, ramificação da linguística, ciência que estuda os nomes de pessoas, explica esse fenômeno: os acontecimentos e as personagens influenciam nas escolhas, são nomes que ficam envoltos numa energia positiva, de esforços, de esperanças, de vitórias.

A literatura traz muitas obras cujo tema é o futebol. Em Quando É Dia de Futebol, Carlos Drummond de Andrade parte de observações sobre campeonatos, copas, times e personalidades das crônicas publicadas no antigo Jornal Correio da Manhã que migraram para livros. Nelson Rodrigues foi dramaturgo, mas também foi cronista esportivo, escreveu A pátria de chuteiras. Flamengo é puro amor, de José Lins do Rego, foi o primeiro autor brasileiro a escrever sistematicamente sobre o futebol. O cachorro que jogava na ponta esquerda de Luiz Fernando Veríssimo destrincha o futebol de rua. Além desses, há ainda outros cronistas futebolísticos que tiveram seus textos inicialmente publicados em Cadernos de Esporte, migrados para a coleção Para gostar de ler da Editora Ática. Todas essas obras ajudaram e ajudam a compor o painel social de uma época.

Vemos então que há muitos modos de se conhecer o mundo, que dependem da situação do indivíduo diante do objeto do conhecimento. A literatura, o cinema, as artes plásticas, a dança são formas de conhecer esse objeto “futebol”, pois cada pessoa desvenda o esporte a seu modo. A arte é fruto do trabalho humano, e no caso dos citados acima, humanos brasileiros, que abordaram esse esporte em suas obras, porque é um assunto do interesse geral, do universo cultural que vai continuar além do Campeonato Mundial.

 

Daniella Barbosa Buttler: Possui doutorado em Linguística Aplicada pela PUC-SP e é professora no Colégio Humboldt – Deutsche Schule. daniella.buttler@humboldt.com.br.