Exploração do trabalho humano: na arte e na vida

Colégio Humboldt

05 Março 2018 | 14h45

O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões.

Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo.

Monteiro Lobato (1923)

2018 é o ano do centenário de Urupês. Urupês é uma coletânea de contos e crônicas do escritor brasileiro Monteiro Lobato. Ele lança e inaugura na literatura brasileira um regionalismo crítico que denuncia as mazelas por meio de personagens tipicamente nacionais, como o Jeca Tatu, representado neste livro.

O conto “Negrinha”, também de Lobato, citado na epígrafe desse artigo, é uma narrativa em terceira pessoa, impregnada de uma carga emocional muito forte.   Retrata uma época marcada pelo preconceito racial, a personagem-título é filha de uma escrava e passa a ser criada por D Inácia, uma rica escravocrata. A partir daí e da epígrafe, o enredo é previsível!

O trabalho escravo já foi representado em várias modalidades da arte, Manuel Bandeira também o abordou bravamente no poema “Os meninos carvoeiros: “Passam a caminho da cidade. – Eh, carvoeiro! E vão tocando os animais com um relho enorme”. Em “Meninos carvoeiros”, a infância aparece sob uma perspectiva bastante diferente daquela ideal, a pobreza e o trabalho infantil aparecem de modo direto e intenso. Cândido Portinari também gostava de abordar temas relacionados aos menos favorecidos. A tela Cana-de-açúcar acentua o sofrimento dos ainda escravos da época.

Em uma aula de língua portuguesa ou de comunicação é comum recorrermos à arte, seja ela literatura, cinema, artes plásticas e também a notícias. São linguagens! Infelizmente, esse tema é tão atual que até foi representado na sétima arte, em um filme nacional, em 2013: “Crô”! Uma comédia em cujo enredo há uma exploradora de imigrantes bolivianos em terras brasileiras.

Para quem pensava que trabalho escravo era tema tratado somente nos livros de história ao estudar história do Brasil-Colônia, precisa saber que condição análoga à escravidão é tão atual que pode estar acontecendo neste instante em lugares inimagináveis. Não é raro ver em pleno século XXI, em notícias, como dito acima, pessoas que ficam à mercê da marginalização. Não se trata necessariamente mais daquele escravo acorrentado. Em muitos casos, os trabalhadores são forçados a dormir ao relento ou em contêineres, não têm banheiros e bebem água não filtrada de rios. A indústria da moda, por exemplo, possui muitas marcas que combinam a exploração da mão de obra com o incentivo ao consumo desenfreado.

Somente a exposição desses fatos, políticas de intervenção e mobilidade social farão com que essa infeliz realidade, em pauta nos noticiários, possa ser combatida. E quem sabe o trabalho escravo seja considerado algo para ser estudado nos livros como situação impensável para sociedade atual.

Michelle Silva Gonçalves é aluna do curso de Processos Gerenciais – DUAL no Colégio Humboldt e Daniella Barbosa Buttler é professora de Língua Portuguesa do mesmo curso.