Do boi voador, agudás e outras histórias

Colégio Humboldt

20 de maio de 2019 | 15h11

Sempre que apresentado em sala de aula, o conteúdo de História do Brasil é recepcionado por muitos com um certo receio e não são poucos os que não expressam um ânimo em aprender ou prosseguir com esse conhecimento.

Muitos estudantes estão absortos em assuntos de grande produção cinematográfica e heróica, como a Segunda Guerra Mundial, e tendem a ver a História de seu próprio país com a clássica torcida de nariz, que enxergam primariamente como composta de “heróis” oficiais e processos complicados de compreensão política.

Dito isto, das causas que levam os alunos a praticarem uma má receptividade à História do Brasil – que também é a sua própria, fica um certo receio de que talvez à maneira como ela é apresentada nos livros e em sala de aula falta o encantamento de mostrar a riqueza de nosso passado e, de compreender que, abaixo da linha do Equador, o mágico do realismo, tão bem explorado pelos escritores latinos, nada mais é que a própria realidade de fato. Não se dissocia fantasia de realidade e, por mais que pareça estranho, elas convivem em harmonia.

Como não se encantar com a primeira grande galhofa de nossa História? Ainda no século XVII, estando o nobre holandês Conde Maurício de Nassau governando o Brasil (grande parte do Nordeste esteve ocupado pela Holanda de 1630 a 1654), este se viu envolto com dívidas muito altas devido às melhorias na cidade do Recife, como a construção de canais, os empréstimos a senhores de engenho, a tentativa de destruição de Palmares (sim, o quilombo já existia no interior das Alagoas) e as construções faústicas na cidade Maurícia (hoje parte da cidade do Recife) como o Palácio de Friburgo e da Boa Vista. Então, mandou construir uma ponte que ligasse a cidade a seus palácios, cobrando pedágio pela travessia. Mas, não encontrou, entre os moradores, quem desejasse pagar para chegar ao outro lado. Assim, ordenou anunciar entre todos da grande cidade comercial que quem atravessasse ao outro lado, teria a oportunidade de ver um boi voar. A imaginação e o espanto de se presenciar tal fato mágico fez a população acorrer à Ilha Maurícia, para isso pagando o pedágio em duas etapas, na ida e na vinda. Se realmente presenciaram o fato, cabe a imaginação de cada um, visto que um couro de boi foi inflado com palha seca e através de um sistema de corda corrediça, este correu do alto das torres do castelo. Certo que não se pode desmentir os presentes da época, que juraram que o boi voou. Quanto a Nassau, este embolsou 1800 florins.

E o que falar dos agudás e da História de sua trajetória de regresso. Definem-se agudás descendentes de africanos escravizados que retornaram à África após o fim da escravidão, por vontade própria ou à força como maneira de se diminuir o percentual de negros livres na sociedade à época. Muitos desses que regressaram mantiveram hábitos que eram praticados na sociedade brasileira, além de proliferar na região da África Ocidental e Central muitos dos sobrenomes comuns desse lado do Atlântico como Almeida, Souza e Silva.

Soma-se a essas pequenas Histórias o dia 2 de julho de 1823, importante feriado baiano, quando se comemora a chamada emancipação desse estado com a expulsão completa das tropas portuguesas do território brasileiro, consolidando a Independência de fato. Talvez, menos divulgado que essa independência, seja a luta de uma mulher que, proibida de lutar pelo seu pai, cortou o cabelo, vestiu-se de homem e lutou disfarçada contra as tropas lusas que resistiam deixar Salvador. Maria Quitéria, heroína baiana, é importante personagem para se entender a maneira como as mulheres eram relegadas em ações históricas na sociedade brasileira até então. Tal feito heroico não a alçou a admiração, mesmo sendo recebida por D. Pedro I, que a condecorou com Imperial Ordem do Cruzeiro, sendo somente reconhecida como Heroína da Pátria Brasileira em 2018.

Muitas histórias têm sido resgatadas não só pelo trabalho sério de historiadores, mas também por uma estabilidade democrática no nosso país que este ano já soma 34 anos. Entre muitos dos trabalhos de pesquisa histórica, vale confidenciar a importância da Conjuração dos Alfaiates, também conhecida como Inconfidência Baiana (1798), muito mais importante que a Mineira (1788) no sentido de defender o fim da escravidão e de estabelecer a construção de uma República mais inclusiva a exemplo da República Jacobina dentro da Revolução Francesa. Desejo, esse, que os inconfidentes mineiros não expressavam, apenas uma república baseada nos ideais norte-americanos de democracia restritiva em participação popular.

Muitas são as ações dos professores da Área de Humanas no sentido de encantar os alunos e trazerem a si a reflexão da importância da compreensão do nosso passado. A exemplo do flautista de Hamelin que enfeitiçou as crianças, nossa função não está em trancá-las numa caverna, mas sim, no oposto, libertá-las de lá. Muito menos esperamos deixar a cidade de Hamelin com sua bonança, celeiros cheios e comerciantes fartos protegidos em muralhas, mas embebidos num silêncio ensurdecedor, buscamos o contrário, um barulho tão grande que se façam ouvir todas as vozes que compõem e ajudam a construir a História do Brasil.

Alfredo Tiago Oliveira Santos, professor de história no Ensino Fundamental II do Colégio Humboldt e pós-graduado em história

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