A tragédia da história nacional

Colégio Humboldt

15 Outubro 2018 | 10h58

“Mais lembranças tenho eu do que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo. E também: Meus sonhos são como a vossa vigília. E também, até a aurora; Minha memória, senhor, é como depósito de lixo.”

Jorge Luís Borges (Funes, o Memorioso)*

 

O escritor argentino Jorge Luís Borges no conto Funes, o Memorioso apresenta um personagem que tem uma memória prodigiosa, já que se lembra de todos os fatos que vivenciou, e, além de todos os diálogos, consegue descrever o contexto em que foi vivido.

 

Diante do prodígio de sua memória, resolve então escrever, catalogando suas lembranças, detalhe por detalhe. Após alguns anos, chega à conclusão que tal tarefa hercúlea é impossível e que, para lidar com o passado, é necessário selecionar.

 

Ora, se tudo que vivenciamos e produzimos ao longo de nossas vidas fosse preservado e catalogado, não seria possível existir o mundo tal qual o conhecemos e muito menos interpretá-lo. Da conclusão de Funes entendemos como são formados os museus, pela seleção de temas, períodos e personagens. O recorte de uma época e uma sociedade que são expostos nestes espaços, nos levam a compreensão do todo, mesmo sem tê-lo na íntegra. Esses depósitos da memória seletiva é que reconstroem e levam a reflexão de tempos passados, mas nunca distando de uma análise da sociedade contemporânea em que são espelhados.

 

Certo que a seleção propicia a evocação de uma história oficial, uma história dos vencedores com o silenciamento dos vencidos, uma história-estatal. Mas vale lembrar que, desde a redemocratização no Brasil, tal história vem sendo questionada – colocada sob a luz da crítica, do diálogo e do resgate da memória não-oficial – tem e continua produzindo outros fragmentos de história que pluralizam a interpretação do passado.

 

O incêndio do Museu Nacional não foi apenas a destruição de um material físico, carbonizou-se grande parte da memória nacional. A pulverização de objetos levou junto correntes de pensamento sobre nosso passado, já tão pouco preservado e, manteve a tradição do desleixo do poder público em preservar ou reconhecer nosso legado.

 

Tal crime de destruição da memória é recorrente em nossa história, o passado é visto como velho, como defensor e propagador de memória atrasada e muitos são os movimentos que lutam contra a agressão que insiste em apagá-lo. Se destrói o passado todo o tempo com o argumento de que o novo deve imperar, ora, estes não competem em si, mas se sustentam já que não se sustenta nada em cima do nada.

 

A própria Revolta da Vacina (1904), na então Capital Federal, era mais uma reação às arbitrariedades do governo em remodelar o Rio de Janeiro republicano ao modelo francês e ao apagar de uma memória colonial que carregava uma interpretação ainda colonial-imperial. A mesma República, ávida por construir o novo em cima do velho, optou por destruir todos os arquivos de cartórios relacionados à escravidão, queimando-os.

 

Pilhas e pilhas de cartas de propriedade, herança, transferência, hipoteca e alforria foram incendiadas por causa do temor de que os escravos libertos processassem o Estado e fossem indenizados. Ora, qual o problema do pagamento indenizatório devido a quem teve reduzida sua condição humana a de propriedade por regime jurídico legitimado pela figura arbitrária do Estado? Na alegação, o ministro Rui Barbosa, a época, louvou a ação argumentando que tal passado deveria ser esquecido, como se fosse possível não visualizar as eternas cicatrizes da escravidão.

 

Logo após a consumação da queima, o então deputado Francisco Coelho Duarte Badaró (MG), protestou contra tal ato afirmando que “A nossa vida é nova, mas precisamos ter a nossa história escrita com provas verdadeiras. Pelo fato de mandar queimar grande número de documentos para a história do Brasil, a vergonha nunca desaparecerá, nunca se poderão apagar da nossa história os vestígios da escravidão”.

 

Hoje, podemos lamentar, a mesma maneira de Badaró, o quanto as gerações futuras estarão alijadas de conhecimento e principalmente de identificação com a história do Brasil outrora depositada no acervo do prédio e ora reduzida a cinzas. Tanto quanto mais formos relapsos com os documentos de nossa história, mais e mais, teremos alunos mais aficcionados em história da Europa e de outros países que na sua própria história.

 

Não se trata de reduzir a história de outros países, mas de descobrir a nossa, de buscar uma compreensão que está mais arraigada em nosso território que além do Atlântico. Que, no continuar da estruturação democrática iniciada há pouco mais de três décadas, se possa continuar estimulando o resgate da nossa memória histórica, não como Funes em sua escrita utópica, mas, muito além do descaso com que foi tratado o Museu Nacional, descaso este que culminou com o incêndio no último dia 2 de setembro. É-nos permitido protestar, aliás é-nos vedado o silêncio diante de tal crime!

 

*BORGES, Jorge Luís. Funes, o Memorioso. Tradução de Marco Antonio Franciotti. Disponível em: . Acesso em 1 de outubro de 2018. 22:10:12.

 

Professor Alfredo Tiago Oliveira Santos, professor de história no Ensino Fundamental 2 do Colégio Humboldt e pós-graduado em história