Por que brincar com o outro é importante para o desenvolvimento infantil?

Por que brincar com o outro é importante para o desenvolvimento infantil?

Espaço da Vila

04 de julho de 2019 | 14h11

Cena 1

 

Três meninas, em torno de três anos, estavam brincando na areia, enchendo potes para preparar um bolo, quando começaram o seguinte diálogo:

– Quando eu era pequena, eu morava na minha barriga da minha mãe, eu tomava o umbigo dela!

– Eu também! Sabia eu tava neném! Eu fazia, sabe uma coisas? Bigo! A minha mãe me dava papá! Eu chorava… – falou outra.

– Eu também chorava, na minha barriga da minha mãe! – complementou a primeira.

 

Cena 2

 

Dois meninos, de um ano e quatro meses, estavam sentados lado a lado e tinham à disposição um tubo de papelão e algumas bolinhas plásticas de uns seis centímetros de diâmetro. Então, um deles pegou o tubo e começou a colocar bolinhas dentro. O outro logo se aproximou e começou a fazer o mesmo, mas as bolinhas saiam pelo outro lado. O primeiro menino virou o tubo para evitar que as bolinhas caíssem, enquanto o outro continuou colocando outras dentro. Mesmo não tendo sucesso em manter as bolinhas dentro do tubo, nenhum dos dois desistiu em continuar enchendo-o. Trocaram olhares e balbuciaram, como se estivessem conversando e partilhando suas descobertas.

 

Cena 3

 

Duas meninas, em torno de dois anos, se aproximaram uma da outra e sorriram. Uma delas, levantou a blusa e mostrou a barriga, a outra também levantou a sua e encostou a barriga na da amiga. Elas começaram a rir e mostrar seus umbigos. Passaram alguns segundos assim, entre encontrões, toques e risadas, até que perceberam que o vento estava balançando as folhagens das árvores e seus cabelos e começaram a “fugir do vento”.

Estas três cenas são bastante singelas e podem passar despercebidas, se ninguém der notabilidade a elas. Isso acontece diariamente e, à princípio, não é um problema se não forem notadas. O problema existe, se as crianças não tiverem oportunidades de brincar livremente, se não puderem, a partir de encontros circunstanciais, partilhar de uma mesma experiência, descoberta ou brincadeira, se não tiverem oportunidade de estabelecer trocas ou conversar sobre assuntos que as mobilizam.

As crianças estão ingressando no mundo e a todo tempo se deparam com situações que as intrigam. Vão em busca de respostas, criam hipóteses, testam-nas, confirmam algumas, deparam-se com situações inusitadas, buscam outras soluções, encontram respostas provisórias.

Ao lado de outras crianças, em diálogos corporais, gestos, sorrisos, trocas de olhares vão percebendo o que conseguem fazer, dão-se conta da regularidade de alguns fenômenos, entram em contato com outros modos de entender um mesmo fenômeno e outras soluções para os problemas. Percebem que, em companhia, algumas dificuldades podem ser enfrentadas de modo mais tranquilo e que é possível ajudar, quando percebem que o colega está precisando.

As relações que as crianças estabelecem entre si, são de natureza diferente das estabelecidas entre adultos e crianças. Existe uma simetria no modo de pensar, o que favorece a possibilidade de estarem sob o mesmo ponto de vista.

Na cena 1, as meninas falaram sobre suas hipóteses a respeito de suas origens, sobre sua existência antes de nascer, sobre os cuidados maternos, recebidos desde a gravidez. Cada uma falou da “sua barriga da sua mãe”, como forma de deixarem evidentes suas singularidades. Trocaram informações que ao longo de suas vidas serão revisitadas de muitas maneiras, pois todos nós queremos saber de nossa origem, como nascemos, qual a nossa história inicial.

Na cena 2, os meninos tiveram a oportunidade de trocar informações sobre características dos objetos: alguns que contém e outros que são contidos e que alguns objetos não “respondem” a esta categoria, embora pareçam pertencer. Quantos conhecimentos sobre o mundo físico são notados nesta breve cena? Que a inclinação do tubo poderia impedir a saída da bola, ou que muitas bolas juntas poderiam “travar” a saída pela parte inferior do tubo, são duas delas. Pouco importa se as respostas às ações não foram as esperadas, vale ressaltar que enquanto buscavam conjuntamente manter as bolas dentro do tubo, os dois foram ajustando suas ações, sem desistirem ou se mostrarem incomodados por não terem êxito em suas tentativas.

Na cena 3, as meninas divertiram-se com descobertas sobre o próprio corpo, com a coincidência de as duas terem barrigas e umbigos! Depois, ao esgotarem esta novidade, notaram que o mesmo vento que balança as folhas, balança também os seus cabelos. Descobrindo então, semelhanças entre seus corpos e que um mesmo fenômeno pode produzir sons e sensações, que neste caso foram agradáveis para as duas.

Num mesmo dia, as crianças vivenciam inúmeras experiências que as ajudam a compreender o mundo que as rodeia, assim como suas sensações (de prazer ou de desprazer) e as relações que estabelecem com as demais pessoas. E, quando têm a oportunidade de estar entre seus pares estabelecem trocas e fazem inúmeras aprendizagens que talvez, sozinhas não fizessem ou demorariam mais tempo para fazer.

Recomendo aos adultos que se dedicam aos cuidados com as crianças, sejam educadores ou educadoras, pais ou mães, cuidadores ou babás, avôs ou avós, que se atentem para algumas destas cenas singelas e muitas vezes fugazes, que acontecem nos encontros entre as crianças, pois não somente elas, como todos nós, aprenderemos cada vez mais sobre o mundo, as sensações e as relações. Que acham?

Ana Paula Yazbek

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