Os comportamentos, os conflitos e as inadequações na infância

Os comportamentos, os conflitos e as inadequações na infância

Espaço da Vila

11 de abril de 2019 | 12h14

Existe, ou pelo menos deve existir, alguma dose necessária de frustração, sofrimento e angústia, inevitáveis ao crescimento

Prof. Marcos Santos Mourão (Marcola)

Há vinte e oito anos trabalhando com crianças, tenho presenciado muitas situações de conflitos, seja nas minhas atividades de Educação Física, ou nas aulas de capoeira. A infância, ao contrário do que se propaga por aí, definitivamente não é somente um mundo de alegria, encantamento, pureza e inocência. Existe, ou pelo menos deve existir, alguma dose necessária de frustração, sofrimento e angústia, inevitáveis ao crescimento. Cabe a nós, adultos, nos papéis de educadores e famílias, auxiliarmos as crianças a lidar com os conflitos e frustrações do dia a dia.

As conversas e as orientações que damos a elas, aos poucos devem ir ajustando suas ações e comportamentos. Seria muito simples se os manuais de educação de filhos funcionassem como dizem os seus autores, mas, na vida real, cada criança é única e responde ao mundo de forma bastante peculiar. Quem exerce a função de pai ou de mãe de mais de uma criança sabe bastante sobre isso.

Aliás, antes que esse texto seja lido como uma crítica às famílias, quero esclarecer que em sua maioria cuidam muito bem da educação de seus filhos, estão efetivamente presentes no dia a dia, são próximas, afetivas e colocam os limites necessários.

No entanto, se há algo que pode influenciar negativamente as crianças são os exemplos que elas observam no comportamento dos adultos com os quais convivem e a falta de intervenções adequadas no momento certo. Recentemente, conversando com amigos, fiquei impressionado com duas histórias. A primeira acontecida numa festinha de crianças de quatro anos de idade, de uma escola de alta classe da cidade de São Paulo. Em determinado momento da festa, elas aguardavam o show de mágico começar. Subitamente, uma criança se levanta, e diz indignada a um adulto: “como é que é? Vai demorar muito? O meu tempo é precioso demais pra ficar aqui esperando!”.

Pelo que soube, as pessoas, ali presentes, não fizeram nenhuma advertência ou correção à fala desrespeitosa dessa criança. Talvez por inibição ou por acharem que ela, de certa maneira, sempre tratada de forma tão VIP, tivesse um pouco de razão.

A segunda história aconteceu num clube de elite, também em São Paulo, com crianças um pouco maiores, com idade de aproximadamente treze anos. Um jogo de futebol feminino estava prestes a começar e um menino insistia em ficar dentro do espaço reservado às jogadoras. Educadamente, um senhor pediu que se retirasse. O menino insistiu em ficar, se dispondo a ser gandula, o que lhe foi negado. Inconformado com a situação, ele se dirigiu ao adulto de forma desrespeitosa, dizendo: “você sabe com quem está falando? Você sabe quem é o meu pai? Qual seu nome? Isso não vai ficar assim”. O adulto respondeu calmamente que conhecia seu pai e ordenou que saísse de campo.

Algo muito grave acontece quando vemos crianças querendo intimidar ou constranger adultos. Definitivamente, não entenderam que são eles, os adultos, quem decidem e controlam as situações. Qual é a noção de tempo e de espera para uma criança de quatro anos externar que o seu tempo é precioso? No cotidiano desta criança será que cabe a ela alguma dose de tédio, de desejar, mas não conseguir algo no exato momento?

Qual a reação que o menino esperava de seu pai? Que ele fosse tirar satisfações com o senhor que não o deixou ficar no campo? Que, se fosse um funcionário do clube, sofresse alguma sanção ou demissão?

Prefiro acreditar que nenhuma das duas crianças tiveram a noção do quanto suas falas foram arrogantes e desrespeitosas e que, provavelmente, elas surgiram da observação de situações vividas e observadas dos adultos ao redor. No entanto, com o passar dos anos, caso não ocorram intervenções que revertam esses comportamentos, a tendência é que essas crianças internalizem e naturalizem essas ações, levando-as para as situações da vida adulta. Como bem disse uma das mães ao ver a reclamação da criança sobre o atraso na festa: “nossa, acho que os futuros chefes dos nossos filhos devem estar aqui”.

Mestre e especialista em capoeira para crianças,Marcola é um dos pioneiros no ensino dessa modalidade em escolas da cidade de São Paulo.

Formado em Educação Física pela Universidade de São Paulo (EEFEUSP), atua com formação de professores pelo Centro de Formação da Escola da Vila há vinte e cinco anos. Desde 2013, trabalha como selecionador do Prêmio Educador Nota Dez, da Fundação Victor Civita. No Espaço é responsável pelas propostas de corpo e movimento para as crianças pequenas, desenvolvendo projetos e metodologias voltadas para a faixa etária de 1 a 4 anos. Na Escola da Vila dá aulas de Educação Física nos anos iniciais do Ensino Fundamental.

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