Educar: tarefa que envolve encontros e desencontros – Parte 1

Espaço da Vila

23 Novembro 2018 | 17h32

Um dos pontos importantes para educar uma criança é entender porque elas agem de determinadas maneiras – que os pais consideram inadequadas. Isso pode ajudar muito no trato diário com as crianças.

Por Ana Paula Yazbek

 

Educar nunca foi tarefa fácil. Nestes últimos dias, pais e mães de diferentes crianças me procuraram para relatar as dificuldades que têm enfrentado com elas. Um pai contou que sua filha chorou da hora que acordou até a hora de vir para o Espaço da Vila. Outra mãe contou que sua filha tem ficado muito brava por motivos diversos, muitas vezes por situações que parecem tolas, chegando a arremessar objetos no chão. Um outro pai queria notícias de como o filho estava se comportando no Espaço, pois em casa está muito irritado, chora ao ouvir qualquer tipo de negativa e, às vezes, reage tentando bater nos pais.

Podemos destrinchar essas manifestações das crianças em alguns pontos: o primeiro diz respeito aos motivos delas agirem dessas maneiras; outro, relacionado ao que pode desencadear tais reações e, ainda, sobre como agir de modo a modificar tais comportamentos.

birra

Neste primeiro texto, vamos tentar elencar o primeiro ponto de vista, sobre o porquê de as crianças agirem como agem quando são contrariadas:

Os bebês, ao nascerem, relacionam-se com o mundo de forma sensorial e precisam de um adulto que se dirija a eles e ofereça-lhes cuidados, atenção, alimento, abrigo, toques, olhares e palavras, para garantir sua sobrevivência. É preferível que este adulto aja de modo gentil, delicado e acolhedor, para que o bebê se perceba como alguém bem-vindo ao mundo e que o mundo é um lugar confiável e agradável de se estar.

 

Distantes emocionalmente da cena de uma criança reagindo intempestivamente, pode-se considerar bastante legítimo, sob seu ponto de vista, que atuem desta maneira.  Mas o filhote humano precisa se haver com a socialização, com a partilha, com a adequação de suas ações, e aí entra a tarefa tão complexa da educação.

Entretanto, por mais zelosos que sejam os adultos que se dedicam a cada bebê, eles vivenciam situações de desconforto ligadas ao próprio corpo – fome ou sensação de barriga muito cheia, frio ou calor, dor, sono, sede, gazes – e também ao ambiente – barulho, agitação, luminosidade, vertigem. E, sozinhos ou com a ajuda de um adulto, enfrentam estes desconfortos, lidando assim com os diversos prazeres e dores ligados às percepções.

À medida que crescem, as crianças começam a perceber que podem ter o controle de parte destas sensações. Com uma possibilidade maior de se fazer entender pelos gestos, feições, gritos, choros e palavras, conseguem comunicar seus desejos e necessidades e, com isso, lidam constantemente com situações de êxitos em se fazer entender. Isto é, se têm sede, conseguem sinalizar que querem água e recebem um copo de água. Assim, vão acreditando que “basta” falar para o que desejam prontamente aconteça.

Ocorre, entretanto, que esta ilusão não se concretiza na realidade, pois há coisas que são perigosas, outras que são inadequadas e muitas que são incompreensíveis aos adultos.

Com o desenvolvimento, as crianças passam a ter maior controle também sobre as sensações de frio/calor, fome/saciedade, sono/disposição e, assim, passam a querer decidir sobre agasalhar-se ou não, comer ou não comer, dormir ou não dormir. Porém, os critérios que usam para fazer estas escolhas fogem à lógica do adulto sobre o que a criança precisa fazer. Por exemplo, sob o ponto de vista da criança, duas colheradas de comida podem ser suficientes para saciar a fome momentânea, não importando se, em menos de 20 minutos, voltará a ficar com fome. As crianças pensam no agora, não dão conta de antecipar o que irá acontecer logo em seguida e, mesmo que os adultos tentem explicar passo a passo o que irá acontecer caso não coma o suficiente, se a sensação de fome passou, podem acabar se recusando a continuar comendo.

Além disso, o próprio ambiente pode responder de modo contrário ao que a criança deseja, como quando querem colocar um short e está muito frio, querem brincar com determinado brinquedo, mas ele quebrou…

Assim, passam também a lidar com os sentimentos vinculados ao fracasso e à frustração de não poderem realizar algo que desejam, e a depender da circunstância, reagem intensamente às contrariedades.

Distantes emocionalmente da cena de uma criança reagindo intempestivamente, pode-se considerar bastante legítimo, sob seu ponto de vista, que atuem desta maneira.  Mas o filhote humano precisa se haver com a socialização, com a partilha, com a adequação de suas ações, e aí entra a tarefa tão complexa da educação.

Mas isso fica para o próximo texto.

 

Veja essa e outras matérias no blog do Espaço da Vila  e em nosso canal no Youtube.

Saiba mais sobre o Espaço da Vila e nosso site , no Facebook e no Instagram.

*imagem: Pixabay

 

 Ana Paula Yazbek é pedagoga formada pela Faculdade de Educação da USP, com especialização em Educação de Crianças de zero a três anos pelo Instituto Singularidades; iniciou mestrado na FEUSP em 2018 e​ é sócia-diretora do Espaço da Vila, berçário que atende crianças de 0 a 4 anos; trabalha com formação de professores desde 1995 e desde 2002 está voltada exclusivamente aos estudos sobre as crianças pequenas.