Desenvolvimento infantil: Conversas sobre uma mochila esquecida

Espaço da Vila

04 Junho 2018 | 16h34

No dia a dia, diversas situações que passamos com as crianças nos escapam, mas  estão fazendo parte do desenvolvimento infantil. Analisando a história abaixo, fica claro como um trabalho pedagógico pode fomentar nelas, de forma decisiva, aspectos como a autonomia, vocabulário, construção de vínculo, pertencimento e identidade

Por Ana Paula Yazbek

 

Neste post vou relatar uma cena que me fez pensar sobre como os princípios e objetivos do trabalho com as crianças pequenas em relação ao desenvolvimento infantil transparecem no dia a dia e, se não tomarmos cuidado, acabamos não conseguindo enxergar o que há por trás de ações que podem parecer triviais.

Num final de período, eu estava me deslocando do parque a caminho de meu escritório, quando um menino de 2 anos e sete meses me parou para mostrar uma mochila que ele supunha que um colega tivesse esquecido:

– Ana espere! Olha, aqui está a mochila do meu amigo, eu acho que ele já foi embora. Aqui também tá a bolsa da mãe dele!

desenvolvimento infantil

Ações diárias podem parecer triviais, mas incidem decisivamente no desenvolvimento infantil

Como era um lugar que normalmente não guardamos as mochilas, eu olhei ao redor e não vi nem a criança, nem a mãe, e achei que, na correria, a mãe tinha esquecido a mochila com a bolsa. Então, eu peguei-as, disse-lhe que ia tentar ver se ainda estavam na porta ou iria telefonar para casa deles. Mas antes de sair, o menino me interrompeu e me instruiu sobre o que fazer:

— Não, Ana! Precisa dizer que tava no lugar errado e aí você fala com ela e depois você diz, “tchau e de nada”!

Qual leitura eu faço desta cena?

As ações acima denotam que ele é uma criança que conhece o funcionamento do Espaço da Vila. Sabe quem são as pessoas que chegam, quem vai embora, conhece o que pertence às crianças com as quais ele convive e entende alguns códigos – que uma mochila acompanhada de uma bolsa indica a presença de uma mãe e, ao notar que estes objetos estavam num local pouco usual de guarda, supôs que alguma coisa poderia estar acontecendo e que os donos precisariam ser informados. Ao me ver e conversar comigo, mostrou saber que eu seria a pessoa que poderia dar um destino para estes objetos, afinal, ele me vê circulando e conversando com as famílias (inclusive com a sua mãe), sabe que eu sou uma pessoa que me relaciono tanto com as crianças como com as famílias. Mostrou também uma preocupação com a boa educação que era informar a pessoa que as bolsas estavam perdidas e que existe uma norma relacionada ao agradecimento quando a gente conversa com alguém e dizemos “de nada”. Por fim, mostrou que ele se importa com algo que pertence ao outro.

Mas antes de sair, o menino me interrompeu e me instruiu sobre o que fazer:

— Não, Ana! Precisa dizer que tava no lugar errado e aí você fala com ela e depois você diz, “tchau e de nada”!

Isto me faz pensar o quanto que num cotidiano que é significativo para as crianças este tipo de coisa acontece. Se ele estivesse restrito ao espaço de uma sala de aula, tendo que repetir jargões, palavras prontas, completar o discurso que a educadora sugere; se houvesse restrição para a circulação e presença de pais e mães; se os pertences das crianças fossem iguais, seria muito difícil que uma situação como esta acontecesse.

Outra reflexão que surge é que este tipo de interação muitas vezes é pouco notada mas, ao analisá-la, percebemos todo o trabalho sutil que acontece ao longo do dia a dia, que ilustra alguns pontos bastante significativos para a maior parte dos projetos pedagógicos, como construção de vínculo, autonomia, pertencimento, identidade, vocabulário, e muito mais, pois (ainda bem) tem muitas coisas nos escapam,  principalmente às que estão no âmbito do imaginário infantil. Mas isto será assunto para outro post.

 

* Ana Paula Yazbek é pedagoga formada pela Faculdade de Educação da USP, com especialização em Educação de Crianças de zero a três anos pelo Instituto Singularidades; iniciou mestrado na FEUSP em 2018 e​ é sócia-diretora do Espaço da Vila, berçário que atende crianças de 0 a 4 anos; trabalha com formação de professores desde 1995 e desde 2002 está voltada exclusivamente aos estudos sobre as crianças pequenas.

 

Veja essa e outras matérias no blog do Espaço da Vila.

Saiba mais sobre o Espaço da Vila e nosso site e no Facebook.