Superação e iniciativa podem mudar sua vida

Superação e iniciativa podem mudar sua vida

Andrea Tissenbaum

28 de abril de 2020 | 08h42

Artur Barbosa no campus de Stanford - abril de 2020 | Foto: Artur Barbosa

Artur Barbosa no campus de Stanford – abril de 2020 | Foto: Artur Barbosa

Estudante da rede pública, Artur Barbosa hoje é bolsista integral em Stanford e permaneceu na universidade, apesar do coronavírus.

O paulistano Artur Barbosa, 20 anos, é bolsista integral na graduação da prestigiada Universidade de Stanford desde 2019. A conquista extraordinária, fruto de muita persistência e uma iniciativa pessoal surpreendente, é resultado de experiências que o levaram a “driblar” dificuldades desde cedo e nunca perder a vontade de mudar sua vida.

Estudante da rede pública, Artur não teve uma vida fácil. Quando tinha nove anos, sua família passou por uma falência financeira que forçou todos a serem criativos e encontrar novas maneiras de ganhar dinheiro. “Nós mudamos para o Espírito Santo porque a vida era mais barata lá. Minha mãe fazia as melhores coxinhas do nosso bairro antes da mudança, então tivemos um começo aparentemente promissor. Ela fazia as coxinhas enquanto meu pai e eu as vendíamos nas ruas”, explica o jovem.

Dois anos depois, a família retornou à São Paulo. Aos 17, com a morte de seu pai, Artur precisou dar um novo rumo à sua vida. Ainda quando estudante da ETEC Martin Luther King, localizada no Tatuapé, zona leste de São Paulo, ele já pensava em seu futuro. “Na época que fui para a ETEC, fiz um estudo sobre quais profissões remuneravam bem no futuro. Quando sua família não tem recursos isso é uma questão importante. Pensei em Engenharia Civil, mas acabei me encantando pela Computação e me especializei em Administração. No final do primeiro ano da ETEC, descobri que havia a possibilidade de estudar fora e decidi que queria fazer isso, mas como não sabia inglês, fiquei bem perdido. Então, no segundo ano, me dediquei a estudar o idioma pela internet. Criei um método próprio e saí da estaca zero em pouco tempo. Avancei tanto que consegui me candidatar e ser aceito em um programa de verão sobre Design Thinking em Stanford, com bolsa completa. Soube da oportunidade através de um amigo que, na época, foi meu mentor. Então, depois de fazer uma vaquinha online para comprar as passagens, fui para Stanford em julho de 2017”.

Artur conta que a experiência foi especial. “Não só o curso era excelente, como essa era minha primeira vivência internacional e percebi que meus esforços para estudar fora estavam se tornando uma realidade. Até então, em casa, ninguém acreditava muito em mim. Foi só a partir dessa conquista que a ideia de poder estudar no exterior ficou mais real para todos”.

Assim que terminou o programa de verão, Artur conseguiu uma bolsa com um professor de Stanford e trabalhou à distância até a metade 2018. “Eu tinha um projeto pessoal, de Learning Management System, para gerenciar uma sala de aula e a bolsa me ajudava a testa-lo com os alunos em uma escola nos EUA. O projeto gerenciava a parte operacional envolvida em cursos do ensino fundamental e médio. Toda a operação dos professores era colocada em uma plataforma que dava aos alunos acesso à informação”.

Artur Barbosa com sua turma do Oportunidades Acadêmicas EducationUSA | Foto: Daio Hofmann

Artur Barbosa com sua turma do Oportunidades Acadêmicas EducationUSA | Foto: Daio Hofmann

No terceiro ano do ensino médio, Artur mergulhou nos estudos e em seu projeto de fim de curso. “Queria estudar no exterior, mas não havia conseguido nenhum suporte para minha candidatura. Decidi então que não ia fazer meu application naquele momento e fui trabalhar. No ano seguinte, 2018, corri atrás de apoio e fui aceito nos programas Oportunidades Acadêmicas do EducationUSA e BRASA PRE, que oferecem mentoria, tradução de documentos e pagam as taxas dos exames e de inscrição nas universidades.

Me dediquei integralmente à candidatura. Nós tínhamos aulas online e recebíamos suporte com materiais e workshops. Eu era um aluno com notas boas, mas com certeza não era o melhor da minha turma ou mesmo da escola. Na verdade, não gostava do sistema de ensino, focado demais em reprodução de conhecimento. Então, para compensar, estudava programação, design e inglês online, por minha conta”.

No final do processo, em janeiro de 2019, Artur se juntou à Nicole dos Santos, que também havia se candidatado a universidades americanas via BRASA PRE para fundar o site Supermentor. “Muito do que havíamos aprendido se devia aos programas nos quais participamos. Decidimos então compartilhar as informações que recebemos, já que a maioria pessoas não sabe nada sobre o processo de application. Trouxemos mais 10 colegas e profissionais da área para nos ajudar a montar esse conteúdo com credibilidade e criamos a plataforma virtual”.

O site Supermentor tem por objetivo democratizar a informação sobre o processo de candidatura para graduação e cursos de curta duração em universidades americanas. Os conteúdos começaram a ser publicados em fevereiro de 2019 e oferecem informações sobre como estudar de graça nos Estados Unidos, como estudar inglês sozinho, e outras temas mais específicos relacionados ao processo de application propriamente dito.

Em março do mesmo ano, Artur começou a receber as respostas das instituições de ensino. “Apliquei para sete universidades pequenas e para Stanford. Fui rejeitado ou colocado em lista de espera nas sete universidades pequenas, mas Stanford deu certo e concedeu a bolsa integral. Eu fiz o application para a universidade e para uma bolsa de estudos, a única forma de poder estudar no exterior. Acho que meus projetos e experiência de vida agradaram. Pelo que entendi, minha história e vontade de contribuir para a educação foram importantes. Pensar que isso não é valorizado em algumas escolas é um erro.

Artur Barbosa no Leland Stanford Junior Museum | Foto: Artur Barbosa

Artur Barbosa no Leland Stanford Junior Museum | Foto: Artur Barbosa

Vim para Stanford em setembro de 2019, para cursar o programa de graduação. Aqui você não precisa declarar exatamente o que vai estudar até o segundo ano. Provavelmente vou me dedicar à Ciência da Computação, tenho muita vontade de contribuir para a transformação da educação brasileira por meio da tecnologia”, explica.

Recentemente, em função da pandemia do coronavírus, os alunos de Stanford receberam a notícia que o restante das aulas e as provas finais seriam realizadas online. Vários estudantes resolveram voltar para suas famílias e finalizar o trimestre de casa. No entanto, alguns alunos, principalmente os de baixa renda e os internacionais, puderam permanecer na universidade. Artur achou que não conseguiria se concentrar nos seus estudos da mesma forma morando com sua família no Brasil e, por isso, resolveu permanecer nos Estados Unidos.

“A universidade está cuidando muito bem de todos os alunos. Quem está no campus recebe os serviços básicos como alimentação e moradia e todo o suporte para navegar nesse momento tão crítico. Os bolsistas têm uma ajuda adicional para garantir suas despesas pessoais. Quem decidiu voltar para casa também recebeu auxílio de Stanford, como o pagamento de passagens.

Continuamos conversando virtualmente e nos ajudando nos trabalhos da faculdade. Alguns professores até aumentaram o nível de colaboração exigido nas aulas, mesmo que de forma virtual. Estudar online é um desafio para todos nós que tem exigido flexibilidade dos professores e dos alunos. Estamos em diferentes fuso-horários, nem todos têm boa conexão com a internet e estarmos longe, apesar de conectados, tira a experiência de contato humano que tanto facilita o aprendizado. Mas vamos lidando com o que temos, um dia de cada vez. O importante é que estamos seguros, a qualidade do ensino se mantém alta e a experiência, inédita para todos, tem nos ensinado muito.

Portanto, se você pensa em se candidatar no próximo ano, entenda que iniciativa e flexibilidade são tudo nesse processo. Se você não sabe inglês, faz um curso online. Se precisa de atividades extracurriculares, estude, se engaje na sua comunidade ou crie projetos que beneficiem pessoas. Sei que não é fácil, mas no limite do que dá para você fazer, tenta, porque as chances de dar certo podem ser maiores do que você imagina”.

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Também oferece assessoria em educação e carreiras internacionais.
Entre em contato: tissen@uol.com.br

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* Todas as fotos foram gentilmente cedidas por Artur Barbosa.

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